quinta-feira, 8 de maio de 2014

São Francisco dos Portos

Por Amilcar Neves* 

 

Às sete horas da manhã de segunda-feira já estavam a bordo da perua da Fundação Catarinense de Cultura com destino a São Francisco do Sul, bem no Norte de Santa Catarina seguindo a linha do mar. São Francisco - ilha que virou istmo, cidade que se orgulha de ser a terceira mais antiga do Brasil, centro histórico tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, casario em estilo colonial português ladeando ruelas estreitas, berço embalado pelas marolas suaves da Baía de Babitonga, cenário pintado em ricos tons de verde por amplas reservas da Mata Atlântica, economia movida pelos portos existentes no interior da baía, defronte à cidade.
 
 
Cinco conselheiros estaduais de cultura em viagem dirigem-se ao IV Fórum Catarinense de Gestores Municipais de Cultura, realizado num hotel da Praia da Figueira nos dias 24 e 25 de março; outros chegam de Joinville, ali ao lado, e de Chapecó. A presidente do Conselho e diretora da Fundação, com dois funcionários, eram esperados na van e no fórum mas não aparecem. Uma lástima porque ela perdeu a calorosa recepção que lhe haviam preparado. Soube-se depois que ficou doente; ao que parece, para alívio e gáudio dos seus amigos e admiradores, sem maior gravidade.
 
 
O evento reuniu gente do Ministério da Cultura, da Federação Catarinense de Municípios, da sua congênere gaúcha e de administradores municipais de cultura provenientes de mais de 120 (dos 295) municípios catarinenses. Secretários, diretores e gerentes de Cultura, portanto, das esferas federal e municipal, além de um deputado estadual (embora nenhum vereador, sequer da cidade que sediou o encontro, aberto pelo prefeito municipal), que muito falaram e muito ouviram. E ninguém - ninguém! - do Governo do Estado, apesar de dois nomes terem sido confirmados como participantes de uma importante mesa redonda. Infelizmente, a diretora de Políticas Integradas do Lazer, da Secretaria estadual, não encontrou ocasião, até o início dos debates da mesa, para justificar sua ausência. Paciência, deixou de desfrutar um acolhimento ainda mais fervoroso do que o reservado à sua colega. Lazer, na nomenclatura peculiar usada pelo Executivo catarinense, quer significar as atividades profissionais empreendidas por agentes de turismo, de cultura e de esporte.
 
 
Do lado de fora da sala de convenções, calmo e sereno, o mar esparrama-se dali até o horizonte. Logo antes da Barra Norte da Baía de Babitonga, na margem oposta, desenham-se contra o céu os guindastes e equipamentos do moderno porto de Itapoá. Em direção ao Centro, surge o porto público de São Francisco do Sul com seus terminais privados. Mais para o interior da Babitonga, um projeto de 250 milhões de reais "prevê a instalação de uma ponte de quase 1,5 quilômetro sobre as águas da baía, com dois píeres para atracação de barcaças e navios cargueiros", segundo informa o Estadão de domingo. Teme-se que espécies ameaçadas de extinção sejam afetadas pela construção e operação do porto chamado de Mar Azul, como a toninha (um tipo de golfinho), o boto-cinza, a tartaruga-verde e o mero.
 
 
Afirma o pescador Adenir Correia de Mello que "o melhor lugar de pesca do camarão na baía é justamente onde eles querem colocar o porto".
 
 
Já dona Sônia Rocha prefere sentar-se com o marido num banco de praça virado para o mar a fim de apreciar o sol caindo por trás das montanhas e dourando as águas da baía: "Agora, imagine esse cenário maravilhoso com um monte de navio de carga passando no meio".

* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 26.03.14

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Hereditário

Por Fabio Ramos
 
 
 

Zezinho herdou
a teimosia
da mãe
 

o
estilo
brejeiro do
pai
 

a
alergia
da
avó materna
 

o nariz do avô
paterno
 

mas
não recebeu
herança
de
ninguém
 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Beijo

Por Denise Fernandes
 
 


E onde não havia beijo, você selou em mim sua boca. Tudo de novo, ou nada novo, a gente se amar. Como o Japão espera um novo terremoto, espero você. Você é minha terra, só por isso espero.

