quinta-feira, 11 de abril de 2013

Tato

Por Rayane Medeiros
 
 


                          Que não seja...
                          Pois te digo agora:
                          Que não seja amor,
                                              Afeição
                          Ou obsessão de uma noite qualquer.

                          Que não seja ato o que me dizes tão profundamente
                          Em teus versos improvisados.
                          Que não seja tato,
                          Que não seja coito,
                          Que não seja nada.
 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

A Tormenta

Por Fabio Ramos




tri
angular
destinação
atrai como imã

domínio
da
situação
no mar
vermelho

ponteiro
de
bússola
embaralha
um
segundo
mais tarde

ventos
sacodem a
nau
que segue
à deriva

braços d'água
afogam
sim
senhora

o
barco
em direção
ao
redemoinho

vamos emergir
no aperto
final

?

terça-feira, 9 de abril de 2013

Café

Por Denise Fernandes

 

         Deu no teste da revista que fiz, sou uma "boa ex". Já desconfiava. Não tinha teste na revista sobre ter sido uma boa esposa, mas talvez o resultado não fosse positivo. Como ex me esforcei para ser o melhor possível, o mais desapegada possível. Como esposa nem sempre me esforcei porque nem sempre entendi o que fazer com tantos sentimentos. Como esposa fui amante, amiga e já era muito. Como esposa eu não soube o que era ser esposa. Mesmo cuidando da roupa do marido, de suas comidas prediletas, eu estava num namoro. Lembro do dia que resolvi aprender a fazer café, já tinha uns meses de casada. Tudo era aprendizado nesse tempo.
 
         Quando me separei, meu ex-marido me procurava dizendo estar com saudade do meu café. Eu passava um café e conversávamos. O café não nos levava para nenhum outro lugar. O prazer do café é singular e nele mesmo, a ponte do café é para dentro de si, o café é uma droga do interior. Depois houve um tempo em que precisamos nos separar desse café também.
 
         Já imagino alguns amigos juntos a uma xícara de café. Ou lembro com carinho de amigos que me oferecem café mesmo não gostando da bebida.
 
         O cheiro do café inaugurando a manhã, meu primeiro café que é de bom dia. Café como existência, bebo logo existo e coexisto. Tomar café me ajudou a ser adulta, a equilibrar o fardo transparente e tão pesado. Só o café me ajuda a pensar, pois na Cidade tudo nega o pensamento, pesados são os fatos. Só o café me liga à felicidade da rotina. O resto em mim pede mudanças. E o outro resto é Mudança.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Musa em Todos os Momentos

Por Rosimeire Soares

 

Fascinante. Como um inimaginável canto da sereia, Eurípedes Leôncio hipnotiza quem ousa lê-lo. Através de sua obra “Todos os momentos para o amor” (4ª edição), o autor oferece nuanças aromatizadas para tecer belas imagens na mente dos seres dispostos a pensar, sentir e viver o amor.

Aos poucos, a musa (citada pelo menos dezoito vezes no livro) passa a ser desnudada pelo “eu” autêntico que se declara apaixonado em todos os Momentos e provoca, no leitor, um estado apaixonante, pois elucida sonhos e instantes vividos ou idealizados. Fica evidente nas poesias uma instância de amor no mais alto grau da perfeição, seja na multiplicação da vida ou na embriaguez circunstancial, bem como na contemplação de elementos da natureza como mar, areia, flor, orvalho, vento e estrela.

A obra poética está disposta em quarenta e um Momentos para o amor, todavia desconstrói essa quantificação ao instaurar, no título, sugestiva provocação em forma de sentença: todos os momentos para o amor. Evidencia-se assim um silêncio perfumado de jasmim que aconchega a mulher amada e faz jorrar, das entranhas de cada indivíduo, aquele amor revelado ou camuflado, brilhante ou ofuscado, diurno ou noturno, real ou imaginado.

Esse paradoxal “entrelugar” do amor configura o ato estético desse autor que solta o cabo da nau e permite, à voz poética, plena liberdade para arquitetar doces momentos, ancorados no psiquismo do leitor. Essa reflexão pode ser corroborada em vários poemas, dentre eles o Momento Quatro: se cinco minutos de ausência da mulher amada inspiram nova poesia para que, em espírito, possa se aproximar e se desculpar pelos segundos de separação, realmente cabe  ao eu poético anunciar que a musa preenche todo o espaço cósmico e desafia a metafísica, culminando numa explosão de luzes e cores na mente daquele que ama ou deseja amar ardentemente.
 
