sábado, 8 de agosto de 2020

Solstício

Por Meriam Lazaro




Quando o dia se fez noite,
Inverno n'alma senti.
Sem teus beijos, por açoite,
Sem amanhã, eu dormi.


Minha cama fez-se estrada,
E rondei versos por ti.
Não desejava mais nada,
Sei que por amor morri.


Lutei com a dama da foice,
Pela janela fugi.
Voei como se ave fosse,
De uma gaiola saí.


Melancolia danada
Em cinzas que absorvi.
Fosse a noite enluarada,
Sonhava contigo aqui.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Se não fosse você

Por Nana Yamada




Ah! Se não fosse você
Não sei como eu tinha lidado
Todo esse tempo
Com tantas coisas
Com tantas mudanças
Com tantos recomeços
Com tantas novidades
Com tantas indecisões
Com tantas horas
Com tantas conversas
Não faço ideia
Como eu estaria
Se não fosse você

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Alma inteira

Por Fabio Ramos




na escada


que
fura


(as nuvens)


o
bom
combate


se
dá:


um passo a frente


e
dois


PARA TRÁS


(...)


alma
no


degrau


que
revira


(dentro do templo)


nesse
vale


(...)


até
ser
chamado


de
volta


ALGUM DIA


após
concluir
sua jornada

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Caminhada na pandemia 2:
Relógio

Por Denise Fernandes




E sinto um medo louco da morte. Medo de morrer não apenas da morte morrida, mas de outras mortes. Como se tudo que erro desabasse em cima da minha cabeça, ao mesmo tempo.

O coração subitamente vazio, como um deserto de pedra e penumbra. Claridade que acendo na base da tinta. Solidões. Lembro da frase que diz: "O caminho do inferno está pavimentado de boas intenções". Mas a intenção de andar me toma por inteiro. Só pode ser uma boa intenção. Tantos sentimentos em mim, que não entendo.

Passo pela relojoaria do Cambuci. O dono da loja me dá um tchauzinho. Ele está sem máscara  e me sorri um sorriso aberto, feliz, pleno. Ele atende um cliente no balcão. Sorrio por baixo da máscara e me pergunto se ele vê o meu sorriso, de alguma forma. Se meus olhos sorriem, se foi amplo nosso encontro (ou tão rápido).

Lembro que a primeira vez que fui lá, ele apareceu e eu disse que estava só olhando. Ele disse que eu tinha bom gosto, que podia olhar, e que os relógios eram algo lindo. A relojoaria dele é lotada. Há relógios de todos os tipos ali. Enquanto conversávamos, ele tirou, detrás do balcão, um saquinho com pastéis de vento. Nem sei se ainda vendem pastéis de vento. Faz tempo que isso aconteceu. Ele fez questão que eu aceitasse um pastel. Como sou gulosa, aceitei. E também aceitei porque o gesto dele foi de uma gentileza, de uma simpatia... Que graça ele é!

Minha tarde ficou imensamente melhor depois de conhecer essa loja, que considero mágica. É um pecado meu ficar triste; já que tive tantas graças, tantos momentos profundos e inesperados em minha vida. Só não entro na loja por causa da pandemia.

A última vez que estive lá, ele disse: "Peraí, que vou pegar meu computador". E voltou com um caderno universitário velho, onde anotava todos os pedidos e promessas de conserto. Disse, então, que só trabalhava quando tinha vontade e que relógio consertado por ele, ficava bom de verdade. Não consigo lembrar o nome dele. Ele tem uma velhice que admiro tanto. Gostaria que a morte não me pegasse logo para ficar como ele, velhinha, na minha "loja de relógios", anotando num caderno universitário uma lista com promessas de trabalho.

Como fiquei feliz ao ganhar meu primeiro relógio de pulso. Tinha um esquilo desenhado nele. Por um bom tempo, conferi as horas a todo instante. Lembro que meus pais começaram a rir de mim. Tentei me controlar. Enquanto não descobrimos essa vocação para ser palhaça na vida, a gente se chateia quando se torna alvo de zombarias. O barulho do relógio me agradava.

Não quero pensar no inferno. Quero passar de novo por essa relojoaria mágica, onde o dono me sorri. E quem sabe, ter a sorte de provar um pastel de vento, recheado com tic-tac.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

exílio

Por Ana Paula Perissé




move-te
pois te quero
vivo e imenso
dentro de mim


olha-me
como se te fosse
mais viva ainda,
vadia
esgarçada de tensão
e quentura de poros
em ódio-amor.
sou tua cara
de sombra e de viço,
molhada em teu corpo
exílio de mundo.


faça-me longe,
apenas perto de ti, e só.
tuas marcas e cicatrizes
à minha pele
estão seguras.
e arranhadas.
beijadas por língua
etílica.


Diga-me
em sons ofegantes
que a hora se faz imóvel
atalhos de início da noite.
infinito pequeno
porque só nosso,
1´roteiro e envoltório
de nossos abismos
singulares
.
me coma.

domingo, 2 de agosto de 2020

Desejos

Por Oswaldo Antônio Begiato




No princípio
ela quis apenas
um instante.


Depois,
quando o céu
era tocável,
desejou muito
o perfume
das horas.


Mais tarde,
cheia da esperança
de quem nasce
livre,
suplicou pelo olhar
da vida inteira.


Algum tempo mais,
radiante
como uma noiva
virgem,
morria pela promessa
de eternidade.


Quando a última lágrima
chegou,
feliz como cuitelinho
diante do açúcar,
ela se entregou escrava
de corpo
e alma
ao amor temporal.

sábado, 1 de agosto de 2020

Palavras de um futuro bom

Por Meriam Lazaro
e Teris Henrique Filho




Palavras que por ti são ditas
Traduzem o dom de pertencer,
O destino na canção bonita
De tudo que eu quero viver.


Palavras que em ocasião bendita
Soam segredos de um adormecer,
Declaram a delicadeza da vida
Cuidado que nos faz crescer.


Palavras que suprimem a dor maldita
Fazem de novo a paixão acontecer,
Transformam a insensatez aflita
Em sentimento bom de acolher.


Palavras que por mim são ditas
Desejos que o sonho faz entender,
Espelhos de emoções infinitas
Para um futuro de amor florescer.