terça-feira, 14 de agosto de 2012

Se Eu Fosse Prefeita de SP

Por Denise Fernandes



         Se eu fosse prefeita, vocês veriam uma cidade maravilhosa. Mas logo lembro da música do Raul (mamãe não quero ser prefeita, pode ser que eu seja eleita e alguém vai querer me assassinar), e desisto logo do feito.

         Tenho realmente ideias maravilhosas, embora não tenha coragem para realizá-las. Não é a garoa de São Paulo que me assusta, mas a repetição de uma história de violência.

 Começando pelo aspecto da violência em São Paulo: mudaria completamente o perfil da polícia. Seriam contratados para policiais pessoas formadas em Filosofia, Ciências Sociais, História, Medicina, Enfermagem, Fisioterapia, Psicologia, Educação. Teriam salário de cinco mil reais e treinamento em artes marciais e tiro. Tipo filme mesmo. Pessoas com uma vocação para heróis do bem. Bombeiros teriam o mesmo salário. Os policiais de agora iriam, de alguma forma, ajudar a construir essa nova história. Eles seriam ouvidos.

         Continuando a "cidade limpa", e com o apoio de todos os arquitetos, retiraríamos as inúteis grades. Não as telas que impedem o pulo entusiasmado dos gatos ou das pequenas crianças que imaginam ter super poderes de voo. Retiraríamos essas grades que transformam os parques públicos num lugar que não é nosso, a piscina pública ainda como lugar de exclusão, as grades e portarias de todos os prédios e condomínios, as grades das escolas, as grades das prisões. Porque nós precisamos aprender a lidar com a violência. Ao invés de esperar uma polícia e uma segurança que não fazem nem bem para o imaginário da população, eu como prefeita instalaria a coragem coletiva: meu coração prefere ser respeitado e até temido do que viver assustado. Temendo o quê? O assaltante, o violento. Será que não podemos ser menos violentos? Acho que poderíamos tentar ser sem grades. Se a arquitetura diz a vida e a vida diz a arquitetura...

         Priorizaria a limpeza dos rios. Não ficaria discutindo com outros governos de quem é a responsabilidade; mas lançaria toda a cidade no projeto de limpeza dos rios. Se um negócio esquisito, dolorido, caro e, em certos casos, de gosto duvidoso pegou e virou moda, as pessoas são capazes de tatuar até... Pode virar moda deixar rio limpinho, cuidar dele, da rua, dos animais etc.

         O trânsito é violento. Libertaria a cidade num projeto envolvendo as cidades mais próximas da dependência econômica das indústrias automobilísticas. Se os interesses do café e da borracha foram deixados de lado, em outros períodos, poderíamos repensar as questões dos carros como propriedades privadas: realmente está bom da forma que está? As pessoas estão felizes com tanto trânsito e violência no trânsito?

         Também compraria o casarão tombado da Avenida Paulista, 1919, e moraria ali. Cuidando da casa, recebendo gente do meu círculo, gravando as cenas da minha propaganda e discursos ali; transformando-a numa referência para São Paulo e permitindo que eu investisse o meu dinheiro em algo útil para a cidade.

         Criaria, no máximo, uma administração participativa e iria sugerir a possibilidade do trabalho se organizar de outra forma, sem que todo mundo tenha que ficar andando de lá para cá no trânsito. Tempo precioso, necessário para atividades mais úteis, para si mesmo e para todos. 

         Sem grades e com outra polícia, acho que a cidade inteira conseguiria pensar melhor, agir melhor, sentir melhor.

         Eu também continuaria indo de bairro em bairro durante meu mandato, como teria feito no período de campanha. Também conversaria com eleitores de fato e não só para fazer cena para a câmera. Não iria a inaugurações e outras frescuras. Situações de bajulação e de aplauso forçado não fazem bem para o ego, para o desenvolvimento de qualquer cidadão. Como prefeita, eu tentaria ser um exemplo de doçura e sabedoria, de prontidão e dedicação.

         Começaria a divulgar os dados de suicídio da cidade e discutir porque algumas pessoas estão querendo morrer na nossa cidade; não deixando a responsabilidade desse pensamento para as famílias (como se elas fossem culpadas por essa sociedade escrota em que estamos vivendo, que culpabiliza o indivíduo, o enfraquece e o imobiliza). Coletivamente temos construído esse estado de tirania e medo, em que temos sidos tiranos muitas vezes de nós mesmos, aceitando o insustentável. Não a insustentável leveza do ser, mas a realidade caótica de uma cidade.

         Tem mais propostas, mas deixa para outra crônica...

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