sábado, 20 de setembro de 2014

O filme, a canção, o túnel e Vincent

Por Meriam Lazaro
 
 

 
A ficção pode trazer conforto antes que em nós se hospede o tédio. Descreve-se o tédio como o sentimento caracterizado por falta de estímulo. Talvez o tédio possa surgir também pelo excesso de estímulo a que somos incitados, especialmente pela internet no caso dos frequentadores das redes sociais. Isto requer medidas para desacelerar. Que tal um filme de arte?


No sábado, escolho um clássico. O conto “Corvos”, no filme “Sonhos”, de Akira Kurosawa, mostra um rapaz observando telas no museu. As telas ganham movimento até que o rapaz se vê frente a frente com o pintor no campo de trigo. Pude entender porque aprecio tanto a aparente simplicidade da arte de Van Gogh. Percebo algo como: quando uma cena parece pintura, não necessita ser pintada. A beleza para o pintor está no cotidiano. Daí, aos olhos atentos, adquirirem vida uma cadeira com cachimbo, um quartinho com objetos modestos, sob a ponte as lavadeiras no rio, no campo os humildes colhedores de batata... Repito o conto e vejo que não subtrai dali a minha percepção.


No domingo, convite aceito para ir ao cinema, no trajeto comentei com uma amiga o que havia percebido sobre a arte de Van Gogh e do filme “Sonhos”. O som do carro mudou de Djavan para tocar uma belíssima canção estrangeira. Com inglês sofrível percebi que falava de estrelas, estrelas na noite, pintura em cores azul e cinza, árvores, flores flamejantes, sanidade e de novo estrelas, estrelas na noite. No trajeto, deveríamos passar pelo túnel que dá acesso à rodoviária, mas pouco saíamos do lugar por causa do engarrafamento atípico para uma tarde de domingo. Enquanto observava a floração das paineiras, pedi para repetir a canção, cujo título apareceu no mostrador: “Vincent”. Uma homenagem ao pintor! Restava descobrir o nome do cantor, o que fiz mais tarde pela internet.


Meia hora de engarrafamento depois, cruzamos a entrada do túnel. As pistas laterais estavam interditadas para um dos mais deslumbrantes acontecimentos de rua já presenciado por nós. Sob fortes holofotes, dezenas de grafiteiros de vários países estavam colorindo as paredes do túnel de uma ponta a outra. Fotógrafos com máquinas e celulares estavam a postos para captar a beleza do momento. "Vincent" continuava a tocar.


Um pouco atrasadas, conseguimos os últimos lugares para a sessão das cinco. Depois de passar por tanta beleza no caminho, me peguei de olhos fechados em vários momentos do documentário sobre a medicina indiana. Este sim, maçante! Novamente me veio à mente a ideia de desacelerar. Pensei em voltar ao antigo hábito de trocar correspondência com pessoas de longe. Não conhece o encantamento, quem não viveu a expectativa de receber uma carta, contendo figura ou desenho num canto do papel, no envelope o selo bonito para se colecionar e as notícias dos parentes lidas com toda pompa para deleite da família. Assim, não se espante se nos próximos dias o Carteiro chamar seu nome com uma carta na mão!
 

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