quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Pensando alto

Por Fabio Ramos





a
ideia
que teve
saiu pela boca

 
sem
filtro


(dois pontos)
(aspas)


vou
amarrar
uma
corda
no pescoço dele


(fecha aspas)


o passageiro
ao lado

 
(no metrô)

 
franze
a
testa
em desacordo
 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Looser

Por Denise Fernandes
 
 


I'am a looser, nem sei inglês
 
o vento frio atravessa as frestas da minha casa
 
não há fogo algum para consolar
 
só errei onde não achava que ia




os sonhos se desfizeram
 
envelheci sem perceber
 
as contas a pagar continuam as mesmas
 
mas há uma goteira nova em cima da minha cama
 
uma lágrima nova na fronha




se cansei nem percebi
 
outra goteira surgiu adiante
 
e o som das gotas caindo no balde
 
não sei se me consola ou irrita
 
tudo que perdi era mais do que pensava




tempo sangue poesia amor calor
 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

fada verde

Por Ana Paula Perissé




                                       e que me venha
                                       a ferida aberta
                                       de 1`cálice de absintho
                                       em rubras rachaduras
                                       na minha pele
                                       ressentida
                                       enquanto os bêbados
                                       lá fora
                                       em performance imutável
                                       contam
                                       lascas de vidas
                                       nômades


                                       e minha alma
                                       ah! Fada Verde
                                       envenenai-me, te peço!
                                       fazei-me dançar
                                       em encantamento de serpentes
                                       do outro lado
                                       de um vidro estilhaçado.


                                       esverdeado
                                       mouro.

domingo, 13 de setembro de 2015

Pura e simples

Por Oswaldo Antônio Begiato




Eu poderia vir aqui
e olhando dentro da tua inusitada alma
dizer que você é mais bonita
do que o avental pintado à mão
que minha mãe colocava aos domingos,
quando se preparava para fazer o nosso almoço,
em frente ao fogão à lenha.
Foi minha primeira visão de suavidade!


Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de tuas meiguices raras
dizer que você é mais bonita
do que a gravata borboleta azul marinho
que meu pai, orgulhoso de sua fé
e orgulhoso da fé que imaginou que eu tivesse,
enfeitou meu pescoço
quando fiz a primeira comunhão.
Foi minha primeira visão de santidade!


Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de teus lugares ocultos
dizer que você é mais bonita
do que a doída canção “Santa Lucia”
que meu avô ouvia sua gente cantar nos casamentos
e chorava e soluçava e se lembrava da Itália
de onde tinha partido muito moço com o coração partido.
Foi minha primeira visão de saudade!


Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de teus olhos rimados
dizer que você é mais bonita
do que o soneto de Vinícius de Moraes
com que minha primeira namorada,
equivocadamente apaixonada,
fez a dedicatória no livro que me deu de presente,
quando demos o nosso primeiro beijo.
Foi minha primeira visão de eternidade!


Mas escolhi dizer:
– Você é linda!
Puramente.

sábado, 12 de setembro de 2015

Agosto

Por Meriam Lazaro




Ah, esse gosto de agosto em minha boca...
Esse travo entre frutos e flores a ensaiar um traço de adeus.
O frio que sibila, a neve que ameaça,
O vento que passa zunindo nos ouvidos.
O anjo feio que no palco representa
Um pouco de dor, um tanto de ópio.
Há, nessa máscara de cera, o falso verniz,
O mel da abelha que me escapa por um triz.
A morte, que é pessima atriz,
A reinterpretar tantas vidas...
E nesse desgosto, desgosto de mim, mas não gosto dela.
Em frente ao ataúde, os meus verdes anos,
A fita carmim e a vontade louca de ser primavera!

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Plugados

Por Daniella Caruso Gandra




Quando juntos, com outros mais tantos estamos. 

Off-line só quando necessidades saciamos. 

De resto, só on-line nos integramos, mas nos “amamos”. 

Acompanhamos o miolo cultural, repletos de perfis, links, hiperlinks, e coisa e tal... 

Seja no lar, na rua, na levada da juventude e levada maturidade, laços inventamos, mas nos smartphones e computadores que não largamos, tempo por demais dispensamos. 

E assim, eu plugo, você pluga, eles nos plugam, daí se segura, se dura, pra quem é raso, pouco cavo, e a presença já não faz tanta diferença.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Destinação

Por Fabio Ramos
 
 


algodão
nos
extremos
da
haste
 

que vai
nos ouvidos
 

que vai
no
umbigo
 

retira o cerote
 

faz
a higiene
 

perdendo sua
utilidade
após
o
uso
 

(...)
 

e
para
onde vão
os
cotonetes
sujos
?
 

talvez
façam companhia
àqueles
absorventes
 

(rubros)
 

em
alguma
caçamba ou
montanha
de lixo