segunda-feira, 8 de agosto de 2016

retorno

Por Ana Paula Perissé




                                    sozinha,
                                    como todos estão.



                                    nesgas de compreensão
                                    tal como o avesso do véu,
                                    a solidão que se impõe
                                    quinhão de todos



                                    fardo que arrebata-me mais
                                    do que ao outro
                                    que não me reconhece
                                    ( sempre)



                                    e um saber de pele que se esvai
                                    pois nunca haverei de te tocar
                                    mais.



                                    meu carinho liberto
                                    retorna ao esconderijo
                                    de mim
                                    que se desfez em poucos anos
                                    quando te estive.



                                    ( quase)


                                    só.

domingo, 7 de agosto de 2016

sábado, 6 de agosto de 2016

Asas brancas

Por Meriam Lazaro




Quando a noite principia ergo ao céu o olhar em prece.
Peço que as dores do dia não dissipem a esperança...
Desta angústia (que é tão minha) a humanidade padece.


Luzes se acendem na ilha como o brilho da ribalta.
Patos se erguem em voo até onde a vista alcança.
Longe, as águas do rio, tremeluzentes em prata...


Sob as estrelas de outono passa um bando de asas brancas.
Da janela, em silêncio, agradeço a hora santa!

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Amor considera

Por Daniella Caruso Gandra




Ao ler a crônica de Martha Medeiros (intitulada “O amor e tudo que ele é”), inspirei-me a escrever sobre isso nestas linhas sucessivas. Embora pareça simples, não é uma tarefa fácil, porque todo aquele desejoso de ser bom escritor deve se fazer compreendido ou, no máximo, tocar. 


E mesmo que eu e você tenhamos experiências amorosas diferentes, acharemos algo em comum nelas. E o mais difícil é quando nos descobrimos uma espécie de bússolas amorosas; servindo de algum direcionamento ou orientação na vida do ser amado – como ímãs a atraí-lo para algum lugar que ainda não percebeu em si mesmo. Falo por experiência própria: já fui muito útil, sabe... 


Mas a autora fez um belo discurso sobre o sentimento tão buscado, mas pouco praticado, fragmentando-o ao senso comum. Eu gosto muito do que ela escreve, e acredito que, ao atingirmos a maturidade emocional, base para nos sustentar diante dos percalços desta vida, não mais idealizamos o amor, nem nos preocupamos em defini-lo. Tampouco o buscamos. Amamos, e só. 


Entretanto, é melhor não confundir sentimento com emoção. Não quero conceituar, mas caracterizar. Afirmo isto sem me desfazer de ambos, inclusive, porque, quando emocionados, somos muito mais criativos, verdadeiros e nos sentimos mais vivos; mesmo que depois venha o arrependimento. Já amando, deixamos, muitas vezes, ali, guardadinho em nosso peito, esse sentimento profundo. E dispensamos a necessidade de extravasá-lo. 


Essa coisa de que amar dói é bobagem, pois algo bom de sentir não pode fazer mal. O que machuca por dentro é a falta do que nos é querido. É a mudança brusca acometida pelo outro que nos afeta. É lembrar-se de um final nebuloso e pleno de tanta coisa que ficou por dizer, fazer e sentir. É o desperdício de um tempo indiscriminadamente curto e não aproveitado; ou gasto em desaforos recíprocos e desconfianças. 


Tão importante quanto sentir é a franqueza. É não deixar lacunas aos olhos de quem, um dia, foi especial para nós. É resolver mal-entendidos, o desinteresse repentino, o medo do ridículo, o ciúme na hora errada, enfim, é dar atenção a quem já se amou ou, pelo menos, achou que se amava. 


Invadimos o outro e nos permitimos invadir, seja por um beijo, uma transa, um olhar ou um gesto mais demorado... Sim, o amor é uma invasão porque é força. Quando penetramos, de algum jeito, no mundo alheio, conquistamos nosso espaço ali. Ocupamos pensamentos, influenciamos ações, ganhamos recompensas por isso e, assim, nos apoderamos. 


E não é legal de nossa parte ignorar isso, simplesmente “saindo de cena” ou “desistindo do jogo” (numa atuação fria e dissilábica). Para mim, é covardia com algo que já fez algum sentido; mesmo que hoje não faça mais. 