Para Bachelard, a imagem poética ilumina com tal luz a consciência, que é vão procurar-lhe antecedentes inconscientes. Por isso, em cada Momento da obra é possível idealizar e edificar a imagem da musa que se confunde com a mulher amada, pois ora inspira, ora realiza um amor caudaloso, encantador e sublime. Portanto sugere-se que nesses poemas das águas a musa inspiradora de Eurípedes Leôncio não tem forma, idade, cabelos cacheados ou pele alva. Ela, assim como as águas, é fonte de vida, preenche a imaginação de quem a constrói e, ao se diversificar, apresenta-se única e transcendente, pois todos os momentos são para o amor.

domingo, 7 de abril de 2013

Pacata

Por Érika Batista
 
 


                                            Essa lua, por trás desse pinheiro
                                            Traz algo estranho,
                                            Algo de verdadeiro

                                            Essa lua, por trás desse coqueiro
                                            Tão tropical
                                            tão quente o ano inteiro 

                                            Essa lua, por sobre o pau-brasil
                                            Adorna esse lindo
                                            céu azul-anil

                                            Essa lua, por trás desse chorão
                                            É melancólica
                                            inflada de emoção 

                                            Lua de prata
                                            cheia, amarelada
                                            emoldurada
                                            num céu azul
                                            sem nuvens, nu

sábado, 6 de abril de 2013

Pontuando a Vida

Por Andreza Castro

 

                      Com um baú de sinais gráficos,
                      a vida nos proporciona o direito
                      de a conduzirmos da forma que desejamos.
                      Podemos colocar no meio do caminho as vírgulas
                      que são grandes auxiliadoras para descobrirmos
                      aquilo que somos e para onde devemos seguir.
                      As exclamações aparecem para nos mantermos alertas
                      e as interrogações para crescermos como seres humanos
                      e deixarmos de lado o senso comum.
                      Pela infinita frieza do ponto final,
                      prefiro o frescor da liberdade das reticências,
                      não pela sua omissão,
                      mas por tudo aquilo que um dia pode vir.

Residente na cidade de Nova Friburgo/RJ, bacharel em administração
e amante confessa de todas as expressões possíveis de arte.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Fotografia (Auto-percepção)

Por Luciana P. Espindola

 

Todas as fotos que eu já vi e que me inspiraram, na verdade, todas as fotos que eu tirei me fizeram perceber que as paisagens não duram. Ficam lá inertes e acabam sozinhas, apenas por uma foto é possível compreender sua plenitude. Passamos pela floresta sem percebê-la. Na fotografia a brisa é ignorada e então é possível perceber o orvalho nas folhas, a textura do caule apenas por uma foto, porque fotos já nascem mortas, como flores plásticas com beleza eterna ao contrário das naturais que envelhecem e morrem. Resumindo: é difícil admirar o que é vivo. Talvez seja por isso que o passado pareça tão belo, lembramos do que sentimos e não do que aconteceu. Saudades corrosivas em alguns casos são "enganos corrosivos", outro tipo de fuga para quem gosta de fugir. Estou fluindo, no agora e para frente sem me esquecer. A princípio isso me desesperava, Música para mim é o que o vento é para as folhas, a paixão é o meu ritmo, a paz é o meu estado genuíno. A paz... As relações perturbam a minha paz, mas sem elas não há paz alguma.

Olho fotos e, eu não estou lá. Me pergunto quantas vidas eu já vivi, quantas vezes afinal eu morri no banheiro? Quantas vezes eu dormi em prantos e deixei um caminho inexplorado para trás? Quantas vezes eu estive com a faca e o queijo na mão e cortei as próprias mãos? Onde eu comecei? Quando eu perdi o fio da meada? Quantas vezes eu cheguei em casa e tive que esperar minha cama parar de girar para enfim dormir? Acordar no silêncio... Eu sempre soube que iria embora alguma hora de algum lugar... eu fui embora inclusive do que eu costumava ser.

Vi a morte num dia de inverno e para ela ir embora tive que prometer que tentaria as coisas de outra forma, silenciosamente disse a mim mesma que amaria, assim quando a morte viesse levaria apenas meu corpo, meu fôlego... Eu levaria todo o amor que eu dei e todos os meus suspiros.
Transcender

"Eu só ando por dentro de mim; se fui em outro lugar foi pra me ver.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Ando mais por dentro de mim do que na estrada" (Manoel de Barros).
Autora do blog Patchwork de Palavras.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Mendigando

Por Rayane Medeiros
 
 


                                    Pois, creia!

                                    Há neste corpo, além da carne e das vísceras,

                                    um peito que pulsa e corteja o amor,

                                    qual mendigo humilhado implorando comida.