quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Agruras de um pintor em favor da sua Arte

Por Amilcar Neves*
 
 
 
Marcontônio é artista plástico bastante conhecido. Ao menos suas pinturas, desenhos, gravuras e ilustrações são bem familiares ao chamado público em geral. Seus trabalhos ilustram um sem-número de folhetos de novos edifícios residenciais e uma quantidade impensável de casas, lojas, apartamentos e escritórios das pessoas que querem ser vistas como cultas e donas de invejável bom gosto.
 
Apesar de pintor, ou artista visual, e apesar de admiravelmente jovem, Marcontônio já é um sujeito rico, embora não tanto, ainda, como o milionário Eike Batista. Mas a diferença financeira entre ambos tem os dias contados, visto o fantástico e acelerado esvaziamento dos haveres do empresário, velocidade e processo apenas comparáveis ao ritmo do seu pretérito acúmulo de dinheiro.
 
Mas o que nos interessa aqui são a figura e as atribulações de Marcontônio, que os amigos de Criciúma, a terra natal, chamam de Marcon, Marcão ou Marcô, enquanto os moradores de Balneário Gaivota, também no Sul catarinense, onde o pintor fixou ateliê e residência após deixar as lides da publicidade, conhecem como Tonho, Tônio ou Ontô.
 
Publicidade, aliás, é coisa de que Marcontônio jamais gostou. Da palavra publicidade, quero dizer, não dos afazeres inerentes à atividade. O agora artista costuma brincar que publicidade lembra reclame, enquanto o binômio comunicação &marketing tem toda uma sofisticada ciência por detrás, a qual é responsável por fazer com que as pessoas, aquele tal de público em geral, ajam e comportem-se conforme os desejos do anunciante, propiciando ganhos generosos ao publicitário e, limitados, às suas equipes, o que inclui a criação.
 
Homem de criação publicitária, imaginativo e oportunista (no sentido de alguém que percebe antes de todos onde brota a próxima oportunidade de realização e sucesso), foi daí que saiu sua decisão de ser artista em Balneário Gaivota, o que acabou por se revelar atitude e estratégia corretas, dado o sucesso que logrou obter não só em Santa Catarina como no Brasil e, mesmo, no resto do mundo: sabe-se já de duas ou três galerias em Nova York que vendem aos borbotões cópias de suas obras.
 
Sim, cópias das obras, pois Marcontônio notabiliza-se por não deixar originais, os quais destrói tão logo aprove, para reprodução e comercialização, a cópia-mãe, fiel e minuciosa, do seu trabalho. As cópias são numeradas e assinadas à mão, uma a uma, pelo próprio artista, procedimento que lhes assegura a autenticidade tão valorizada pelos clientes.
 
Marcontônio diz que assim procede por causa do senso democrático que o persegue desde o mais tenro berço: ele não se sentiria bem se soubesse que milhares têm cópias das suas obras enquanto somente uns poucos detêm os originais. Assim, o neto caçula do velho Marcantônio Osório celebrizou-se por ser um pintor, único no mundo, a não manter nem permitir a posse de seus originais.

Osório que indiscutivelmente é, todo início de primavera, ao primeiro calor da estação, Marcontônio se manda do seu retiro criativo para a casa do primo Manoel Osório, na Ilha. Seu objetivo confesso é flagrar, por motivações exclusivamente estéticas em favor da sua arte figurativa, as mulheres da Capital em suas primeiras exibições de pernas e revelações dos corpos - o que o leva invariavelmente a frequentar prontos-socorros da cidade por conta da incompreensão selvagem de maridos e namorados que se dizem ultrajados por olhos tão agudos e analíticos postos sobre suas mulheres.

* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 09.10.13 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Garrancho

Por Fabio Ramos
 
 


escreveu
com letra de
médico:
 
“me
desdobrei
para
agradar
e menosprezo
recebi” 


não houve
quem decifrasse
o hieróglifo
 
(muito menos ela)
 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Eu Verdadeiro

Por Denise Fernandes




Já faz um tempo que meu segundo filho me falou de um filme que eu tinha que ver. Ele estava entusiasmado e tão convencido que eu tinha que vê-lo, que fui atrás. O filme se chama “Mais Estranho que a Ficção”. O protagonista descobre que sua vida tem uma autora. E, com isso, pode ser uma comédia ou tragédia o enredo de sua vida.

         Essa outra pessoa que me escreve: roteiro, fala e ação, é dona da minha alegria, da minha vida ou morte. Nesse filme, as opções são claras: se você morre no final, o filme da sua vida é uma tragédia. Se o final é diferente da morte, você viverá uma comédia. Esse clarear me fez bem. Viver uma vida que não acaba com a morte... Para isso, minha vida precisa mesmo existir além de mim.

         Na comédia da minha vida, um desafio para o meu humor tem sido os profissionais de telemarketing, que insistem em ligar para mim. Para mim? Eles ligam para um eu que não sou eu, ligam para meu RG, meu CPF, meu dinheirinho. Na minha infância, não tínhamos telefone e eu sonhava com todos os telefonemas maravilhosos que receberia. Não sei se é por isso que fico tão brava com esses telefonemas.

         Pode ser também a hipocrisia da gentileza no telefone. Também porque essas pessoas abusam da minha paciência e carência afetiva. Um exemplo real: liga uma moça de telemarketing e pergunta do meu namorado de dez anos atrás. Explico que não mora aqui. Mas você conhece, a chatinha vai prolongando a conversa. Explico que foi meu namorado. Ela quer saber onde ele está. Conto que não sei onde ele está. A imbecil na linha: ”Mas como assim a senhora não sabe onde está o seu namorado?”. Só desliguei o telefone na cara dela, mas minha vontade era a de mandar ela tomar naquele lugar mesmo, nove e meia da manhã ensolarada e eu espumando de ódio. Já tentei bloquear o telemarketing de todo jeito, mas telemarketing é que nem traça e pernilongo.

         Quando vi esse filme no Canal Brasil, dei ótimas gargalhadas. O Fabio, bom amigo, achou o filme na internet. Se você não gosta de telemarketing, assista, que acho que você vai se divertir também. Se você gosta de telemarketing ou trabalha com isso, também vale a pena. Olha o link aqui.

         Enquanto quem escreve minha vida se diverte com as minhas brigas ao telefone, ainda espero que ele toque para mim, quer dizer, para o meu eu verdadeiro, esse mesmo, sem RG, CPF ou dinheiro. O meu eu que não tem nada, nadinha de nada além de mim.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

breve história do corpo e do gosto

Por Ana Paula Perissé
 
 
Imagem: Dalila Del Valle


                          mesmo idos há gosto em corpo
                          com poucas chances de vida a ser

                          (mas há 1´gosto sem gosto em corpo sem lua
                          corpos sem gosto de vinho, sem safra
                          indefinido por natureza no gosto da terra
                          sem vinhedo próprio, território para existir
                          desse gosto sem corpo sem gosto,
                          eu não quero)

                          somos próprios
                          em gosto puro em cada taça de corpo
                          derramado em pouco tempo escondido
                          de gosto em corpos sem territórios
                          illicita
                          quase GPSinsano

                          então há corpo com gosto
                          de fuga
                          gosto em equação vespertina
                          em mistura de2
                          vertidos em ser
                          devir de cado gosto em corpo
                          a se fazer novo
                          em corpo de outrora que é.

                          (abertura)

                          mas ainda, não há gosto sem corpo,
                          eu afirmo
                          tampouco corpo sem gosto
                          quando se perde sua história
                          de beijos de ambos
                          1`beijo no tempo
                          que goteja gostos em corpos com nomes
                          a ampuleta que nos deixa sem tempos
                          para sermos

                          existência´agora.
 

domingo, 13 de outubro de 2013

Uma Tarde Qualquer

Por Érika Batista
 



Céu azul. Mas havia algumas nuvens.
– Aquela nuvem parece um cavalo.
– É.
– Érika.
– Oi.
– Você gosta de cavalos?
– Gosto. Bastante.
– Eu também. E dos campos. Poderia passar dias seguidos cavalgando por eles.
– ...eu não sei cavalgar.
– Quer aprender? Eu ensino.
– Eu aceito!
– Amanhã.

