segunda-feira, 16 de setembro de 2013

semântica

Por Ana Paula Perissé
 
 
Imagem: William Blake
 

                                        signos em diagonal
                                        em transversalidade dantesca
                                        Oh! doce inferno
                                        suculento
                                        atrás de 1´fio
                                        mira tua sombra
                                        vária
                                        como em epíteto
                                        em fôrma de epifania
                                        circular

                                        elipses ao vento
                                        prostam-se
                                        à tua mudança de lua

                                        [resto sentido
                                        serpenteado ]



domingo, 15 de setembro de 2013

Ar Livre

Por Érika Batista
 
 



No campo o ar é livre
No campo o ar vive
Lá, o ar é feliz
ouvindo o canto dos pássaros
e a voz do povo que diz:
“Lá vem brisa de novo!”
Lá, o ar é livre
Lá, o ar vive
 

Na cidade, pelo contrário
O ar é limitado pelo horário
Por prédios e fios,
O ar é barrado
Nos becos sombrios,
O ar é parado.
Então, revoltado,
Ele vira furacão
E para que a gente
dele se lembre
Não só como necessário
Para nossa respiração
Causa muita destruição
e deixa tudo precário
na cidade e no coração
de cada cidadão
 

Ah! Nós somos o ar!
Na cidade, aprisionados
não somos livres para amar
Vivemos maquinados
Já no campo, a gente é livre
No campo a gente vive.

sábado, 14 de setembro de 2013

Relógio

Por Meriam Lazaro
 

 
 
Ó relógio, tens a fome
 
Das horas que apressam o tempo...
 
Já não sabes que é o agora,
 
Do amanhã, esquecimento?
 
Suspenso em teu próprio peso,
 
Vês da casa o itinerário,
 
Do carrilhão a leveza,
 
Da História o abecedário.
 
Tu pontuas na parede,
 
Com teu olhar arbitrário,
 
A fome de quem tem sede,
 
A corda do calendário.
 
Ó tic tac sem alma!...
 
Que imita meu coração,
 
Teu pêndulo só não cala
 
No peito esta solidão.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Estela

Por Mayanna Velame

 

Não que ela fosse feliz. Apenas tentava fingir ser companheira da felicidade. Na padaria, contemplava os atendentes com um sorriso aberto e ângulos perfeitos. Seu bom-dia ecoava como sinfonia singular nos ouvidos de quem o ouvia.

No ônibus, durante o trajeto para o trabalho, cedia seu assento para pessoas mais idosas. Gostava de ser gentil, delicada e amável. No entanto, o que mais apreciava eram os elogios recebidos por sua bondade.

Quando estava no escritório, deixava a mesa muito bem organizada. E nas reuniões, exibia suas ideias com bastante coerência e precisão. Certamente que, diante disso, congratulações e aplausos frequentemente faziam parte da sua vida. Dessa forma, Estela sentia-se, neste mundo ordinário, o ser mais especial e único.

Na hora do almoço, a boa moça não permanecia sozinha. Seus amigos de profissão sempre a procuravam. E juntos almoçavam, conversavam e sorriam. Estela, a protagonista de todas as horas e ocasiões.

Nos finais de semana, ela se entregava a seus prazeres. Tomava doses e mais doses de conhaque. Tragava todos os cigarros. No seu corpo, Estela fazia questão de vestir a roupa mais ousada do armário. Além disso, seus lábios carnudos eram delineados com um batom exageradamente vermelho. Na pista de dança beijava o José, o João, o Sandro, a Letícia e a Gabriela. Nas noites de sábado dormia na casa do Mauro ou da Carla. Ou então, divertia-se em algum quarto de motel com a Soraia e a Paula.

A luz de Estela parecia nunca se apagar. Seu brilho era intenso, assim como o sorriso cativante. Contudo, toda estrela, em algum momento, vai extinguindo o fulgor paulatinamente.

Durante as madrugadas frias, Estela caminhava sem rumo. Até se deparar com a porta do seu apartamento. Os devaneios sensuais haviam cessado. Recolhida no parapeito da janela, Estela observava o céu e as nuvens. O vento ameno afagava os cabelos loiros e despenteados. Pensativa, escutava longínquos ruídos da cidade enlouquecida e solitária.

Tempos depois, vencida pelo cansaço, Estela deitava na cama. A seu lado, não havia ninguém. Cerrava os olhos para a realidade.

No quarto vazio, o silêncio reinante. Onde estão seus amigos? Que amigos, Estela? Apenas sombras visitavam as paredes – testemunhas mudas da solitude humana.
 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Amargo Encontro

Por Valéria Lima

 

 


    Não bastou a decepção do quase romance.

