quarta-feira, 15 de abril de 2020

Hello stranger

Por Fabio Ramos




da
visão


(borrada)


que
forma


(entre curvas)


e retas
um


dorso
nu


(...)


(no carro)


ou
no
escuro


do
quarto


(apalpa e mama)


pois
quer


averiguar:


tem
jeito


e gosto de mulher


(...)


não
sabe


(como fez)


para
entrar


(mas viu quando ela)


sumiu
em
um


passe
de mágica


depois da satisfação

terça-feira, 14 de abril de 2020

Pacientes terminais

Por Maurício Perez



O psiquiatra William Breitbart trabalha há anos com pacientes terminais de câncer, em Nova York. Para muitos deles, a grande questão não é saber quanto tempo ainda resta ou se sofrerão até morrer. Eles querem um sentido para suas vidas. Breitbart percebeu que a proximidade da morte leva algumas pessoas a concluírem que a vida não tem sentido. Mas, para outras, essa é uma excelente oportunidade para pensar e descobrir um sentido para suas existências.


Os pacientes que encontram o sentido, sempre apresentam três pontos em comum, todos absolutamente necessários:
- Eles percebem que suas vidas foram importantes para outras pessoas;
- Eles viveram guiados por um objetivo (como formar uma família ou servir a Deus);
- Eles entendem que foram coerentes.


Sentido e morte são duas faces da mesma moeda. Os problemas fundamentais da condição humana. Como o ser humano deve conduzir sua vida finita? Como encarar o fim? Com dignidade? E não com desespero? O que nos redime?


A experiência profissional de Breitbart começou em 1984, quando surgiram, em seu hospital, muitos homens jovens com Aids. "Eles me procuravam pedindo que os ajudasse a morrer. Eles me abordavam no corredor, dizendo que tinham apenas três meses de vida e não viam sentido em continuar a viver. Me pediam para matá-los".


Ele percebeu que os que pediam para morrer não eram os que tinham dor: eram os que tinham perdido o sentido da vida. Não era também uma questão de depressão. O problema era existencial.


Convidado a participar do projeto "Morte na América", Breitbart se uniu a filósofos, monges e médicos para conversar sobre a morte e o sentido da vida. "Subitamente descobri que nunca nos ensinaram a trabalhar com a busca de sentido na faculdade de medicina. E a busca pelo sentido, conversar sobre isso com o paciente terminal, é a melhor solução. É o remédio que eles mais agradecem". Breitbart percebeu que isso diminui significativamente os pensamentos suicídas - e fez com que muitos ficassem em paz, até o último momento.


O tempo entre o diagnóstico e a morte é uma chance de desenvolver o crescimento interior. Para alguns, é o momento onde encontram aquilo que procuravam obstinadamente, sem sucesso. Essas pessoas buscavam sentido no trabalho, no lazer, na agitação do dia-a-dia; em tantas coisas vazias ou de relativa importância. A iminência da morte foi a ocasião que os aproximou da verdade da vida. E nesse paradoxo, encontraram a felicidade no vestíbulo da morte.


Algumas vezes, parentes e médicos preferem esconder o diagnóstico do paciente. Terão seus motivos, circunstâncias especiais, mas chega um momento em que precisam falar disso. É o que os doentes mais agradecem. Falo por experiência. E é também uma oportunidade para que a própria família, amigos e médicos, pensem em suas vidas.


O silêncio, aqui, pode ser um sinal: talvez não tenhamos nada a dizer. Quem sabe, ainda arranhamos a vida superficialmente.

É autor do blog Correio Chegou.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

azul elíptico

Por Ana Paula Perissé


(Ao poeta dos lindos olhos azuis)


Dar-se ao olhar
e cada vez mais
e mais cansado
nocturnamente
para que o domínio do uso
do aqui e agora
transforme-se no imponderável
da liberdade insegura.


Dar-se ao olhar
azul
improvável
que escapa
da percepção passageira
azul-piscina
azul-turquesa
azul-paixão


mas qual nuance de azul?
(todas)


ou quiçá
um azul-cansado
de tanto ver-o-mundo
atravessado pelo porvir
da brisa fresca da madrugada


entrega de olhos
marejados de mundos


Dar-se ao olhar
ao Outro
livre
da-se ao olhar
sem ter
sem querer ser
muito
nu


dar-se ao Outro
em azul

domingo, 12 de abril de 2020

Despertar

Por Oswaldo Antônio Begiato




Saudades de seu beijo matinal,
do doce perfume de alecrim
me despertando as auroras,
me enchendo de carícias
a alma abandonada.


Saudades de seu beijo matinal
com jeito de afastamento
de cortinas
deixando me penetrar
um sol avivador,
me aquecendo todos os cantos
internos.


Saudades de seu beijo matinal
que não experimento
desde ontem;
desde que perdi o seu caminho.

sábado, 11 de abril de 2020

Cancioneiro

Por Meriam Lazaro




Cancioneiro galopante,
Na garupa, a viola.
Na porteira, o berrante,
Prende o grito estrada afora.


Gaiteiro, tão distante,
Sua amada foi embora.
Solitário e errante
Pensa no amor de outrora.


Vai sonhando que é amante
De uma Branca Flor d'aurora.
Lhe sorri por um instante,
Cavalgando sem demora.


Seu destino é ser andante,
Em mil léguas se descora.
Sua sina, caminhante,
É sonhar o amor de agora.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Futuro

Por Mayanna Velame




Guardou o tempo
numa caixa de madeira
e a lançou ao mar.
Não demorou muito para
perder de vista
o futuro.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Essa angústia

Por Nana Yamada




A noite vem me torturar
Me fazendo lembrar do seu rosto
Da saudade que nunca esqueci
Do amor que ainda vivo
Coração angustiado
Mente perturbada
Tudo porque nada disso passa
Mesmo o tempo passando
Mesmo envelhecendo a cada dia
Essa angústia existirá
Até eu estar em seus braços
Assim esquecendo essa tortura
Que algum dia você me fez passar...

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O solista

Por Fabio Ramos




um disco de jazz
ouvido
em


45
RPM


(ganha velocidade)


e tudo
fica


acelerado


(...)


a
mão


naquela cintura


deveria
ser
a


TUA


que
você continuou
parado
e


(cedeu)


ao
medo


de conquistar


(...)


ela
agora


(é conduzida)


por
outro


e
a
ti
RESTA
SOMENTE O SEGUINTE:


ver
de
longe


e virar o disco