Onde não havia abraço, você enroscou seus braços: galhos de uma árvore antiga. Onde não havia raiz, um amor-fogo cavou a terra, e a noite carregada de pequenas estrelas. Uma lua pequena. Onde não havia raiz, surgiu uma fonte e você sentiu que vinha de mim uma brisa. Deitei no seu colo e quieta fiquei.

Haverá saída? Haverá solução? Você com medo, eu também. Você com febre, eu também. Você vulcão e eu montanha, você mar e eu céu colorido. Enquanto te aguardo, o mundo dá outra volta e isso é imenso. Quando seu corpo encosta no meu, uma parte de mim se acalma, e a outra queima. O seu beijo, a sua mão, uma história sua que você me conta: vou arriscar, vou te esperar.
 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

história de ela.

Por Ana Paula Perissé
 
 


                    (não tens mas queres
                    não és mas desejas)

                    ela
                    que era ex-de si, eis seu chamado
                    quase nada te preenche
                    (prenha)
                    todavia, rastros
                    ou mórbidas lembranças vivazes!

                    e quase tudo
                    te ficou à mostra
                    doçuras de sonhos
                    por deuses!
                    ainda por criar

                    vá e encontra-te.
                    une pedaço
                    de platô em I´resquício
                    de chão potável
                    ou I´lasca em migalha verde
                    a qual te enleve
                    de súbito,
                    alegria.

                    ( ainda és algo em tantas que já se foram,
                    mas, largaram-te, sem dó,
                    ao sopé de I´estrada)

                    posto que te passas em mares de morros
                    secos e líquidos e longos"
                    " serras de capim
                    são desejos lunares

                    e em estrada federal
                    uma vastidão
                    de ser-como-tantas-vidas
                    por-se-fazer
                    sopráva-te ...
                    semente de ir longe;
                    tua pele, agora, é seca
                    todavia também sem estrada
                    defuma-te sem vento, aquele que sibilava
                    correndo a 120, com destino certo.

                    I´pão de queijo com café
                    e o sorriso
                    father´n´son
                    sim, ela tava em meio-deles
                    e quando os viu na arrebentação de mangue secos
                    nas ruínas do futuro de I´casa
                    chapiscos e I´cão
                    ao lado de lareira, sem fogo
                    houve-se pequena.

                    e como se o fim já houvesse
                    e muito, em hrs extras de emoção sua.
                    (não há mais espaço para se esgarçar em vidas tantas.)

                    as hrs passam
                    quase imóveis,
                    ao envelhecimento de I´casa
                    consigo
                    e as luzes se alternam, esmaecidas
                    ao passar pelo meio-dia
                    noite-quase-sonho

                    e ela não sabe quem se perdeu
                    qual mujer
                    há de pagar a conta
                    cota ébria
                    de tamanho de cadafalso
                    queda sem gravidade
                    orbitando em vozes idas
                    (não, não há queda
                    apenas perda
                    com exponencial de dor ardilosa)
                    ela é aquela que se foi
                    límbica
                    do sorrir da tarde
                    à montanha
                    mas que ainda tatua
                    por i´fuga de si.

                    será algo dela própria
                    ? (de novo.)
                    por alguma vez há de se esperar à estrada
                    sem a qual
                    não seria-á
                    de pé ou ponta-cabeça
                    qualquer coisa digna de origem
                    a merecer lágrimas de horizontes de mato
                    com cheiro úmido
                    e tez feliz.

 

domingo, 4 de maio de 2014

sábado, 3 de maio de 2014

Outono

Por Meriam Lazaro
 
 


Gota a gota a manhã orvalha a rosa.
Logo soltas cairão por entre espinhos.
Não estranhe se a saudade ardilosa
Sopre a folha mais dourada em teu caminho.
 

Fio a fio o algodão tece os cabelos.
Horas mortas que se vão em vagos ninhos.
Cai a pétala apesar de teus apelos.
Logo o frio gela a taça e ensaia o vinho!
 

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Os grilos

Por Mayanna Velame
 
 


O silêncio da noite perturba meus ouvidos.
Abro a janela para ouvir tal orquestra dos grilos. 


