segunda-feira, 7 de setembro de 2015

estrondo de cais

Por Ana Paula Perissé


Imagem: Ana Paula Perissé

 
                                       à margem da diferença
                                       nasce um ardor
                                       absoluto de caos.



                                       tal como um desejo constelar
                                       sem linguagem
                                       há encontro
                                       na magia fugidia
                                       d´1 bailado de ondas
                                       (seu sentido mutante)



                                       frêmito
                                       em almas

domingo, 6 de setembro de 2015

Lua Miúda

Por Oswaldo Antônio Begiato




Mais do que
qualquer coisa,
nesta minha vida
de hospedeiro,
queria te amar
ardentemente
com minhas portas
escancaradas
e minhas janelas
descortinadas.


Mas tu és estrela
e eu lua miúda.

sábado, 5 de setembro de 2015

A cidade da minha infância

Por Meriam Lazaro




Lugarejos? Vários. O lugar onde nasci é hoje apenas uma marca no mapa e a lembrança da olaria, cujo barro servia de massa de modelar. Viagens para outras praias de areia brilhante que refletia o azul no fundo das águas. Em todas havia mangue, garças, guarás, chuva, sol... O sol não gostava de ocasos nessa época. Brilhava sempre e eu com ele girávamos giros-sóis, petecas, piões, bambolês. Depois, a cidade morena de Belém do Pará sob a chuvinha serena da tarde. Chovia letras, música (muita!) e desenhos no papel. Dos frutos, de nomes engraçados, pouco vejo por aqui, mas ainda sinto o cheiro e a água na boca: pupunha, açaí, cupuaçu, bacuri, uxi, mari, jenipapo, jaca, buriti, murici, taperebá, ingá... Jambo! Era lindo feito coração. De Norte a Sul, tantos quilômetros depois, a cidade de renascença. A cidade onde nasci é um repositório de memórias alegres, tristes, boas, más, todas as sendas onde se movimentam pessoas. Algumas, eu toco. Outras se perderam no pôr do sol. Deu saudade. Corta!

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Setembro

Por Mayanna Velame




O trem segue lentamente seu destino. Pela janela, observo a tarde que se expande. Do norte ao sul. Sinto-me bem viajando, um pássaro abrindo asas rumo à liberdade perdida. Um vento repentino acaricia meu rosto úmido e pálido. A nostalgia me domina e me aquece. Retiro do bolso um pedaço de papel surrado. Há um poema escrito nele. Sempre agonizo quando o leio.


Palavras são devaneios, êxtase. Tenho recordações de um amor que a vida e o destino souberam silenciar, porém, não sucumbir. Poderia ter todos os amores, mas eu sei que este sentimento é ímpar, singular. Essa unidade jamais será preenchida em meu coração. Estou amuado porque o sol brilha lá fora. Tenho vontade de ver e tocar a chuva. A tarde de setembro prevalece, sorrindo. Minhas costas doem e minhas pernas querem andar. Levanto-me e coloco o chapéu marrom. Poucas vidas se fazem presentes na locomotiva. Muitos dormem. Outros tentam ler romances. Como eu gostaria de ser um protagonista feliz e heroico! No entanto, sou apenas o resto de nada.


Do lado externo do vagão, esquadrinho o tempo fugaz. O sol, erguido no alto, chama a morte  para o nascimento da noite. No campo, literalmente verde, o gado pasta; norteado por um vaqueiro valente. Deus, a valentia nunca esteve em meu espírito! O céu avermelhado é pintura dos deuses. Em questão de segundos, estrelas brotarão no lençol imaculado. Uma parte do meu ser se alegra. Vejo nuvens arroxeadas, presságios de chuva, presságios do fim. O poema preso em minhas mãos. A leitura é moldada em meus próprios sentimentos. Estou desesperado; pois sinto falta daquilo que estes olhos jamais viram. Estou perdido em labirintos que estas mãos criaram. Tenho desejos. Ganas de aniquilar tudo que o medo não me permitiu construir.


Quando as estrelas dormirem,
Abra seus olhos.
Quando o sol se apagar,
Acenda sua luz.


Quando o piano desafinar,
Use sua voz e cante.
Quando o amor morrer,
Ressuscite seu viver.


Solto o poema no ar. Mesmo ferido, ele voa. Suas asas recebem a vida, o espaço. O mundo lhe pertence. Vidas inúteis lhe procuram. Vidas insanas lhe almejam. A viagem prossegue. Espero que chova. Deus irá realizar este sonho. Eu acredito nisso! E continuo acreditando...

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

É o que há

Por Daniella Caruso Gandra


Imagem: Gabriele Münter


Há que se ter uma mão ao liquefazer a dor nos olhos, na hora da aflição, no derramar do próprio cálice que se toma. 

Há que se experimentar a perda, daquilo que nunca, de fato, foi pertencido, do jeito mais indulgente, clemente para consigo. 

Há que se expor aos julgamentos, mas sem abortar os sentidos mais puros, menos egoísticos. 

Há que se revisitar, em necessidade, os motivos de certas convergências que até hoje algum tempo devotam. 

Há que se refutar ilusões tão queridas pra não desmerecer a sina. 

Há que se pacificar ânsias, rebeldias, situações inconclusivas, brecando a boca e toda e qualquer ação maldita. 

Há que se espaçar pouco do sofrimento como se frescor fosse, ao varar todo e qualquer malsucedido momento. 

Há que se valer do ontem, do agora, pro até já ser bem mais do que só um racionalizar.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Aceitamos Sugestões

Por Fabio Ramos
 

 
 
o que fazer
com
as
mãos?


colocar
no
bolso?


roer unhas?


estralar
os
dedos?


ou produzir
um gesto obsceno?

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Sinais

Por Denise Fernandes
 
 


Acho que estou em crise poética
 
e você me pede para evitar
 
conflito dizer e até gritar
 
arejado está nosso quarto
 
e você me abraça bem devagar
 
fugi desse amor?
 
sentimento de santo, na beira do abismo
 
a noite traz pequenos animais,
 
enquanto aguardamos com os velhos sinais,
 
agora eu digo sim,
 
e tenho a sensação de não saber muito bem o que faço.
 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Despropósito

Por Ana Paula Perissé


 
 
                                     da distância que tomo
                                     do estalido de urgências
                                     um relampejar do inútil
                                     persegue-me
                                     Ah! que maravilha


                                     ando tão farta da praticidade
                                     que move as garras de Chronos
                                     em busca da ação (tele)apática
                                     sem sangue rubro
                                     vertido quente
                                     em minha pele
                                     vaga


                                     (entranhas sem propósito
                                     chances do acaso
                                     e da delicia formosa)


                                     Caos-me
                                     remanescente ainda
                                     a gerar luz fosca.


                                     Um dia,
                                     encontrei-me com o nada
                                     e ele tem voz macia e magra
                                     sedutora mas vesga


                                     Despropósito.