quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Soledade

Por Fabio Ramos
 
 


largada
no
canto
 

és
tu
viola
 

fêmur
pra
encaixar
?
 

afinação de
cordas
?
 

alguém pra
ensaiar
um
mero
dedilhado
?
 

esqueça
 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Real

Por Denise Fernandes
 
 
Imagem: Michael Godard


a parte real são as libélulas
junto com o verão
e a parte surreal é o real,
não esperava você.
 

Minha vida seria a alegria
de uma foto bem colorida,
não esse espelho buraco
onde você diz
estou mal
e tudo se parte,
você acha que não faz mal,
é real, e eu achando surreal.
 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

vertigem de nada

Por Ana Paula Perissé
 
 


                                              ordeno o inverso
                                              de quase tudo
                                              para fazer emergir
                                              vertigens de nada,
                                              aquele arrepio
                                              à beira de cais,

 

                                              desfaço ondas
                                              ao sabor de veneno
                                              ébrio
                                              flores e descarrego
                                              sal grosso
                                              e 1`passe
                                              para maldita
                                              eterna-idade


                                              saboroso
                                              espectro
                                              de quem vive
                                              de facto
                                              com a carne
                                              exposta


                                              e dou cara à tapa
                                              ao poema
                                              farsante
                                              sado-masô


                                              em delicioso espelho
                                              a sombras de
                                              seda preta


                                              barata
                                              molhada
                                              ardida
                                              .
                                              .
                                              .
                                              gostosa

 

domingo, 12 de outubro de 2014

Caldo de feijão

Por Oswaldo Antonio Begiato
 
 
 
 
 
               Pela manhã acordei cheio de passado.
               Assombrado com a beleza do dia imensamente lúcido
               Tive vontade de tomar sopa de caldo de feijão.
               De ficar, afagando o frio da tardinha, ao redor do fogão à lenha
               Observando minha mãe fazer, como fazia naqueles dias de inverno,
               A sopa de caldo de feijão com lingüiça caseira e macarrão Ave Maria.


               Ave Maria:
               - Era a prece que rezávamos antes da refeição
               Nos tempos em que tudo era tão abençoado.


sábado, 11 de outubro de 2014

O que te move

Por Meriam Lazaro
 
 
Imagem: Meriam Lazaro

 
A mão do motor do mundo e que também me movimenta é... Não sei, mas posso tentar não dizer nada com algumas palavras.

Apostando na astrologia de bolso, o motor do mapa astrológico é representado pelo signo ascendente. Não é o signo do mês em que nascemos. Esse é o solar e com algumas variações vai do dia 21 de um mês ao dia 20 de outro. Ascendente é o signo da hora do nascimento, aquele que nos injeta ânimo quando nos socorremos dele. Às 16 horas, quando desci ao mundo para o chá da tarde, no horizonte estava o signo de Gêmeos, um signo do elemento ar: estudos, comunicação e não sei o que mais. Alguém já definiu o signo de Gêmeos como uma porta giratória de banco, sugerindo que devemos ser rápidos e objetivos ao falar com um sujeito assim. Do contrário, quando estivermos no meio da fala, ele já estará lá na esquina. Piada tem que se curta, senão ele não ouve até o fim.

Ainda, na minha vasta ignorância astrológica, o que me move poderia ser representado pela alegria de aprender algo novo ou reaprender o que eu só julgava saber, mas não sabia. Ler é exercício delicioso, mas ler algo que nos surpreenda é ainda mais prazeroso. O que dizer então de encontrar no texto aquela opinião que julgávamos originária da nossa mente, mas está ali bem dita pelo estudioso do assunto?!

Naturalmente, muito pouco do que pensamos como ideia original, original será. Quem muito lê, muito assiste vídeos e muito escuta daqui e dali é um colecionador de ideias. O que pode ocorrer é que as ideias entrem naquela parte mais larga do berrante (ou corno) e sejam filtradas pela parte mais fina que fica junto a orelha, dali sendo processadas e devolvidas depois como se fosse ideia própria. Não é exatamente plágio, porque não temos ciência do que veio e de onde veio nesse bombardeio de informações em que estamos mergulhados pelos meios de comunicação.

