segunda-feira, 17 de novembro de 2014

extraño concierto

Por Ana Paula Perissé
 
 
Imagem: Anke Merzbach


                         às vezes
                         olho por tua janela
                         e sinto detalhes de
                         imensidão´visceral
                         e ao voltar
                         cá dentro de mim,
                         aridez
                         inominada.



                         retorno então,
                         assim desesperada,
                         ao encontro da vida
                         que há
                         de nos rondar
                         a-temporal
                                                                 em  extraño concierto


                         como espécie de taça
                         esperando por 1´brinde
                         único
                         simplesmente
                         a-verbal
                         sem tom nem destino.
                         .
                         .
                         .
                         labiríntico gutural
                         assim
                         tanto faz.

 

domingo, 16 de novembro de 2014

Tolo

Por Oswaldo Antonio Begiato
 
 
 
 
A hora que puderes vem te despedir de mim. Sem óculos escuros.
Não tragas rosas vermelhas. Traze margaridas brancas.
Ou não tragas flor alguma.
Canta a minha música preferida. Se possível duas, três...
Canta baixo para que só eu ouça. Ou não cantes nada.
Não dês ouvidos às coisas ruins que falarem de mim.
Ouve somente as boas.
Ou não ouças nada.
As boas coisas guarde-as como alívio para ti, desse velho tolo que não soube amar.
Ou não quis, e que parte agora, feito um cusco de três pernas,
Sem descobrir o quanto tu foste capaz de amar um rabugento.


A hora que puderes vem me observar, imóvel. Frio. Findo.
Traze olhos cheios de ternura e mel na boca. Sem lágrimas. Sem amargor.
Recita versos do sul. Os mais bonitos que eu já ouvi. Quintana. Lupicínio.
Não, melhor recitares os teus.
Ou não recita nada.
Não notes meu estado esquelético e feio, mas veja a alma singela
Que escapou do corpo arruinado pela arrogância e pela boemia
De um velho tolo que nunca soube escrever um poema de amor.
Um poema de amor pra ti.


A hora que puderes vem me ensinar a não ser tolo.
A não ser tolo na eternidade. Se é que eternidade existe, porque tu, agora,
sei que existes.

sábado, 15 de novembro de 2014

Como tratar bem o colesterol

Por Meriam Lazaro
 
 
Imagem: Meriam Lazaro


Primeiramente, munido de uma sacola ecologicamente correta, passe no Mercado Público. Na banca de vegetais, aprecie com moderação pepinos japoneses, couves-de-bruxelas, limões sicilianos. Com cara de entendido, pode apertar alguns tomates (os feirantes adoram!). Depois, disfarçadamente, avance em direção à Banca do Holandês. Antes que a polícia internacional apite, peça rapidamente: torresmo, salaminho, gorgonzola, azeitonas, bacon. Para agradar sua mulher, compre algumas fatias transparentes, de preço proibitivo, de mortadela tipo bola. Prepare-se para a fiscalização doméstica, jogando por cima da sacola um pé de alface (aquela coisa fresca e verdinha). Ao abrir a porta, pergunte: – Meu bem, adivinhe o que eu trouxe para você?! Depois dos beijos de agradecimento, passe livre para o jogo de futebol pela televisão, com a turma da cerveja na casa ao lado. Hora de tratar muito bem o colesterol. No dia seguinte, para baixar a pança, não tem remédio. Melhor procedimento é prostrar-se na posição de Meca e rezar. Reze, meu amigo sem noção, reze para que os outros não tenham olfato.
 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A fuga

Por Mayanna Velame
 
 


Os ponteiros registram meia-noite. Esse é o último horário que meus olhos conseguem enxergar no relógio pendurado na parede da sala.
 
Desesperadamente, me lanço contra a janela fechada. Estilhaços de vidro perfuram meu rosto, meus braços e meus dedos. A queda me fragiliza. Sinto-me fraco e indisposto. Agora eu não posso olhar para trás. Estou sendo perseguido com fúria. E meu caçador está com uma espingarda nas mãos, pronto para atirar em seu alvo.
 
Corro o mais rápido que posso. Tropeço entre galhos secos e raízes retorcidas. Estou fugindo feito um animal ferido e abatido... Não posso desistir, não posso!
 
