quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Endorfina ou Cocaína?

Por Fabio Ramos




                    submete
                    outro efeito
                    aplacando tormentas
                    na superfície

                    redemoinho
                    em água reflexo
                    boia afunda
                    quem sabe drague
                    sugado pelos
                    canos

                    baque
                    de alfaia
                    contra o peito
                    liquefaz
                    vossa muralha
                    sem deslocar
                    um
                    milímetro
                    ou permitir
                    fissuras

                    realidade como bofetão
                    quando a euforia
                    dissipar

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Pitoco

Por Denise Fernandes

 

         Pitoco é o nome da rolinha que na semana passada apareceu aqui na vila com a asa machucada. Cauê, meu neto, e seu amigo Victor batizaram a rolinha e eu, rapidamente, fui convocada na ajuda ao pequeno animal. Achei uma caixa ótima de palha, bem espaçosa. Demos água e fubá. A rolinha ciscava a fubá com prazer, parecendo feliz. Seus olhinhos brilhantes, super brilhantes nos conquistaram.
         Depois de cinco dias de fubá e hospedagem no lar de palha, Pitoco parecia pronto para o voo. Assim, soltamos e sim, ele estava pronto para todos os voos. Pitoquinho... que saudade de você!
         Há uma grandeza nesses amores que libertam de forma tão clara quem se ama. Há uma saudade que você encara com coragem. Quando saí da casa dos meus pais, saí sabendo a grande saudade que levava, mas precisava ir. Para ser livre. Quando me separei sabia mais ou menos da quantia de saudade que levava, mas precisava ir. Sou como a rolinha que ama ir, mesmo sem saber para onde. Alegria de não estar contida. Tomar um café a hora que eu quiser, a liberdade como o contato com a substância mais fina da vida, volto quando quero. Pessoas que me esperam porque me amam. Vou porque amo tanto que amo o além também. Vou porque amo voltar.
         Asas do desejo, dos incertos caminhos: desdobra-se sobre as paisagens que me trazem saudades. Ainda livre, meu coração me pesa, matéria densa de tanto e tantas, coraçãozinho de criança no corpo de mulher. Enquanto voo, penso melhor, esqueço melhor. Descubro outra trilha. Coração selvagem, coração de vidro, coração de sabão. Coração de pitoco.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

É Melhor Ser Feliz do que Ter Razão

Por Rosimeire Soares

 

O ser humano procura angariar fatos e sonhos para que motivem sua existência. Formatura, sucesso profissional, amor perfeito são objetivos em diversas fases da vida.

Porém, nessa constante busca, não tardam para as adversidades aparecerem e as concessões que fazemos são mínimas. Assim, multiplicam-se os momentos em que temos que demarcar a nossa posição e fazer valer nossa razão.

Razão. Se a temos notoriamente, transfigura-se a comodidade de que somos abastados. Se temos de reforçar essa razão, se temos de prová-la, denota o quão frágil ela é. É melhor ser feliz.

Para ser feliz temos de buscar motivações que neutralizam sentimentos de angústia e falta de norte. Em muitos momentos a razão que poderia ser a âncora deve ser deixada para um momento posterior. Ser feliz é agora.

É melhor ser feliz em detrimento da razão. Se mantiver a razão, mas amparada pela dúvida e descrédito, melhor é perdê-la e cultivar a paz interior.

Ser feliz é decisão. Ao decidir ser feliz, o indivíduo deve camuflar ou ignorar algumas razões e, inclusive, liberar perdão. Quem quer provar que está provido de razão e guarda rancor está perdendo a oportunidade de fazer da serenidade seu forte aliado. Perdoar é mais importante do que ter razão.

Ao desejar provar seu posicionamento, descobre-se que ser muito autêntico é expor-se demais e tornar-se vulnerável – descobrir que não se é importante em todos os lugares e para todas as pessoas.

É preciso estar convicto de que sua razão pode não ser razão para outrem, por isso, impô-la pode colocá-lo num terreno instável, provocando infelicidade. Melhor não ter razão!

Caso os enunciados desse artigo causem inquietações, refutações, tudo bem. Prefiro ser feliz!

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Testemunho de um Patrício

Por Érika Batista
 
 
 
 
                                 Meu nome é Tacius.
                                 Meu domo em Roma.
                                 Fui ao futuro. 

                                 Havia termas dentro de casa
                                 E aquedutos pelas paredes
                                 De cujas pontas jorravam pequenas cachoeiras.
                                 Mas os homens ainda
                                 amavam, sonhavam, morriam. 

                                 O único lugar onde falavam minha língua
                                 Era num tal “Instituto de Botânica”.
                                 E havia mais cidades que florestas.
                                 Mas os homens ainda
                                 amavam, sonhavam, morriam. 

                                 E havia peixes em metal
                                 Pães em papiro
                                 (“Mais higiênico”, diziam,
                                 e depois jogavam no chão).
                                 Mas os homens ainda
                                 amavam, sonhavam, morriam. 

                                 No circo havia um ser
                                 Com uma bola vermelha no nariz.
                                 Talvez tenha sido por isso
                                 Que foi difícil achar um.
                                 Mas os homens ainda
                                 amavam, sonhavam, morriam.

                                 Os homens voavam e
                                 Diziam ter ido a lua e
                                 ter sido visitados
                                 por habitantes de lá.
                                 Mas os homens ainda
                                 amavam, sonhavam, morriam. 