A noite de hoje foi engolida pelas nuvens arroxeadas.
Cenário perfeito para uma peça da vida real. 


Mas os grilos continuam lá, encolhidos na grama.
Eles cantam e me encantam... 


E meu coração toca...
Toca minha alma. 


Mas os grilos continuam lá.
Iluminados por suas canções. 


Eles cantam e não se fadigam...
E eu, debruçada sobre o peitoril da janela, sorrio. 


Permaneço acompanhando, estupefata,
O concerto das pequenas criaturas.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Três em uma não é nenhuma

Por Amilcar Neves*
 

Sábado pela manhã é ocasião excelente para soltar balão. Pelo menos em Santa Catarina. Balão de ensaio. Por causa da explosão das redes sociais. No Estado, os jornais de domingo saem em edição única com os de sábado ou chegam às ruas na metade da manhã de sábado. Assim, uma boa notícia publicada sábado de manhã em algum blogue no qual as pessoas confiem rende uma porção de comentários antes de ser impressa na segunda. Se a repercussão não for a esperada pelo emissor, a notícia não é confirmada. Vira boato e não chega a ser impressa.

 
Talvez seja isso o que aconteceu. Ou talvez não, e pode ser que a notícia ainda se confirme nos próximos dias. Então terá sido um furo do jornalista que antecipou os acontecimentos com tanta antecedência. Um balão de ensaio eficiente promove o candidato a um cargo de confiança, e ao menos lhe confere poder de barganha para negociar eventual desistência, ou queima de vez suas pretensões. Pode servir também para fritar em fogo brando, quase frio, o ocupante do cargo ambicionado.

 
O fato é que, no sábado de manhã, o jornalista Moacir Pereira, colunista do DC, anunciou no seu blogue a troca na Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte. Sairia Valdir Walendowsky e entraria Felipe Mello. Substituir secretários ou ministros é evento corriqueiro em qualquer democracia. O problema surge quando esse se torna o sexto secretário em 3 anos e 3 meses de governo. Se já não fosse problema suficiente uma mesma Secretaria ocupar-se de três áreas tão distintas com um organograma que mistura as três "especialidades" até o segundo nível hierárquico. A diferenciação se dá apenas a partir dos cargos gerenciais. O resultado é uma Secretaria em que não se sente o cheiro da cultura. Nem do esporte. Nem do turismo. E os agentes dessas três atividades, os membros da sociedade civil organizada, as pessoas que fazem esses setores acontecer, estão roucos de tanto pedir secretarias exclusivas.

 
Mas não adianta. Há uma teimosia, uma cisma, uma birra incrustada nas cabeças burocráticas. Pensam, talvez, que se pretendam três secretarias com a complexidade de uma Educação. O que se quer apenas é foco. Especialização. Gente que saiba do que se está falando e conheça as pessoas físicas e jurídicas que fazem cultura, e esporte, e turismo.

 
O nome de sábado é estranho às três atividades. As reações foram imediatas e indignadas. Leram-se nas redes sociais declarações veementes, entre outros, de conselheiros estaduais de esporte e de cultura. O ventilado é filho do deputado federal que é dono do PR em Santa Catarina, sigla que se encantou pelo maravilhoso projeto de reeleição do governador e decidiu apoiá-lo com entusiasmo. Precisa, pois, ser recompensada por tamanhas dedicação e entrega.

 
Na contramão dos compromissos oficiais assinados com o Governo Federal, o governador ameaça, através de leis que fez aprovar na Assembleia em dezembro passado, com o esvaziamento literal dos fundos de incentivo ao turismo, ao esporte e à cultura: a qualquer momento, por meio de um artifício banal qualquer, seu governo pode meter a mão no dinheiro dos fundos, aniquilando as três áreas de uma penada só. Esvazia os conselhos. E senta-se sobre os três planos estaduais.

 
Enquanto isso, o secretário atual (atual até a segunda-feira, data desta crônica) acumula as presidências da Santur, de onde procede, e da Fundação Catarinense de Cultura, de fato acéfala há nove meses. Balão de ensaio ou não, falta seriedade à brincadeira toda.

* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 19.03.14