O suor transborda dos poros, umedecendo minha pele. Retiro o casaco, desabotoo a camisa branca de mangas compridas. Estou suando veemente a cada légua percorrida. Pouco a pouco, minhas pernas sentem o peso do cansaço. A noite imponente me assombra, perturba-me. A lua cheia enfeita o céu. Ao seu redor, farrapos de nuvens que ora se exibem, ora se escondem entre a folhagem de árvores centenárias.
 
Meu coração bate frenético. Paulatinamente, vou perdendo o fôlego. O caçador se aproxima. Vejo sua sombra refletida na terra enluarada. Posso até sentir sua respiração ofegante.
 
Ele não me matará!
 
Os grilos começam a cricrilar mais alto. O coaxar dos sapos mistura-se com minhas pisadas sobre as folhas secas.  Acelero os passos. Meu tempo está se extinguindo. Uma vertigem me tortura. O mundo gira ao meu redor sem cessar. Num momento, deixo de andar, inspiro fundo, cerro meus olhos. De repente, escuto um tiro perdido ecoando na mata.
 
Meu ombro esquerdo está sangrando. Fui atingido pelo caçador. Cinicamente, ele solta uma gargalhada demoníaca e assustadora. Encontro-me encurralado, sou ferido em uma das coxas. A morte parece iminente.
 
Meu assassino se aproxima. Estamos frente a frente. Durante alguns minutos, ele e eu permanecemos taciturnos. Seu olhar reflete ódio e decepção; mapeando sem restrição o meu medo. A verdade é que não acho forças para falar e me justificar. Palavras benevolentes fogem da minha boca. Até que, então, o caçador rompe com a nossa omissão:
 
– Maldito, saia da minha frente!
– Você já me deu dois tiros. E agora estou aqui, diante de você. Por que não me mata logo?
– É isso que você quer?
 
Feito um felino endiabrado, fujo pela floresta (esquivando meu corpo de qualquer obstáculo). O caçador continua atrás de mim. Ele me dá cinco minutos para eu chegar até uma cabana abandonada ao Norte.
 
Confiar nas palavras de seu inimigo jamais será uma boa pedida. Agora estou diante de um precipício; tendo o caçador logo atrás. E não havia nem uma cabana...
 
– Seu idiota, agora pule!
 
Esquadrinho bem os olhos marejados. Enxugo o suor do rosto com as costas das mãos. Corajosamente, peço que ele me mate e jogue meus restos mortais no precipício.
 
O caçador está cada vez mais enrubescido. Sem hesitar, ele mira sua arma em direção às minhas têmporas. Em seguida, aperto os olhos e recebo uma coronhada na nuca. Como um saco de batatas, meu corpo é arremessado no abismo... Estou caindo.
 
Minutos depois, a água do rio me banha. Meu corpo estremece. Não sinto mais os dedos e nem os pés. Tento respirar, tento sobreviver. Sou um homem tétrico, minha vida segue como um barco à deriva, sendo soprado pelo vento – reconhecendo os erros que cometi e os pecados que nunca neguei.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O que vamos definir, afinal?

Por Amilcar Neves*

 
Espiando assim bem de longe essas eleições que se aproximam, fica a recorrente impressão de que não conseguimos distinguir com clareza o que precisa ser feito. Tal impressão renasce das declarações que começam a ser dadas, alfinetando os adversários próximos (aqueles que se comporão no segundo turno) e distantes (que serão os contendores a bater), mas robustece-se com maior vigor e inclemência com tudo o que já rola nas redes sociais, ampla arena de confrontos múltiplos, de escaramuças sangrentas, de cultivo de ódios ancestrais e injustificáveis. E de demonstrações de extrema deselegância e falta de civilidade.
 
 
No entanto, trata-se apenas de uma eleição. Mas isto, obviamente, não é verdade: para muita gente, significa garantir o salário por mais quatro doces anos. Outros veem o embate como confronto de ideias e/ou ideologias e, por consequência, como uma decisão entre visões de futuro distintas para o País, o Estado e, soberanamente, para o povo brasileiro.
 