                                 Um botão pôs fogo em uma cidade.
                                 Mas os homens ainda
                                 amavam, sonhavam, morriam. 

                                 Mulheres iam a escola
                                 Mulheres dirigiam veículos
                                 Mulheres dirigiam nações
                                 Mas as mulheres ainda
                                 amavam, sonhavam, morriam. 

                                 As pessoas viviam dentro de pequenas caixas
                                 Mesmo as que estavam do lado de fora.
                                 Mas os homens ainda
                                 amavam, sonhavam, morriam. 

                                 Os patrões podiam
                                 Abandonar seus escravos
                                 E trocá-los quando desse vontade.
                                 Mas apesar de tudo, os homens ainda
                                 amavam, sonhavam, morriam. 

                                 Quando voltei riram de mim.
                                 Me chamaram de sonhador.
                                 Perguntaram se estava louco
                                 ou apaixonado.
                                 Insisti, me ameaçaram de morte.
                                 Sorri. Tudo bem. Eu sou humano.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Achismos

Por Fabio Ramos




Eu pesquisei
Tu difamaste
Ele torceu o nariz
Nós gargalhamos
Vós bufastes
Eles reproduzem achismos

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Carta a Vinícius de Moraes

Por Denise Fernandes



         Caro poeta: te amo. Por isso te escrevo. Motivos: amor, carnaval, saco cheio. Não quero amor chama: quero amor terra molhada. Não quero carnaval sem fantasia. Quero o calor do carnaval no meu corpo e esse calor não se compra.

         Se eu sair agora encontrarei alguns quilômetros de trânsitos e várias filas. Toda vez que encaro uma acho que tem algo errado, que estou perdendo um tempo precioso. Mas talvez seja só impressão, talvez eu esteja aqui para simplesmente estar e são meus sonhos a corroer o que seria aceitação e essa vontade de sair correndo, correndo, é algo meio Forrest Gump, nesse meu filme sem diretor.

O mundo parou? A estrela morreu? A piedade está desesperada? Me abrace, poeta. Quero amor floresta, amor com a densidade da poesia. Sou letra de uma música inacabada, poeta, me dê os limites de alguma rima. Sou como ti, um grande sonho obscuro em face do Sonho, uma grande angústia obscura em face da Angústia, a imponderável árvore dentro da noite imóvel. Ontem de madrugada procurei pela Lua e nada. E fiquei ali, ouvindo o silêncio, sentindo tua falta e também sentindo saudade de mim. Já fui melhor? Quando? A noite serena sem lua me irrita. Vou dormir com vontade de correr e acordo no mesmo lugar. Com mais vontade de te ouvir, te abraçar: salve-me poeta, salve-me! 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

De Nácar a Naco

Por Rosimeire Soares

 

“Estou chegando.” É a voz aflita, falando de um dispositivo telefônico, próximo à civilização.

“Tenho muitos sonhos, muitas vontades.”

Ela camufla a dissimulada donzela promíscua que abana flores dentro de seu ser.

Sonhos? Que sonhos? Ah, vontades... Vontade de vida fácil, de fazer parte de roda de abada, mesa de bar, poeira de estrada, carona de caminhão.

Ela tem vontade de ir à forra, liberar o deleite carnal, se lambuzar na estreita juventude que jorra de seu útero inaugural.

“Seu nome, senhorita?”

“Phelia” Ela usa o PH, abandonando os fonemas originais, familiar.

Ela quer gozar prazeres pecuniares e desbravar os mundos urbanos e suburbanos. Quer extravasar agonias pueris, amor Eros, ser prostituída por um homem de cada vez.

Ao amanhecer, não quer conhecer seu patrão, quer o salário digno que desabrocha dos seus vinte anos. Não quer conhecer poesia, música, ou sentimento qualquer.

Ela quer bailar a ignorância de um ser inútil, fútil, frívolo, leviano e as taras de um macho por qualquer cobre que cubra sua mendigagem.

Como ser herege que se tornou ou aflorou, anuncia sua chegada para triunfar no palco de sua própria limitação.

Inês ou Phelia (com ph), a sina, a vontade. Seu nácar se mistura à areia da obscuridade e abandona a ostra. Sua ignomínia a derrota e se derrama como piche, soltando mancha de dor e sofrimento no asfalto.

Quebra-se o sonho, quebram-se as vontades: Phelia, o naco da humanidade.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

SAAAAAANNNGUI

Por Érika Batista
 
 
 
 
                  O céu fazia tons purpúreos
                  Da explosão de bomba H
                  Houve sobreposição de universos

                  A galinha afogada gorgolejava e cacarejava
                  Sendo a música bonita.
                  E uma pedra no caminho – uma pedra
                  homérica imensa catastrófica colossal

                  Subindo a escada se falava:
                  – Espadas azuis falsificadas! – (cara de indignação)
                  De concreto, ainda por baixo!
                  pra não poder levantar do chão 

                  “O metal  é a lei
                  A lei é o metal
                  O metal a lei é”
                  Metaaaaal Uôôôô – Grrr!

                  Tiros – tiros – Rambo – morte
                  E o impulso feroz de turbas massificadas
                  De massas turbadas – perturbadas – pré-turbadas – pósturbadas
                  Abutridão inata
                  Um acidente na esquina.

                  Sangue. SAAAAAANNNGUI!
                  A galinha afogada gorgoleja.
                  O mundo geme de prazer