segunda-feira, 8 de maio de 2017

cheiro de sal

Por Ana Paula Perissé


Imagem: Alina Louka


                                      Cheiro
                                      nos olhos
                                      alma nas vísceras de um desejo


                                      cheiro
                                      amalgamado de tempo
                                      na sílaba
                                      ou no tom de cada murmúrio
                                      in-significante
                                      cheio
                                      dentro do mar
                                      em ondas
                                      que se fazem nossas


                                      cheiro de sal
                                      suor banido
                                      de nosso percurso
                                      de um
                                      ora vai, ora volta
                                      ora chora ora regozija


                                      cheiro
                                      que jamais partirá de mim
                                      dos dois?
                                      Ti.
                                      Uno
                                      em várias nuances cheirosas
                                      cais em plenitude
                                      revolto
                                      manso
                                      livre de tanto sentir


                                      cheiro
                                      salgado em duo
                                      sentido
                                      e cindido em Uno

domingo, 7 de maio de 2017

sábado, 6 de maio de 2017

Mania de Ler: marca página

Por Meriam Lazaro




Há livros que vêm com marca página personalizado ou fita. Onde adquiro os meus, ganho um marcador da livraria ou avulsos com propaganda de livros. Tenho um especial, que uma amiga trouxe-me de Barcelona. A mesma pessoa, devolveu-me um livro emprestado com flores desidratadas entre as páginas.


Alguns leitores preferem dobrar a página ao meio ou só o cantinho superior para marcar a leitura. Outros, viram para baixo o livro aberto durante uma pausa ou anotam o número da página onde pararam. Há também os que utilizam a orelha do livro como marcador. E tudo bem, se for com o livro deles.


E você, como marca a página dos seus livros?

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Crônica juvenil

Por Mayanna Velame




Era uma menina tímida, que estava acima do peso. Usava óculos de grau e cabelos presos num rabo-de-cavalo. Não era popular na escola, tinha poucos amigos. E tampouco colecionava grandes amores. Aos treze anos escreveu seus primeiros versos, inspirados em Drummond.


A menina rechonchuda gostava e apreciava as aulas de Língua Portuguesa  não necessariamente por causa das orações coordenadas e do pronome relativo que (mas sim, pelos poemas e suas metáforas).


Quando era Matemática, a menina rechonchuda odiava. Os números não se apresentavam atrativos, logo, as notas baixas revelaram um desempenho nada satisfatório.


A vida seguia, sua adolescência também. A menina de classe média assistia à MTV e, nos momentos de rebeldia contida, ouvia repetidamente algumas canções do Oasis.


Mas foi aos dezesseis anos que a protagonista dessa crônica, pela primeira vez, se apaixonou. Com espírito ultrarromântico, escreveu versos e cartas de amor. No entanto, não houve recíproca. E a desilusão amorosa aconteceu...


Obviamente, assim como todo jovem, a menina rechonchuda também foi vítima de suas crises existencialistas: o vazio de viver, o porquê da vida e os impasses familiares. Na melancolia juvenil, encontrou nos livros uma nova forma de se entender no mundo. Uma vida recriada, paralela à mediocridade que a rodeava.


Naquele tempo, seus desafios não estavam pautados no jogo Baleia Azul. Quando a solidão a subjugava, eram as histórias, as palavras e os personagens  tediosos ou não  que faziam sua vida ganhar novos enlaces.


O tédio juvenil alojava-se nos estudos. Cansou-se deles: das fórmulas, dos ângulos, das regras gramaticais. Só não se fadigava das palavras. Elas eram suas amantes e confidentes.


Jovem, a rechonchuda prosseguiu. Assistiu à separação e reconciliação de seus pais; bem como observou os percalços matrimoniais. Das incertezas, colheu vontade para se expor no mundo. Converteu-se e depois, reverteu-se. Salmos, versículos, Deus... Sim, Deus a entenderia? Anos depois, faculdade, conhecimento e novas amizades. Uma inédita filosofia de se encontrar. Estaria a menina rechonchuda sempre perdida?


Porém, de certo modo, ela ainda há de se encontrar. Nem que seja ao dobrar uma esquina, ou nas entrelinhas desta crônica juvenil.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Ah!

Por Nana Yamada




Ah!
Quem me dera poder viver tudo o que escrevo
Ah!
Quem me dera se essas palavras fossem verdades
Ah!
Quem me dera se eu pudesse ter esse amor que desconheço.


Ah!
Quanta coisa eu vivi mesmo sem planejar
Ah!
Quanta injustiça existe nesse mundo!
Ah!
Tanta desigualdade até quando?


Ah!
Por que viemos para partir?
Ah!
Quem poderá realmente explicar a vida?
Ah!
Quanta coisa que pensamos.


Ah!
Se eu pudesse guardar tudo e todos numa caixinha.
Ah!
Com certeza viveríamos mais felizes por mais tempo.
Ah!
Como é bom viver quando se sabe viver!


Ah!
Quantos mistérios tentamos desvendar
Ah!
Grandes poetas que não cansam de poetizar
Ah!


