quinta-feira, 3 de abril de 2014

Violações

Por Amilcar Neves*

 

Por isso lhe é tão estranho e difícil: porque ela adora livros.
 
Sim, há gente que ama os livros. Mais do que isso: existe gente que coleciona livros que tomam as prateleiras e os espaços disponíveis. Como uma praga. Livros são uma praga para quem gosta deles, reproduzem-se de forma vertiginosa. Ganham com isso os vendedores de estantes e armários embutidos.
 
Mais importante do que amar e juntar livros, há pessoas que leem livros. Leem-nos da primeira à última página, palavra por palavra, atentas e interessadas, sem saltar parágrafos, sem pular páginas, sem correr direto para o final a fim de saber como termina a história. Mais impressionante ainda: são pessoas que não conseguem ter as mãos vazias: finda a leitura de um livro, emendam um outro. E sempre saem satisfeitas e mais completas da aventura de ler. É gente que vê o que não percebem os que não leem, é gente que vislumbra as razões e motivações do que acontece consigo, à sua volta, com o mundo.
 
Ler. Ler quando os livros são caros. Mas há livros baratos. Bons e baratos. As livrarias costumam fazer promoções, geralmente em parceria com editoras. Feiras do livro habitualmente dão descontos. O pagamento de livros pode ser parcelado. E abundam sebos por todos os cantos, lugares em que se descobrem obras esgotadas, livros que não existem mais. Sem contar as livrarias virtuais, que são o terror das congêneres "de carne e osso" que empregam gente da terra, pagam impostos locais e giram a economia regional. Mas o fato é que há livrarias virtuais, com preços inacreditáveis e parcelamentos extensos, como pagar 15 reais por um livro de 40 e, numa cesta de compras de 60 reais, desembolsar 5 por mês durante um ano.
 
Isso no capítulo das aquisições. Mas existem as bibliotecas, tanto as públicas quanto as escolares, que emprestam de graça (há amigos que também emprestam livros, mas não recomendo esta operação nem mesmo com a própria mãe: livro emprestado é livro perdido, não há responso que o traga de volta). Se os acervos não são atualizados, cabe pressionar com veemência e indignação prefeitos e secretários de educação e de cultura. Ou, em alguns casos, ainda que possa parecer absurdo, o secretário de turismo ou de esporte, dependendo de onde tenham dependurado a biblioteca.
 
Uma alternativa para suprir a necessidade imperiosa de leitura aplica-se, infelizmente, apenas à minoria que dispõe de um computador de mesa, de um computador portátil, de um tablete ou de um celular esperto: os livros eletrônicos. Eles também custam dinheiro, mas existem, legalmente livres e gratuitos, milhares de títulos "vendidos" de graça, mesmo em português. Todos os clássicos são encontradiços nesse formato a custo zero. Conheço gente que aproveita o excedente da hora do almoço para ficar numa praça ou num café lendo seu livro ao telefone.
 
Ela é uma pessoa assim, voltada intensamente para a literatura, uma leitora voraz, o sonho de todo escritor: ela lê, ela lê em abundância. Outro dia, lia os Cinquenta Tons de Cinza quando, num dos ápices do livro, faltou-lhe texto: havia duas páginas em branco. E depois mais duas, e assim até completarem-se 16 páginas de vácuo absoluto. Escreveu para a editora e deram-lhe instruções sobre como proceder para receber um novo exemplar.
 
Esta a sua dor: ela, que venera os livros e cuida deles com o máximo carinho, precisa agora arrancar a capa do volume como se extirpam os olhos de alguém e enviá-la pelo correio. Só de pensar no que precisa fazer dá-lhe náusea.

* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 26.02.14

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