terça-feira, 20 de março de 2012

Agosto

Por Denise Fernandes

                                         

                  No mês do cachorro louco

                  percebemos mais nosso amor

                  pelos animais, nossos iguais,

                  e talvez sonhamos mais.

                  Há um ninho um pelo de bicho

                  uma fotografia em que eu não lembrava

                  que estava.

                  Alguém trouxe uma garrafa de vinho

                  ao mês do desgosto sobrevivemos

                  com filosofia na varanda, alguns

                  medos novos.

                  Tanto eu não sabia que agosto me pega

                  sem preparo guarda-chuva e roupa certa.

                  Meio cachorra meio gata meio bicho

                  dentro de um extra-terrestre

                  com cara de gente, me desespero quase sempre

                  em agosto: alguém que gosto e morreu,

                  algo que me faz mais frágil do que gostaria.

                  As cartas do passado que guardo,

                  meus discos vinis,

                  o buraco negro da minha casa onde se escondem

                  os pares de meia, as colherinhas e alguns isqueiros,

                  tudo isso é agosto.

sábado, 17 de março de 2012

Mariliz

Por Flávia Marques



Maria Olívia Fernandes mora em um apartamento à beira-mar há exatos sessenta anos. Mas é bom que se diga que nem sempre fora assim.

Aos dezessete anos fugiu de casa com o primeiro namorado para nunca mais voltar. Deixava para trás um pai castrador, a madrasta perseguidora, e um bando de irmãs ainda pequeninas, já muito parecidas com a mãe para se salvarem. Não se arrependeu. É bem verdade que o namorado era um fraco e, pouco tempo depois, correu para os braços da mãe, deixando Mariliz sozinha. A solidão da menina não durou muito. Não era o tipo que chora o passado e o dia de ontem já estava longe para ela; vivia o presente com a propriedade de uma Massai, sem nunca ter ouvido falar desta tribo africana. Enamorou-se de um rapaz de sentimentos puros e caráter templário, e foram felizes durante a eternidade dos dez meses que passaram juntos, até que a curiosidade da menina estivesse satisfeita. Seis meses depois do fim deste relacionamento, Mariliz estava casada com o primeiro dos dois amores que de fato teve. Entregou-se ao marido com o desespero dos famintos, e amou pela primeira vez, achando divertidas as agonias dos apaixonados. Meses depois, o marido disse-lhe que precisava sair para comprar cigarros e ela desconfiou de que fosse uma despedida, pois o infeliz nunca na vida havia fumado. Chorou por dois dias seguidos, após os quais, levantou-se e jogou fora todas as coisas do miserável, como passou a chamá-lo. Pintou as paredes do apartamento que ele deixou e, desde então, possui o mesmo endereço.

Por um tempo, Mariliz fez passar por sua cama uma infinidade de homens dos mais variados tamanhos, pesos, cores, cheiros, manias... até que percebeu que não se vingava do ex-marido, mas de si mesma. Anos depois, ao se lembrar dessa fase da vida, dizia que poderia tê-la apagado da memória, não fosse o vazio profundo que a atormentou e marcou o período como tatuagem sobre a testa.

Quatro anos se passaram na mais completa solidão, até que Mariliz abriu-se para a segunda melhor experiência de sua vida; e, às vezes, pensa que talvez tenha sido a única.

Conheceu Aristóteles durante uma das muitas reuniões que deu em sua casa para os amigos e amigos dos amigos, artistas e pessoas medíocres, eufóricos e neurastênicos... um grupo tão divergente que era impressionante que ainda se reunissem quinze anos depois da primeira vez, só por possuírem em comum a amizade velha e folgada que Mariliz oferecia a todos, sem distinção. Adormecida sobre o sofá da sala, Maria Olívia sentiu os braços fortes e o cheiro de livros e menta que se desprendia do homem que a segurava no colo e a levava para a cama. Ainda bêbada de sono, deixou-se despir, e só acordou quando Aristóteles lhe beijava os peitos e afastava suas pernas para colocar a mão em seu sexo e prepará-la para recebê-lo. Surpresa por experimentar o prazer pela primeira vez e, com raiva dos tantos homens que teve e que não souberam dar esse arrepio em ondas que começava no centro do corpo e irradiava para as extremidades, eriçando-lhe os pelos e enfraquecendo-lhe as pernas. Amou-o por isso e muito mais, e viveram os dias mais felizes e os mais infelizes juntos. Mas o tempo, esse algoz que põe fim a tudo, afastou-os como dois estranhos, como se tudo entre eles não tivesse o valor que tem um olhar entre dois desconhecidos que se cruzam ao atravessar uma rua. E se perderam.