Mais quanta coisa a se falar…

quarta-feira, 3 de maio de 2017

É remorso?

Por Fabio Ramos




sua
mãe
evapora


no
abraço
que
você não


no "eu te amo"
que você
cala


E AGORA


com
a
ausência
dela


você chora


(...)


sinto
dizer mas


você
é
do tipo


que
valoriza
quando perde

terça-feira, 2 de maio de 2017

Sorte (com a crise econômica)

Por Denise Fernandes




A sorte começa onde termina o azar. Talvez a sorte seja questão de opinião. Como levar um tombo feio na rua, ralar os joelhos, puro azar, e depois ter o acolhimento das pessoas, que revela-se uma sorte.

Minha mãe sempre me disse que pisar em bosta de cachorro, de vaca, ou de cavalo, dá sorte, traz dinheiro. Também coceira na palma da mão, minha mãe sempre disse que é dinheiro. É preciso, nesse caso, até fechar a palma da mão, para que o dinheiro não vá embora.

Com a crise econômica, ando pisando de propósito nos cocôs de cachorro que encontro nas calçadas. Será que pisando de propósito também dá sorte? Quero muito pagar minhas contas, viver uma vida próspera. Penso no poeta Paulo Leminski: se "distraídos, venceremos", também "endividados, venceremos"! A gente vai levando...

Afinal, estamos aqui para a felicidade; ou não?

Também o alho, uma senhora me ensinou: você não pode deixar os alhos juntinhos, presos, você fica com a vida estagnada. Passei anos com a vida meio parada sem saber dessa magia.

Folha de arruda já coloquei até dentro da calcinha. Arruda é sempre bom. Nunca tive certeza de quem tem ou teve inveja de mim mas, com avidez, vou atrás da arruda.

Folha de louro, além de temperar o feijão, o cozido e deixar o arroz cheiroso, dentro da carteira traz sorte, prosperidade. A sorte pode ser enorme, ou pequena. Mas, mesmo sendo pequena, parece grande.

Sempre pensei que era azar esperar muito tempo o ônibus no ponto. Ou pegar um ônibus muito cheio. Mas agora que estou mais velha, não considero a espera no ponto, ou o ônibus cheio, um azar. A vida me ensinou a temer dificuldades maiores.

Antes um rato que morria no quintal, uma pomba atropelada na rua, me fazia temer a morte, o destino. Agora eu rezo, e me acalmo um pouco.

Será o Tempo um grande azar, ou é o Tempo a própria sorte?

Tem momentos, como o de agora, que acho que tudo foi sorte em minha Vida. Por isso, é tão bom escrever. As perdas, os momentos em que chorei, em que me machuquei, tudo foi uma imensa Sorte.

Sorte é estar vivo!

É pensar que se está vivo... Sorte é amar, e não se sentir dono da pessoa amada.

A sorte é tão livre, muito mais livre que os pássaros e besouros. A sorte é invisível, sagrada, aérea...

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Do tempo, do Sorrir, de Meu Pai

Por Ana Paula Perissé




                     eu salvaria o fogo do meu silêncio
                     constante
                     do meu desejo inquieto
                     que solicita a diferença
                     para poder ser aquilo que não sei
                     ainda.
                     Somente quando o homem de barro
                     desperta
                     a bailarina se atreve a dançar
                     seus passos mais belos.
                     ( a dança da memória)
                     À beira de completar anos
                     descobri o sorriso do meu pai
                     por força de um acaso
                     (só quando nos temos mortos
                     é que o sorriso nos chega desta forma
                     talvez, verdadeira...)
                     O homem que já se foi
                     é aquele que me revela o efêmero do meu sofrimento
                     e a distância do não poder tocar
                     é que me apresenta nuances novas
                     de mim
                     através de um sorriso instantâneo
                     impresso em imagem despretensiosa
                     uma forma de sorrir que adquiro
                     vivendo, aniversariando,
                     e que me dou conta
                     só agora
                     olhando para teu sorriso distante
                     perdido no tempo de um papel fotográfico
                     envelhecido
                     como nós....


                     sem ti.


                     Ele não estava lá
                     nem eu
                     i'm not there, Bob Dylan
                     benevolência cedida através de uma certa dor.
                     Minha dor de não estar
                     de viver estando
                     sendo tantas para tantos
                     todavia sempre buscando a unidade perdida.
                     A diferença do sorriso do meu pai
                     àquela época
                     está na minha face
                     hoje
                     à busca pela poesia que sobrevoa
                     sôfrega
                     nos vazios do tempo nu,
                     tempo sincero e exposto
                     às deformações das areias que vagueiam
                     nos desertos de nós.
                     Faço anos, pai.
                     Mal sei o que é o tempo
                     todavia, meu sorriso
                     vai se transformando em ampulhetas que me dizem
                     mais de ti
                     de mim
                     de nossa actual relação.


                     A mulher deixa seu véu e comemora
                     sozinha
                     novos passos
                     nesta terra árida


                     A quem pertence aquilo que me vem????