O conhecimento gera empatia. Saber detalhes da vida daquele chefe estressado, não justifica o seu modo de agir, mas pode nos fazer mais compreensivos com ele. Descobrir, recentemente, uma coisinha e outra sobre fotografia me fez apreciar nos vídeos o trabalho precioso dos homens das câmeras. O conhecimento de como é feito um filme não faz com que se perca a magia do cinema. Pelo contrário, penso que nos renova o interesse!

Há algo
que também move o mundo, diferente da aquisição de conhecimento novo ou do olhar renovado sobre o prévio conhecimento. Algo que está em tudo. No nascer e pôr do sol, nas fases da lua, no canto dos pássaros, etc. etc. e etc., como diria o rei de Sião. Alguns dizem que odeiam. Outros tem o privilégio de vive-la com honra. No entanto, todos nós somos a ela sujeitos. Sem ela nossos órgãos entrariam em colapso, as marés enlouqueceriam, cairíamos em direção às estrelas quando estivéssemos de ponta cabeça no espaço. Não falo do movimento de rotação da Terra, embora faça parte. Falo, isto sim, da rotina.

Estranho dizer que a rotina é o que nos move, mas é verdade. Quem perdeu alguém recentemente (ou há mais tempo) sabe do que estou falando. Como uma cadeira vazia à mesa nos faz querer voltar à rotina de dias que não voltam mais. Nesses casos quem não consegue encontrar nova rotina, entra em depressão. Rotina, no entanto, não quer dizer automatismo. Podemos ver, falar, fazer, tudo com um novo olhar, com uma nova entonação, com um novo jeito. E isso nos levará à aceitação de que não temos controle sobre o que nos move e às vezes, como é o caso aqui, nem ideia. Tudo isso é culpa de quem? Dos astros! Vamos jogar pedra na Lua?
 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Adeus

Por Mayanna Velame

 


“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”. Salomão, o mais sábio dos reis, nunca foi tão preciso quanto nessa afirmação.
 
A chuva, o calor, o nascer, o morrer. Todos condicionados ao tempo certo e devido. Reflito bastante sobre tal passagem. Porém, o que mais me comove é o tempo de saber partir. O tempo de dizer adeus.
 
O adeus é inevitável. Cedo ou tarde, vamos nos evadir da vida de alguém – ou até de nós mesmos.
 
A verdade é que partimos diariamente. Quem ama sabe que, muitas vezes, é necessário dizer adeus. Ansiamos por despedidas breves (como um raio no céu). Mas temos certeza que não é assim: todo adeus é preenchido com tristeza, dor e mágoa.
 
Pessoas vêm e vão em nossas vidas. E os amores que vivenciamos, as amizades seladas, paulatinamente tornam-se fragmentos. Cada adeus é uma história que escrevemos, e/ou que deixamos de escrever.
 
Todo adeus traz saudades – e também lembranças.
 
Lembranças são retalhos que enfeitam nossa memória.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Crônicas viajam de ônibus

Por Amilcar Neves*

 

A explicação é simples: crônicas viajam de ônibus porque as pessoas viajam de ônibus. E crônicas, todos sabem, são feitas de pessoas.
 
 
A pergunta é recorrente: como fazer para encontrar crônicas? A temeridade de uma por mês, por exemplo. Ou o terror de uma por semana, quem sabe. Ou a insanidade absoluta de uma por dia, talvez. A resposta, acadêmica, é invariavelmente a mesma: crônicas são encontráveis quando as procuramos. Procura-as e as encontrarás. E não demora nada achá-las. Em qualquer lugar. Ônibus são ótimos locais para examiná-las bem de perto, mas pode-se buscá-las em todo ambiente. O necessário, o fundamental é sair disposto a encontrá-las e ter um pouco de cuidado para conseguir vê-las, para identificá-las como tais, antes que se evaporem como por encanto. Crônicas também costumam ser extremamente esquivas, lisas e fugidias. Meio assim como pegar peixe na água com as mãos ensaboadas.
 