Mariliz, como era de se esperar, sacudiu a poeira da tristeza de sobre o corpo mais rápido do que ela mesma poderia supor: continuou a receber seus amigos e os amigos deles em seu apartamento; onde agora ouvem as músicas dos filhos dos que cantavam antigamente. Nas tardes de chuva grossa, senta-se à varanda e lê, pela milionésima vez, O Amor nos Tempos do Cólera, e sente em seu peito que nunca foi Fermina. Seu papel é o de Florentino. Olha para o mar à sua frente, e sonha com um navio bem grande, onde caibam seus amores e ela, velha e sorridente, a bailar entre eles.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Aleijado Por Dentro

Por Fabio Ramos


                                                        enquanto
                                                          houve igualdade
                                                            as canecas
                                                              de chope
                                                                brindaram
                                                                  e a fumaça
                                                                    do churrasco
                                                                      trespassou
                                                                        os muros altos

tão logo
decepou seu braço
fulano se diferenciou
dos demais

sicrano
o mais incomodado
com o fato
não descansou
até conseguir
livrar-se
de um dos
membros superiores
que possuía
  
porém contudo todavia
ele enfrentou
complicações
no pós-operatório
(uma hemorragia daquelas)
                                                                                                   
                                                                          agora sicrano
                                                                            é o único
                                                                              desbraçado
                                                                                enterrado
                                                                                  no cemitério
                                                                                    dos aleijados
                                                                                                             

terça-feira, 13 de março de 2012

Julho


Por Denise Fernandes


                                  Li várias vezes o texto do Alex
                                  sobre beijo e abraço
                                  Quanto mais li, mais indecisa fiquei
                                  Preciso de beijo e abraço
                                  Outra vez não sei escolher
                                  Gosto da piscina e do cobertor
                                  Do livro e do esplendor
                                  Da solidão e de muito amor.

                                  Julho é bom porque é comprido
                                  Expandindo os momentos talvez
                                  eu me encontre
                                  em julho ou num abraço
                                  numa lembrança ou num passo
                                  enquanto tento e faço.

sábado, 10 de março de 2012

O Desespero de Carola

                                                 
                                                               Por Flávia Marques

Foi como uma chuva grossa, caindo na terra ardida, que a paixão entrou na vida de Carola: a primeira vez! Sentiu-se encharcada de emoções que não conseguia identificar. Só sabia que era terra fértil, insaciável, cheia de vida; o mundo ganhava aspectos antes nunca percebidos por ela. O vermelho não costumava ser assim, nem o amarelo, nem o tamanho dos prédios ou o rosto das pessoas. Aquilo ali é um passarinho?! Que lindo! A energia que habitava seu corpo agora não podia existir somente nos limites mortais de seus órgãos, ossos, poros. Queria ser eterna, grande, múltipla; como se tivesse sido picada por uma aranha radioativa ou que sua força descomunal viesse do sol. Tornou-se super. Estava quase convencida de que poderia qualquer coisa agora, tamanha a força que explodia dentro dela e irradiava pelos membros; criando uma atmosfera de beleza e felicidade num raio de quilômetros, até não se sabe onde. 