Por fim, indiscutivelmente, mesmo brincando ou se distraindo, seja franco. Não prometa o que não queira cumprir. Ponha-se no lugar do outro. Tente perceber como ele se sente. Não seja egoísta e nem decida sozinho – por convicções e dissabores passados. 


E continue amando, sempre.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Marasmo

Por Fabio Ramos
 

 
 
se
revira
na cadeira


sem
encontrar uma
posição
que
lhe
traga paz


fica
por cima da
mão
para
esquentar


(pescoço dói muito)


dedos e costas
estralam


(...)


teu barco de
papel
é
engolido


(pela descarga)


em
outro dia
do calendário

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Sorria

Por Denise Fernandes




"Sorria, você está sendo filmado". A frase, lida, faz pouco sentido pra mim. Estar sendo filmada não me dá vontade de sorrir, e ainda tem o tom imperativo para o sorriso. Justo sorrir, que a graça maior é ser espontâneo. No momento atual, me dá mais vontade de sorrir do que de ser filmada. O que fazem com todos esses filmes? Muitas mentes já devem funcionar como câmeras.

Ponho a mão no pinto do meu namorado, e ele faz uma cara estranha. Que foi, não está gostando?, pergunto no elevador. Ele diz: tem câmera nova. Ai não, que chato. Pode até ter uma família inteira na entrada do prédio vendo a cena de vários ângulos. Acabou-se, namoro rápido no elevador, privacidade como direito absoluto. Em todo lugar, somos observados, rastreados. A chance de você ser abduzido – sem que alguma câmera veja – é muito pequena. Estamos cada dia mais presos à realidade, de uma forma tão densa que os alienígenas ficam com medo. Medo das câmeras.

Uma discussão sobre a questão social da loucura. Nos delírios paranoicos atuais, é comum as pessoas se imaginarem filmadas por câmeras. Olho estranho, olho acusador, olho sem olhar, olho devorador, olho que não se vê.

Peço ao segurança: por favor, esqueci meu crachá, deixa eu passar, moço? Senhora, não posso, porque tem câmera. Tem câmera, não posso, não tem jeito. A câmera é maior que a regra, o dever. O imperativo. Acho que não quero sorrir assim.

A câmera garante, me explica a mulher, e ela começa a me parecer de plástico. Penso bem forte, ela também sofre. Mas algo me impede de acreditar. Estou criando uma couraça invisível para me proteger de ter minha alma filmada. Em busca de uma muralha energética. Algo que me alegre, que me faça sorrir de verdade.

É meio triste, pense bem, todas essas câmeras servindo para a tal da segurança. Todas essas imagens de vidas tão preciosas e profundas dispersadas na banalidade das estatísticas do crime, do entender o ocorrido, da busca da segurança e do controle. Com a calma das marés, das praias vazias, as câmeras esperam os cineastas que as libertem da miséria do medo de quase tudo. Servindo para os homens em sua totalidade, as câmeras serviriam para quase tudo: memória, síntese, ciência, arte, diversão, comunicação, educação, comércio. Assim como está, as câmeras são polícias. Nosso estado é de sítio. Dilacerados pela violência. Penso em sorrisos que podem ser filmados. Câmeras porque existem sorrisos, e não sorrisos porque existem câmeras.

Desejando uma terça-feira mais doce...

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

poesia suja - sem tango

Por Ana Paula Perissé




                                     É com clemência
                                     que vos peço
                                     perdão
                                     por entorpecer o poema
                                     com dores de vida
                                     minha.



                                     Enquanto espero a prosa
                                     amadurecer-me
                                     peco
                                     com singularidades existenciais



                                     simulacros de poema
                                     sem forma
                                     unicidade múltipla
                                     sem ardor de húmus
                                     humano.



                                     Não!
                                     A poeisis não é veículo
                                     (emuliente)
                                     para catarsis
                                     de vida sincera.



                                     Peco e vos peço
                                     de novo
                                     bailando por frases sem alma
                                     um perdão barroco
                                     ao vosso caos.



                                     ( retiro o tango do CD)