quarta-feira, 18 de março de 2015

Lisboa

Por Fabio Ramos
 



igrejinha
em
quadrados
 

é
azulejo
português
 

que
reveste
a
parede
do casarão
 

peças
montam o
quebra-cabeça
 

e a cor?
 

azul
(evidentemente)
 

combina contigo
meu bem
 

pois é

segunda-feira, 16 de março de 2015

rangeria

Por Ana Paula Perissé




                                          Rangiam os incautos
                                          os inocentes
                                          os breves de espírito .


                                          porque o tempo das coisas
                                          ameaça nossa existência.


                                          A acção que se dá
                                          reaLIDADE coisa
                                          é pessoal e intransferível.


                                          Ave!


                                          O verbo de faz
                                          Sem aventura
                                          Muita.

domingo, 15 de março de 2015

Gosto

Por Oswaldo Antonio Begiato




Por que devo gostar das uvas?
 
 
Prefiro os charutos
feitos por dona Jandira
com as folhas verdes
da parreira.


Ela os colocava na marmita
todas as primeiras segundas-feiras do mês.


Isso sim era gosto bom!


As uvas deixo às raposas.

sábado, 14 de março de 2015

No tempo de Aladim

Por Meriam Lazaro




Há expressões, como a “do tempo do Êpa” ou a “do tempo do Ariri Pistola”, que ouvimos, reproduzimos, mas não sabemos como surgiram. “Êpa” seria uma redução de Epaminondas, nome próprio que poucos hoje em dia recebem ao nascer. A outra expressão, que também representa algo antigo, obsoleto ou em desuso, é a “do tempo do Ariri Pistola”, que estes ouvidos confundiam como sendo “do tempo da Lili Pistola”. Pois bem, de fato existiu uma Lili, que usava pistola para comandar assaltos no Rio de Janeiro pelos idos de 1970 e 1980, mas o seu apelido era Lili Carabina e nem faz tanto tempo assim.


“Ariri Pistola”, na verdade, era um piauiense nascido em 1869, cujo nome era Horácio. Viajou pelo mundo, inclusive em terras japonesas, onde conheceu o famoso haraquiri, tipo de prática que alguns japoneses utilizavam para cometer suicídio. Muito bem. De volta de suas andanças, Horácio foi acometido de depressão. Segundo dizem, pouco antes de se matar correu pela cidade, de posse de uma pistola, dizendo repetidas vezes que iria “cometer haraquiri”. O povo da cidade, sem saber o que era haraquiri, ao explicar o ocorrido informava que o “cabra” cometera o “ariri com sua pistola”. Daí, então, a expressão “do tempo do Ariri Pistola”.


Em tempos de Google, encontramos explicação para tudo ou quase tudo. Até onde são verdadeiras ou não estas explicações nem sempre sabemos. Além de reproduzirmos expressões antigas, muitas vezes sem saber o significado, criamos outras. Assim ouvi outro dia que no Sul vivemos no tempo de Aladim. Devido ao frio intenso, do outono-inverno, vemos aqui e ali pessoas esfregando uma mão na outra para tentar aquecê-las. Pena que nessa hora não saia da lâmpada aquele mago que, num piscar de olhos, faz maravilhas ao reproduzir de forma geométrica o patrimônio de certas pessoas. Coisa que gênio algum explica.
 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Classificados

Por Mayanna Velame




Poeta procura palavras
de amplos significados e sentidos.
Para ingressarem de imediato
neste poema.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Havia uma confusão por ali

Por Amilcar Neves*
 

Da última vez em que o feriado de 15 de Novembro caiu numa segunda-feira, Mônica fez o que gosta de fazer logo cedo em toda manhã ensolarada: abrir de par em par as janelas do seu quarto, na ampla e aconchegante casa em que mora com Eduardo, de quem está se separando depois de tantos e tantos anos de vida comum (embora planejem continuar a viver sob o mesmo teto, porém com vidas independentes e autônomas, a uni-los apenas os filhos, todos residindo no exterior), abrir as janelas do quarto que ainda divide com o quase ex-marido e fruir a beleza do quintal dividido, atrás da residência, em áreas harmônicas de jardim, horta, pomar e floresta, aspirar o perfume inebriante das flores multicoloridas enxameadas de abelhas diligentes a polinizá-las com fervor, apreciar o progresso rápido que sempre apresentam as hortaliças, legumes, verduras e especiarias que cultiva nos canteiros alinhados com capricho, gozar o alarido gentil dos pássaros entre as frutas maduras que lhes dão alimento e confiança em mais este dia todo em louvor de Maria e deixar-se acariciar pela brisa fresca intumescida de essências vegetais naturais que o vento matinal extrai delicadamente das árvores altaneiras que sombreiam a manhã resplandecente de luminosidade, esperança e calor, tudo isso sob as bênçãos generosas e perdulárias do sol magnífico que desponta na fímbria do horizonte logo ali à frente. É assim que Mônica inicia sua jornada cotidiana, é assim que inaugura cada dia da sua vida repleta de incontáveis satisfações pessoais.
 
Naquele dia específico, entretanto, o que Mônica viu no seu quintal foi um povaréu reunido como se houvesse ali uma festa em andamento. Pior: era uma gente miúda como pigmeus que chegava a ser verde de tão escura. Como se fosse uma assembleia de assustadores marcianos. Assustada, virou-se para o quarto sem despregar os olhos daquele povo cujas reais intenções ela desconhecia e gritou por Eduardo. No ato, lembrou-se que Eduardo viajara para Brasília há cinco dias.
 
Do interior da casa brotava o burburinho de gente se despedindo: o pessoal que sobrara da festa da véspera e que começava a ir embora.
 
Mônica alcançou o celular no criado-mudo e ligou para a única pessoa em quem podia efetivamente confiar, o amigão e vizinho Manoel Osório. Assustada, percebeu que o telefone dele chamava ali no banheiro da suíte do casal.

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 17.11.10

quarta-feira, 11 de março de 2015

Proh pudor!

Por Fabio Ramos


 
 
segundo consta
nos autos
do
inquérito

 
o
senhor
é acusado de

 
(ofender)
(vilipendiar)

 
e
ainda
por cima
denegrir a imagem
da viúva

 
isso constitui
um crime
de
lesa-pátria
cabendo o rigor
da lei

 
a pena
do referido
delito
?

 
enforcamento
em
praça
pública para
servir
como exemplo

 
(...)

 
desabafo
à
meia voz:

 
"ante
o descalabro
silenciar
é
preciso"

 
(...)

 
guardas
!

 
levem-no
agora

segunda-feira, 9 de março de 2015

quandos

Por Ana Paula Perissé




                           quando é mesmo
                           o momento?
                           quando se dá
                           uma acção?
                           quando se deve
                           levantar?



                           há tempos,
                           as dúvidas
                           nos fundam
                           como pilares de sortilégios.
                           alhures?



                           (há mais vidas
                           lá fora
                           de onde?)



                           não, não é fácil
                           suportar a dor de 1´escolha.
                           ou deixá-la
                           à deriva
                           mais uma vez.
                                                              é lançar faíscas
                                                              ao vento de tantas faces.



                           sou uma lagartixa
                           numa caixa de correio
                           pronta a fazer fogo
                           com a sobra do vinho de ontem.



                           O encontro de Hoje com o Outrora.