Carola amava Ciro. A intensidade, as juras, os planos, a sensação de que pertencia a alguém. Descobriu o próprio corpo e outro alheio ao seu. Olhava para Ciro espantada, como se ele fosse seu coração batendo fora do corpo. A distância equivalia à morte. Não sabia ainda que a paixão é bicho solto, indômito e violento, que vaga pelos cumes dos montes e pelos mais profundos vales, torcendo os estômagos dos mais fortes e valentes, tirando-lhes o sossego, sorvendo largamente as forças que os mantém de pé. Carola não entendia o que lhe acontecia, e não se deve flertar com o desconhecido levianamente. Ignorava a menina que não se domestica a paixão, mas pode-se dosar a quantidade diária de uso. Como um lago onde mergulhamos devagar e gradativamente mais fundo, tateando seu chão com os dedos dos pés a procura de segurança, sentindo a temperatura da água, banhando-se no raso até que não haja dúvidas de que um primeiro mergulho, superficial e de reconhecimento, seja seguro. Depois, puxando um pouco mais de ar, sentir-se forte para conhecer as pedras mais próximas, a vida pertencente ao lugar, todas as mudanças de cor e sons submersos. Só então é que alguns, não todos, não mesmo, alguns fortes e de espíritos aventureiros, preparados para as grandes descobertas, é que sugam todo o ar que seus pulmões podem suportar e mergulham até as cavernas mais escondidas e perigosas. Há os que tentaram e jamais puderam voltar. Há os que se perderam e por lá ficaram, esquecidos do mundo da superfície. Há também os que não ousam mergulhar e desconhecem a beleza que só existe na profundidade, prendendo-se ao espelho d’água e a sua rasa complexidade.

Carola não teve medo, mas sua coragem não era a dos valentes, e sim a dos impetuosos e desavisados. Entregou-se desvairadamente a Ciro, tanto que não sabia mais dizer quem era. Perdera a identidade. Sua ânsia de ser correspondida era tamanha que não devolvia ao amante o espaço ao qual ele se acostumara a viver, direito adquirido e resguardado pela Constituição. Estava sempre a um braço de distância do rapaz, como se um campo gravitacional os atraísse e a qualquer momento pudessem fundir os corpos, tornando-se uma mesma massa, disforme e inextricável. Bebia suas palavras, respirava o ar que expelia. Tornou-se uma sombra, uma extensão do corpo de Ciro. Quando ele pensava em pegar um copo, o braço de Carola se estendia e o levava a boca, dando-lhe os goles. Não de acordo com sua sede, mas com uma vagarosidade torturante de quem queria se fazer presente. Ela o banhava, o vestia, o penteava, olhando com olhos cada vez mais esbugalhados e penetrantes. Precisava tocá-lo incessantemente, como um cego reconhecendo o caminho. E seu desejo era tanto, que em pouco tempo não havia uma gota de energia em Ciro para suprir as necessidades tiranas e egoístas da moça.

Assustado com o monstro implacável com o qual passou a conviver, Ciro tentou desvencilhar-se alegando viagens a trabalho, doenças de familiares, dificuldades financeiras. Para tudo Carola tinha uma solução imediata e imperiosa, da qual não havia como fugir. Ciro apelou como pode, tentou fugir duas ou três vezes, mas Carola não dormia mais. Ligou para a polícia, contou para amigos, mas foi desacreditado por ela, que afirmava que ele sofria dos nervos nos últimos tempos. Como último recurso, tentou ameaçá-la de tirar-lhe o que mais queria com uma faca atravessada ao próprio pescoço. Com a calma doente de quem tinha certeza de estar no controle da situação, Carola olhou para o espelho e disse:

- É inútil, amor. Eu te recrio quantas vezes forem necessárias, porque estás dentro de mim.         

quarta-feira, 7 de março de 2012

Terceira Via

                   Por Fabio Ramos




ela tomou viagra
ele tem enxaqueca

                      ela abriu a compota
                      ele passou esmalte

ela fez exame de próstata
ele fez o pré-natal

                      ela é muito machista
                      ele usa absorvente
 
ela mantém casos extraconjugais
ele começou uma nova dieta

                      ela troca pneu
                      ele urinou sentado

ela palitou os dentes
ele ousa no decote

                      ela se chama Arlindo
                      ele se chama Benedita

terça-feira, 6 de março de 2012

Junho

Por Denise Fernandes



                         Mês de bênçãos e iniciação
                         foi em junho que percebi
                         o Centro do meu coração.
                         Não era mistério, não era verdade,
                         era um mar.


