Por Amilcar Neves*
A queixa é mais ou menos assim:
"Um absurdo, um escândalo a exploração desses convênios de saúde! Cobram
uma fortuna dos segurados e pagam uma miséria para os médicos credenciados!
Pouco mais de cinquenta reais por consulta quando qualquer idiota sabe que
Medicina é dos cursos mais dispendiosos para os alunos, mesmo em universidade
pública! Imagine: são seis anos de faculdade, mais dois de residência
obrigatória, mais três longos anos, no mínimo, de especialização, mais
congressos, conferências e simpósios a fim de manter a indispensável
atualização, a necessária sintonia com o estado da arte em sua área,
para ganhar cinquenta reaizinhos por consulta! Por baixo, 11 duros anos de
banco escolar para, como profissional gabaritado, receber a ninharia de
cinquentinha!"
Todo mundo já ficou com pena do
seu médico, xingou o governo que não fiscaliza e os convênios que abusam, e
sentiu-se, no mais íntimo da sua alma, o maior culpado pelo fato de que, mesmo
involuntariamente, estamos causando um grande dano ao profissional da saúde
que, no geral, costuma mostrar-se dedicado e atencioso. Isto sem contar que é
cada vez mais difícil conseguir marcar hora com um especialista - na hipótese
de ele integrar os quadros do teu convênio de saúde -, deixando-te a impressão
de que estás procurando consulta e tratamento pelo SUS.
Assim, foi uma surpresa enorme
quando a mulher ligou e a secretária do badalado médico, cujos nome e fotos
vivem saindo nas colunas sociais dos melhores jornais da região, disse que ela
podia escolher o dia, "até mesmo para a tarde de hoje", completou.
- Sempre tem horário disponível?
- Sempre, o Doutor sempre
consegue encaixar mais um paciente.
Isto pode ser bom ou ruim, ela
pensou, mas precisava do atendimento e escolheu um dia em que o marido também
tinha médico marcado, assim os dois poderiam ir juntos no mesmo carro, o que os
faria contribuir para a redução dos congestionamentos urbanos.
O médico do marido ficava a três
quadras do seu, ela esperaria um pouco até ser atendida no horário marcado para
ela, depois seria a vez dele esperá-la. A consulta dele durou pouco mais de 30
minutos:
- Conversamos sobre livros,
literatura, filosofia, ideologias, ditaduras latino-americanas, medicina e até
sobre a minha saúde - ele contou depois, satisfeito da vida com o atendimento
humano recebido. - A 50 reais por consulta, meu médico fatura quatro mil por
semana trabalhando oito horas por dia e 18 mil por mês - 27 mil se consultas
levarem 20 minutos -, o que não é valor desprezível. Considerando cirurgias e
exames complexos, seu ganho é maior.
A mulher estava possessa:
- Vocês lá batendo papo nessa
vergonhosa conversa fiada e eu aqui esperando neste calorão, nesta sala imunda
e apinhada de gente! O sujeito mal olhou na minha cara, não quis nem espiar os
exames que a médica da emergência do convênio me pedira - ela não é
especialista, falou, não sabe de quais exames eu preciso -, prescreveu os
mesmos exames que ela, mandou-me voltar quando tivesse feito tudo no
laboratório que ele indicou e me despachou. Tudo isso em quase 3 - três! -
minutos de consulta! Ele atende todo mundo rápido assim, até as consultas
particulares.
O marido rapidamente fez as
contas: são 20 consultas por hora, 160 por dia, 800 por semana, 3.600 por mês,
o que daria a bagatela de 180 mil reais de honorários se atendesse apenas
clientes de convênio.
- Realmente, é um escândalo esse
negócio dos planos de saúde...
* Crônica publicada no jornal
"Diário Catarinense" de 29.01.14
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