 
Como peixes, não é raro que as crônicas tenham escamas, que é preciso removê-las com perícias de artesão para que se revele a essência do seu corpo. Todo mundo sabe o que são as escamas numa crônica: basta não senti-la macia, leve, quase imponderável.
 
 
Os ônibus, para quem não embarca neles dentro já de uma geringonça eletrônica que engole seu portador, cegando-o e ensurdecendo-o, apresenta a vantagem adicional de permitir ao cronista a ruptura com a correria do cotidiano, levando-o ao estado contemplativo ideal para fazer com que as crônicas - duas, três, cinco, uma dúzia - pulem ouriçadas em seu colo e comecem a brincar com ele, seduzindo-o e fazendo-lhe propostas impublicáveis na disputa, cada qual, pela preferência do autor que saiu a buscá-las.
 
 
Por isso, acima de tudo, é que se diz que as crônicas viajam de ônibus.
 
 
Note-se, porém, que tratamos de crônicas, o que significa falar de viagens entre Centro e bairro ou vice-versa. Uma viagem de ônibus até Curitiba resultará, sem dúvida, no encontro com um conto, enquanto o trajeto em ônibus de Brasília a Belém te fará, ao cabo, dormir na Amazônia nos braços de uma robusta novela, pelo menos.
 
 
Crônica 1
 
 
Celulares foram uma excelente invenção como máquina de leitura do pensamento. Ao celular, mergulhadas nele, as pessoas se julgam enfiadas num orelhão com isolamento acústico. Às vezes, estão expostas, quase nuas, no interior de um ônibus parado ou em movimento.
 
 
"Vamos faturar essa, sim! Fico toda arrepiada só de pensar nesse contrato, parceiro!"
 
 
"Claro, já vi tudo, as crianças vão ser recebidas... Sim, sim, independente de serem ricas ou mais carentes, todas vão..."
 
 
"Vamos ter gente treinada para receber os clientes, os pais das crianças, e não vamos deixar ninguém sem atenção, ninguém vai sair sem ter visto o que nós precisamos que vejam. Claro, claro! Vais sentir orgulho da equipe, escreve o que estou te dizendo."
 
 
"Não, à noite não posso, não nesta noite. Mas amanhã estou livre, disponível, a gente pode..."
 
 
Crônica 2
 
 
"A mulher perfeita, pra qualquer homem, é uma dama na sociedade e uma puta na cama. (…) Ei, por que que tu tá rindo? Tá zoando de mim, cara?"
 
 
"Não, nada disso, vê se tu entende. É básico, percebe? (…) Por que que tu mente pra mim?"
 
 
"Aí tu vai ter mais ciúme de mim ainda, maninha."
 
 
"Eu sei que as manas pegam pesado, tá?, mas é assim que a coisa rola. Não vai ser tu que vai botar areia no óleo desse esquema, né não?"
 
 
"Tu já pensou, cara, tu ter um marido músico e famoso e poder tocar nele como ele toca na banda? Tu já sonhou com isso, mana? E tu sabe que tu tem isso, né? Tu sabe que tu me tem, que tu tem eu, sacou?"
 
 
Tem outras, muitas mais. Basta, desconectado, viajar de ônibus. Conectado nas pessoas, feito voyeur literário de ouvido, caso esta figura existisse. Problema é que o espaço acabou, mano, sinto muito.

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 24.07.14

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A Solucionar

Por Fabio Ramos
 
 


o
problema
é
cera
no ouvido
?

 
use
cotonete
 

o
problema
é
dor
de barriga
?

 
busque
um
sanitário
 

o
problema
é
grana
?

 
FO-DA-SE


o
problema é
solidão
?

 
vá ao
metrô no
horário
de
pico
 

(...)
 

e
então
seu
esquerdismo
virou
fanatismo
?

 
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os artigos
do
Olavo


(ora porra)