 
Assim, como em eleições anteriores, fica sempre a incômoda sensação de que somos chamados a escolher o novo Papa. A escolher a nova Madre Superiora do Convento. A buscar alguém que vista o Corpo Puríssimo de Maria, quase como se fôssemos instigados a buscar entre os candidatos e candidatas, e sufragar pelo voto universal, nada menos do que o homem casto, do que a mulher virgem. Queremos mesmo eleger candidatos que não tocaram o pó das estradas, que se isolaram das asperezas da vida?
 
 
Felizmente, só temos seres humanos em quem votar. Gente que não é perfeita, que já cometeu e, com certeza, ainda comete os seus pecados, maiores ou menores. Devemos condenar algum candidato, riscá-lo da nossa lista de preferências, porque um dia fumou um baseado, cheirou uma coca, bebeu em demasia, envolveu-se com prostitutas ou participou de algum episódio meio escuso, situado naquela zona nebulosa que impede o juízo absoluto sobre o certo e o errado, a distinção maniqueista entre o bem e o mal?
 
 
Se critérios como esses predominarem, não sobrará ninguém, a começar por nós mesmos, eleitores. Além disso, convenhamos: o homem impoluto, a mulher pura, podem revelar-se desastrosos administradores públicos, horrorosos negociadores, lamentáveis julgadores - podem ter as piores ideias possíveis para melhorar o mundo, já que sofrerão talvez a tentação de privilegiar o que se aproxime do seu modelo de vida e comportamento. Vocês já pensaram como seria triste viver num mundo em que todas as pessoas fossem homogêneas, iguais, similares, se todos fossem iguais a você? Seria muito pior do que o comunismo.
 
 
Então, vamos avaliar o que importa de verdade, e fazer a nossa escolha de acordo com considerações mais elevadas. Não estão em disputa, não estarão em disputa, virtudes pessoais contra defeitos pessoais, mas, sim, projetos de futuro para o Brasil. Ou aceitamos que a prioridade deve ser dada ao ser humano, que governo e empresas privadas têm de trabalhar para o ser humano - para todos os seres humanos que habitam o Brasil - ou confiamos ser melhor entregar tudo ao deus mercado e deixar que as empresas, e especialmente as grandes corporações, ajam com desenvoltura fazendo o que lhes pareça melhor porque isto automaticamente será melhor para o País e para as pessoas, ainda que o seja para uma minoria da população.
 
 
Ou aceitamos e desejamos que mais e mais brasileiros ascendam a melhores condições de vida ou lutamos para manter privilégios polpudos para uma minoria, torcendo desesperadamente para contarmo-nos entre esse grupo de abençoados.
 
 
Mudar é sempre positivo, desde que seja uma mudança para melhor. Para piorar, fiquemos com as coisas como estão. É infantil e irresponsável ser simplesmente contra sem dispor de alternativas que apontem verdadeiramente para perspectivas de avanço - pelo menos no sincero e desprendido entendimento de cada qual de nós.

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 29.07.14

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Parecer e Ser

Por Fabio Ramos
 
 


quebrar o
espelho
não
te fará
um quilo mais
magra
 

espalhar
tuas mentiras
não
produzirá
uma só verdade
 

máscara no
rosto
não
mudará
o semblante
 

(monstro)
 

esconder a
idade
não
reduzirá
um ano de sua
vida
 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

sem açúcar

Por Ana Paula Perissé
 
 


                                               verte-me caos
                                               verte-me vida



                                               na ponta vívida
                                               de um cume sedutor



                                               não deixo
                                               de amar
                                               nem que seja
                                               por 1´rasga fosca
                                               d´idéia
                                               mal concebida



                                               vem-me dolor
                                               simplória
                                               de existir
                                               a sonhar.



                                               tão


                                               sozinha
                                               patética
                                               e sem açúcar.

 

domingo, 9 de novembro de 2014

Que pena isso!

Por Oswaldo Antonio Begiato
 
 
 

Prosternado
Pelo teu impetuoso lado
Deixo esfolamentos
Ficarem nos muitos momentos
Que deserdei
Quando ainda eu era rei
 
 
Consternado
Por meu imprevisível lado
Fico muito triste
Na ausência tola que insiste
Na minha vida
Como vida removida
 

E assim vou bastardo, de déu em déu