quinta-feira, 3 de julho de 2014

Estarão eles ainda vivos?

Por Amilcar Neves*

 

Um aposentado de 77 anos mora com a mulher em um sítio nos arrabaldes violentos de uma cidade violenta da Grande Rio de Janeiro: ele, a mulher, o caseiro, os cachorros que cria e, mais inofensivas, as orquídeas que cultiva. É assassinado em casa por três facínoras que invadem o sítio, ludibriam os cachorros, ignoram as orquídeas, amarram o caseiro e surpreendem o casal quando retornava ao lar: arrombaram a casa às 14 horas e, sem mexer em nada, esperaram pacientemente os donos chegar, lá permanecendo por quase dez horas. Os bandidos faturaram dois computadores, duas impressoras, joias, 700 reais, duas pistolas e uma carabina calibre 12 da coleção particular do ancião. Suspeita-se que outros dois meliantes, num carro, dessem cobertura ao trio cruel.

 
Um acontecimento trivial que não merece mais a mínima atenção do telespectador e que, por consequência, é ignorado pela imprensa, afora os destaques habituais nas seções sensacionalistas que se nutrem de sangue ao tratar de gente que mal tem nome: um João, uma Maria, um Antônio e três marginais é tudo do que se necessita para identificar vítimas e assassinos. Do crime da véspera para o de hoje, mudam apenas alguns detalhes sórdidos.

 
No caso, o velhinho vivia retirado do mundo há três décadas, desiludido com a vida e remoendo o esquecimento a que fora relegado. Andava bastante magoado com a instituição pela qual literalmente dera o sangue - o dele e, muito especialmente, o de outrem - e que acabou por abandoná-lo. Pelo menos era assim que ele enxergava a situação. Considerava, judicioso, que não somente ele fora descartado, mas muitos dos seus, colegas honrados que ombrearam com ele os mesmos ideais, as mesmas lutas, idêntico fervor cívico e moral.

 
Paulo, na verdade, era o nome do ancião que morreu asfixiado sobre o próprio travesseiro. Dos cinco filhos, não tinha intimidade nem mantinha contato com nenhum. Embora fortes suspeitas sugiram que teria relações estreitas com grupos de justiceiros da região, vivia recluso no sítio com Cristina, de 40 anos, sua sexta esposa, a qual passou 25 anos ao lado do marido. Vasculhando a casa após o bárbaro crime, policiais federais recolheram três computadores, mídias digitais, agendas e documentos que seriam da época da ditadura militar, inclusive relatórios de operações secretas. Naquele tenebroso período da vida nacional, o tenente-coronel Paulo Malhães serviu no gabinete do ministro do Exército e foi agente do Centro de Informações do Exército. Morreu no dia 24 de abril, uma bela data.

 
Trinta dias antes, em 25 de março, ele prestou depoimento à Comissão Nacional da Verdade relembrando suas façanhas. Contou em detalhes como a ditadura mutilou e desapareceu com os corpos de presos políticos. Segundo o velhinho, "para evitar que fossem encontrados, os agentes dos serviços de repressão jogavam os mortos em rios, em sacos impermeáveis e com pedras de peso calculado. Isso impedia que afundassem ou flutuassem. O ventre da vítima também era cortado, evitando assim que inchasse e voltasse à superfície. O objetivo era criar condições para que o corpo fosse arrastado pelo rio. No caso de serem encontrados, os restos mortais dificilmente seriam identificados, porque os militares tomavam a precaução de arrancar as arcadas dentárias e os dedos das mãos, antes de lançá-los às águas."

 
Em 1973, o gabinete do ministro incumbiu-o de dar sumiço no corpo do deputado Rubens Paiva. "Eu adorava meu trabalho", ele costumava dizer.

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 30.04.14

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