 
Silêncio. Uma brisa gelada agitou a grama, arrepiando os pelos do meu braço. Dois centímetros para o lado.
– Frio? – com um sorriso.
– Um pouco.
Um braço sob o meu pescoço. Mais dois centímetros. Arrepios.
– Melhor?

 
Um sorriso de cá, uma risada de lá. Dedos longos, pontas rápidas. Cócegas. Mais risadas. Contra-ataque. Mau negócio: ele, muito mais forte.
– Ok, ok!
Séria. Olhos claros piscando. Apreensão.
– Te aborreci?

 
Um aceno de cabeça. De repente, a maciez de seda daqueles cabelos lisos, ocultando uma têmpora quente, repousou no meu peito. Tum-tum, tum-tum. Ele não se importou, nem um pouco. Até – parecia – estava gostando.

 
Mais silêncio. Um bocejo.
– Olha aquelas formigas. Elas nunca descansam...
 

sábado, 12 de outubro de 2013

Mistério

Por Meriam Lazaro
 
 


                                  Há um mistério de que todos dependemos,

                                  seja refrigério, riqueza de menos,

                                  fiel adultério, amor de momento...



                                  Mas não leve a sério a dor de quem fica,

                                  o mal que se ergue a quem abdica

                                  dos sonhos, das flores, do campo, da lida...



                                  Nasce a cada dia das trevas o sol,

                                  do espanto a prece, ó Ave Maria!

                                  Pois desse mistério floresce a vida!

 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Receita da Educação Brasileira

Por Mayanna Velame
 
 


        Ingredientes: 


        1 kg de mentiras sobre melhorias na educação pública.

        900g de alunos desinteressados e rebeldes.

        700g de pais que não participam da vida escolar de seus filhos.

        400g de professores desmotivados e doentes.

        300g de escolas vítimas da violência e das drogas.

        200g de agressão verbal e física contra professores.
 

        Modo de fazer:

        1. Misture tudo numa forma polvilhada de ilusão.

        2. Não esqueça  de colocar algumas pitadinhas de vergonha.

        3. Coloque para assar.

        4. Quando estiver pronto, acrescente duas colheres de desânimo.

        5. Sirva em grandes porções. Se estiver ruim, não reclame, apenas aprove.

 
        Bom apetite!
 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Inverno

Por Munique Duarte



                            Eu prometi cheirar o jasmim
                            Espalhado, todo lilás
                            Bem lá no meio do jardim
                            Quando há névoa
                            Orvalho congelado
                            Ele sempre sorri para mim
                            Com um ar misterioso
                            Exalando perfume inquieto
                            Roxo
                            De longe eu prometi
                            De novo, um dia
                            Cheirar o jasmim
                            Com minha xícara apertada entre os dedos
                            Creio que ele está triste
                            Folhas, muitas folhas
                            Inibido entre todas
                            As terras do jardim
                            Calou-se o jasmim
                            Agora é a sua estação
                            Que jasmim na contramão!
                            Apareça, era tão certo
                            Ainda espero por você
                            Ainda é tão escuro
                            Ainda é inverno.


  

Nasceu e vive em Santos Dumont/MG. É jornalista responsável pelas publicações de quatro sindicatos em Juiz de Fora. Bloga em Textos Imperdoáveis. Participa da obra Escritos de Amor, lançada pela Casa do Novo Autor Editora, e Poesia e Prosa no Rio de Janeiro, da Taba Cultural. Já colaborou n'O BULE, Sobrecapa Literal, Escrita Criativa (Portugal), Revista Diversos Afins, Jornal Opção, Texto de Garagem, Jornal Relevo, Revista Elis, Revista Pâncreas e Revista O Viés.