                         Quando meu pai me ensinou a pescar,
                         me ensinou também a esperar:
                         espera rio, espera norte, espera um pouco tudo;
                         e não é música do Chico Buarque.
                         É fazendo silêncio, fabricando e tecendo
                         o silêncio das coisas e do próprio ser:
                         faz parte da pescaria.
                         faz parte da paz.
                         do junho que vivemos
                         e esse pelo qual sonhamos.


                         O jardim pede espera.
                         O mar ajuda a esperar.
                         Chacoalhando no peito
                         seu líquido viscoso e tão cheio de vida,
                         seu pensamento dinâmico cíclico absurdo,
                         me contenho como se o Tempo não existisse
                         e só houvesse junho, a espera e o mar.

sábado, 3 de março de 2012

Chantagenzinha Pseudo-romântica

                                                      
                                                          Por Flávia Marques






Meu coração vai molemente dentro do táxi. Olho a paisagem, mas não vejo. Minha cabeça ainda está naquela despedida, repassando cada gesto, cada palavra, tentando entender como fomos tão estúpidos. Seria possível voltar tudo até antes de nos perdermos? Seria mais que um desejo ingênuo tentar resgatar o que nos uniu? Gosto do movimento do carro, deslizando pelas ruas mortas desse domingo de Ramos. Gosto de não ser interrompida e peço ao motorista para dirigir sem rumo pela cidade fantasma, até que eu dê o sinal para me levar para casa novamente. Abro um pouco a janela para que o vento fresco toque meu rosto e seque minhas lágrimas. Odeio ar-condicionado. Não se pode chorar impunemente com o ar condicionado. O taxista olha de vez em quando pelo retrovisor e torce a cara. De que ele está reclamando? Vai ganhar uma nota pela corrida! Deixe-me em paz e dirija! Tenho direito a uma crise de choro depois do fim de um casamento de tanto tempo. Enquanto choro em movimento, ele arruma as malas e sai. Não quis ficar para vê-lo sair. Achei que se não visse seria como se não tivesse acontecido. Que sorte Melinda já estar casada! Que sorte?! Talvez isso mesmo tenha antecipado as coisas. A ausência de nossa filha alargou o buraco que foi se formando entre nós. No início do casamento as diferenças são um charme, depois de um tempo passam a ser o motivo pelo qual você questiona sua escolha. No dia seguinte ao casamento de nossa filha, ele passou a dormir no escritório, e eu, na porta mendigando atenção. Isso não poderia ter dado certo, não é mesmo? Quando Melinda soube levou um choque. – Ah mamãe, como isso foi acontecer? E eu querendo saber a mesma coisa.
 
- Motorista?
- Pois não, senhora.
- O senhor pode me levar para casa agora.
- A senhora não acha melhor dar mais um tempo? Até parar de... A senhora sabe... Chorar?
- Ora, como ousa?
- Desculpe-me senhora, só quis ajudar.


E agora essa! Só quis ajudar. Se ele quiser ajudar pode começar convencendo o Mauro a ficar. Ele nem sabe fazer as malas! Volto para minha casa a hora que eu bem entender. Sei que não deveria, mas quem sabe ele não desiste se me vir sofrer?! Quem sabe um pequeno escândalo? Uma última humilhação! Se surtir efeito, que mal terá? Afinal de contas, Mauro sempre gostou de me humilhar um pouquinho. Tem um prazer sórdido em me ver desesperada por ele. Ou será que sou eu quem gosta de fazer o papel ridículo? Quem sabe a essa altura! Acho que já sei. Posso me oferecer para fazer as malas. Conversa vai, conversa vem, eu penso em alguma coisa. Talvez até passe um pouquinho mal. Acho que vou ligar para a Melinda. Ela sempre o comove com seu ideal de família unida. Ela sempre foi seu ponto fraco. Talvez não seja muito honesto de minha parte, mas vou chorar mais um pouquinho.