Por Mayanna Velame
Nos tempos de universitária, o trajeto para chegar à
universidade era exaustivo. Para quem mora no andar de cima do país, as tardes
de agosto se resumem a temperaturas elevadíssimas e escaldantes.
Estive a bordo de um ônibus – que mais parecia uma lata
de sardinha – com cerca de, aproximadamente, quarenta alunos. Tempos árduos, com
certeza, mas que não se comparavam aos episódios que meus olhos flagravam. De
segunda a sexta, quando o semáforo exibia o sinal vermelho, lá vinha a humilde
idosa. Ela usava um chapéu de palha, que lhe cobria as têmporas grisalhas e orelhas.
As roupas eram gastas, desbotadas. Seus pés calçavam um par de sapatilhas. E o
rosto era sôfrego. Maltratado pelo sol. De carro em carro, oferecia modestos
panos de prato. Poucos motoristas abaixavam o vidro para atendê-la. E a pobre
mulher seguia, com aqueles passos pesados, contra o asfalto quente. Tudo para
seu sustento.
Dessa forma, eu sentia todas as revoltas do mundo.
Difícil aceitar a situação da senhora. Suas forças limitadas. O vigor físico
inexistente. A luta pela sobrevivência.
Eu nada sabia de sua história: se tinha filhos, netos,
marido. O lugar em que morava, o que gostava de fazer. Se acreditava em Deus,
nos anjos, na vida. Tantas perguntas para nenhuma resposta.
O tempo se fragmentou. E, com ele, os anos de faculdade. Formei-me.
Continuei a vida. No sol a sol de cada dia, sempre me recordo daquela mulher.
Outro dia, cruzei o mesmo semáforo. Mas ela não estava lá.
Talvez já esteja na morada dos anjos, ofertando seus panos de prato aos santos.
No céu, quem sabe, as pessoas sem qualquer posição social de destaque recebam
mais atenção, mais amor, mais chances...
As tardes de agosto continuam quentes e ensolaradas. Elas
são assim: projetadas no horizonte, soberanas e únicas. Inspiradoras,
transformaram a senhorinha do semáforo numa personagem. Ela representa tantas
outras mulheres esquecidas, por esse mundo de Deus.
Nenhum comentário :
Postar um comentário