sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Adeus

Por Mayanna Velame
 
 


Tentou ser forte, implacável. Os olhos se negando a voltar ao passado. O corpo dizia “não”, mas a alma queria gritar para o mundo um único sim, definitivo e eterno. Na verdade, o que poderia ser eterno? O amor? A paixão? Ele queria ficar.
 
Os escritores sabem que tudo na vida é efêmero. Ele sabia disso. Nunca havia amado de fato, almejado ninguém. A primeira despedida é sempre arrebatadora. “Nunca entregue seu coração” – dizia o pai. 

O apaixonado quis ser racional, o sentimento é arquiteto de armadilhas. Qual o segredo para trancar a porta do coração? 

Procurou encontrar respostas nas estrelas. Subia os montes mais altos da cidade, percorria escadas para chegar ao último andar dos prédios. Tudo em vão: as palavras escritas nas cartas de amor, o telefonema em meio à lúgubre madrugada, o beijo recebido na silenciosa sala de estar.  

O adeus óbvio o agonizava, na medida em que as roupas eram postas na mala surrada e sem zíper. A vida é tétrica, mesmo quando os sonhos se projetam fantásticos em nossa mente tão ínfima. 

Olhou ao seu redor. O quarto? Lugar secreto das noites de promessas que nunca foram cumpridas. A cama coberta por lençóis frios, a chuva amaldiçoando as vidas. O que mais poderia acontecer? A resposta saía naturalmente de sua boca: nada. 

Sentou-se à beira da cama. A mala ao lado, entreaberta. Deita fora suas vestimentas. Abaixou os olhos e lembrou-se do tempo em que a felicidade se resumia a abraços, beijos, sexo. Um novo horizonte se lançava: um filme extraordinário, protagonizado por dois seres tentando se completar. 

O adeus é completo. O que ele tinha em mãos seria roubado pela vida. A vida não é círculo perfeito, ela tem o seu fim muito bem elaborado. Filosofias à parte, o tempo se espatifava no ar. A penumbra escondia seu rosto. Suas emoções alojadas no âmago das recordações mais sinceras. 

Por que pensar nos bons momentos? Ele sabe que o passado é preso no seu próprio tempo. Recordar é ferir, apunhalar cada vez mais o que chamamos de sentimento. Balançou a cabeça como se não entendesse, ou melhor, não queria aceitar o fim de tudo: o fim do amor, da paixão, da felicidade. 

A mala em mãos suadas, o olhar fixo na janela que também chorava – queremos sempre vencer, quando a vitória não é a nossa melhor amiga. A porta estava ali, pronta para ser aberta; o quarto ficaria vazio, sem vida; os móveis não fariam sentido, não teriam utilidade. O benefício do amor é a solidão. 

Pensou em tudo, menos em si. O melhor era esquecer o que jamais seria esquecido. Fatos marcantes são cicatrizes na alma. Em passos curtos partiu. A mão na maçaneta, a porta lhe apresenta o corredor escuro. Nenhum bilhete escrito, nenhum recado enamorado.

Não! As palavras, muitas das vezes, nos fazem sofrer. Mas ele estava convicto que o silêncio de uma pessoa assassina qualquer esperança. Ele fecha a porta, segue seu caminho. A sombra reflete nas paredes. É sua última permanência naquele prédio, onde conheceu a outra face do amor: o amor não eterno.

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