    Não bastou o tempo jogado pela janela do Facebook.

    As noites em claro sonhando com algo que não me pertencia.

    Não foi suficiente a frustração de querer o que não era meu. Nem de ninguém.

    A dor engano perfurou meus sentimentos. Foi o banho de água fria no fogo da paixão.

    Subir degraus para chegar a "nós" foi pouco? Dedicar Engenheiros a você, foi demais?

    No fundo, nisso tudo existia mais eu e menos você.

    O excesso virou falta.

    E no final, tudo e nada deu no mesmo.

    De resto, depois de não bastar mais em mim, ainda amargo o gosto

    do nosso último encontro toda vez que você passa na minha rua.

 

Já me sinto jornalista. E como qualquer jornalista que se preze
adoro ler e escrever sobre tudo. De uns tempos pra cá,
tenho precisado urgentemente de poesia. Ela é como um antídoto para a dor.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Assombração

Por Fabio Ramos
 
 


correu
desembestou
pisou
em esterco
 

assuntou
com
vizinho
 

ninguém viu
nem ouviu
 

jurou pela
alma dos fio:
tião
vendeu pinga
não
 

(carece disso?)
(agora deu pra inventar causo?)
 

pela luz que
alumia
era
uma
visage
seu moço
 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Rarefeita

Por Denise Fernandes
 
 
As amoreiras estão carregadas. Para o sabiá, já é primavera.

F. me escreveu que não entendia quando eu escrevia amor com letra minúscula. Era diferente de qual forma do Amor com letra maiúscula? Bem que eu preferia uma dúvida mais fácil, é sempre uma pretensão falar do amor e do Amor. Misturados nas teias dos acontecimentos, é impossível pensar no Amor sem pensar no amor. Para alguns é mais fácil sentir apenas o amor, o “a” maiúsculo pressupõe um crescimento mesmo no amor que é inacessível para muitos. Para alguns é difícil o minúsculo, pessoas que voam, pessoas que querem voar e apenas Amar. O amor e o Amor não são tão diferentes. Essa diferença numa letra é uma certa diferença de qualidade, mas é como se os tipos diferentes de amor fossem tipos diferentes de manga, ou tipos de rosas.

         E. C. me lembrou num e-mail da angústia necessária. Essa companheira de sempre, que me leva a pensar, pensar.

         Nostalgia, lembranças. L. me disse que falo muito do meu passado, estou sempre me apoiando nas minhas memórias.

         Fico quieta, mas não conheço lugar melhor para eu me apoiar do que naquilo que já foi e que está sedimentado dentro de mim. Além do meu nome, sou minha história, sou também esse silêncio para não me explicar, esses sentimentos. Sinto saudades.

         “Saudade começa a caber dentro do mar, depois o Oceano transborda.” Escreveu com luz C. L. em seu livro “Rarefeito”. Estou rarefeita, transparente, menos marítima que C. L., meu nome na terra, minha procura, meu amor cheio de Amor.

         Também sou denise e Denise, há um lado de substantivo comum jogada no mundo quando escutam denise, já sabem quem sou, mesmo eu-mesma não sabendo. E mesmo quando estou no mundo sem que nada me distinga, tenho dois nomes marcados dentro de mim, denise e Denise. Esses nomes levo em segredo enquanto caminho. Sinto que há neles uma força, mas viver sem nome também seria possível. Só não quero viver sem Amor. Ou sem primavera.

         A quaresmeira florida que é minha e de C. L. brilha. O mar se repete. Sinto amor e Amor.
 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Um Perfume Para o Fim do Mundo

Por Ana Paula Perissé
 
 
Imagem: Oleg Oprisco
 

                                     (uma essência pronta,
                                     desde a primeira explosão
                                     aguarda-te)

                                     guardada como segredo
                                     em essências sutis
                                     borrifadas de
                                     herança roubada
                                     QUEDA!
                                     sem divinare.

                                     perfume a perturbar
                                     de suave a acre
                                     de negra pétala
                                     dois tons acima
                                     ou abaixo
                                     em subterrâneos
                                     de cada ser.

                                     notas de cabeça
                                     em rituais de passagens
                                     prelúdio de vida
                                     insana
                                     abençoadas
                                     pelo devir de nada ser ou esperar

                                     1´perfume pronto?
                                     notas de fundo, madame
                                     a encantar
                                     cada níquel derramado à parte
                                     que lhe cabe

                                     1´essência sutil
                                     em peles queimadas
                                     de não mais poder
                                     passagens em pairagens
                                     presentes

                                     aqui,
                                     em paisagens de inebriante odor.
                                     (notas de coração)

                                     Le Grand Finale.