domingo, 15 de novembro de 2015

sábado, 14 de novembro de 2015

Canção de inverno

Por Meriam Lazaro




Acorda manhã,
Que é noite lá fora!
Dá corda ao relógio
Pra voltar no tempo
E aos sonhos de outrora.
Desperta a menina
Na velha senhora,
Que os anos não são nada...
É do dia o sentido
No vivo retrato de ontem e agora.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Português amoroso XXIII

Por Mayanna Velame




De repente, você percebe
que faltam algumas conjunções
para organizar as superfícies textuais
de sua vida...

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Sonho pela metade

Por Fabio Ramos
 

 
 
telefone a
tocar
de
madrugada


(quem será?)


que notícias
traz?


(alguém morreu?)


um
parente


(no exterior)


ignora o
fuso
horário?


ou talvez
seja
ela
querendo
falar


(...)


enquanto a mensagem
não termina


tudo é
interrogação
e
expectativa

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

dance-me

Por Ana Paula Perissé


 
  
                                   dance-me
                                   até o final do mundo
                                   pois desconheço-me
                                   tanto de mim
                                   que me entrego
                                   inteira
                                   ao aroma findo
                                   de verbena
                                   em ritmo fatal


                                   não mais
                                   desejo de viver
                                   intensamente


                                   aos poucos
                                   bailado sem vozes
                                   ao som de peles
                                   raspando
                                   em cútis vis


                                   (aos escombros
                                   ah! mas sobram muitos de nós!)

domingo, 8 de novembro de 2015

Tirocínio

Por Oswaldo Antônio Begiato




Aprendi com
as coisas novas,
a compreender
as pessoas velhas.
E aprendi com
as pessoas velhas
a compreender
as coisas novas.


Aprendi com
os homens céticos,
a ter uma fé feroz.
E aprendi com
o fanatismo desmedido
que a descrença
nasce nas crianças
ao lhes ser negadas,
estupidamente, as fantasias
quando as ilusões
lhes são mais necessárias.


Aprendi com
as privações me impostas,
em nome de uma felicidade
assustadora,
a somente ter direito
à felicidade
o dia em que,
com meus olhos
encharcados,
minhas mágoas
forem maiores
que meus sonhos.


Aprendi com
minhas quedas
a suportar a dor
física de meu corpo
porque as feridas
perspécticas d’alma
doem mais,
e sangram
um sangue perene
que não as deixa
estancarem.


Aprendi com a vida
que a vida é breve;
que não há nela
sentido algum
além da brevidade.

sábado, 7 de novembro de 2015

O Tema e a Musa

Por Meriam Lazaro
 

Imagem: Meriam Lazaro

 
Tema é expressão de vários usos. Há o tema para casa, que o aluno deverá desenvolver em casa para apresentar na escola; o mesmo que dever de casa. O tema musical do par romântico da novela ou filme. Neste caso, o mais famoso talvez seja o tema de Lara do filme Doutor Jivago, a julgar pelo número de repetições que aparece no sistema de busca da internet. Há ainda a utilização como verbo, como na expressão: não tema o mal! Por fim, significando o assunto do que existe ou se deve desenvolver como filme, exposição de arte, livro, redação.
 
 
Por falar em redação, grande parte da dor de cabeça dos vestibulandos é justamente o tema que será exigido na prova de redação, que lhes dará acesso para o mundo universitário. É certo que escrever é ato derivado da leitura e do conhecimento geral, mas não basta juntar palavras, formar ideias e emaranhá-las para atender o número mínimo de linhas. Fora dos concursos, onde somos surpreendidos com o assunto, normalmente se sabe com antecedência qual o tema a ser desenvolvido. Ainda que desconhecido, teremos algum tempo para pesquisar.
 
 
Quando conhecido, ainda que não seja de nosso domínio, algumas ideias vão surgindo a respeito do tema proposto. Para escrever poemas, uma vez me foi sugerido que anotasse cinquenta palavras relacionadas à infância e adolescência e que eu coletasse aquelas mais repetidas durante a fala cotidiana. Não me lembro de ter feito isto, mas vim a observar na própria escrita a maior repetição de algumas palavras. Nos exercícios com tema prévio, algumas ideias podem surgir quase completas como uma fotografia, outras vêm como um negativo onde tentamos advinhar de quem é o vulto. Pode ocorrer também que a falta de ideia reine e se mantenha branca como uma rainha no deserto nevado.
 
 
Congelados diante da tela com prazo prestes a se esgotar apelamos, normalmente, por uma das seguintes alternativas:
a) ver como nos arranjamos com a pesquisa na internet;
b) baixar a cabeça com a mão apoiando a testa a espera de um milagre;
c) sair escrevendo tudo que vier à mente para depois cortar uma coisa daqui, outra dali e ao final ficar com um punhado de palavras;
d) fazer de conta que não é conosco e ficar de fora do tema chato;
e) misturar todas as alternativas em um liquidificador, atirar para cima. Aquela que primeiro cair será a escolhida.
 
 
Neste momento não estamos mais nas mãos do tema, mas nas asas da musa, a tal inspiração! Então o que falar quando o assunto para a escrita é o próprio tema? Recorrendo ao Dr. Google se encontra definição de "mano" até tese universitária a respeito, que não vem ao caso aqui reproduzir. Lembro-me de que, em entrevista, Walter Salles chamou atenção para o tema do filme Central do Brasil. Todo filme, livro, história tem um tema, que no caso do filme do diretor brasileiro era a amizade. De minha parte, quanto mais simples a história, mais tocante. Reconheço que há recursos visuais ou estilísticos que muito enriquecem a obra, mas invejo quem consegue se expressar com a requintada arte da simplicidade.
 
 
Afinal o que seria a inspiração da escritura? Desprezando as lições do Dr. Google, fico com o significado fisiológico da palavra. Inspirar: captar pelo sistema respiratório o ar do exterior para dentro dos pulmões da gente, daí espalhando por todo o corpo até devolver novamente ao exterior pela expiração. Assim relacionados o Tema e a Inspiração, esta nada mais seria que o objeto da vida do qual extraímos uma direção. Afinal, sendo nós por excelência frutos do meio buscamos sempre inspiração na vida, mesmo quando se fala de morte, que aqui representa o ponto final.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O personagem

Por Mayanna Velame




Noite fria, muito fria. Acendo um cigarro para aquecer a alma. Sinto-me consumido pela fumaça que sai da boca.


Confesso que não tenho medo de morrer, e nem de encontrar no meu caminho Deus ou o diabo. Não quero nenhum deles; embora o paraíso pareça bem mais interessante que o inferno. Na verdade, sou apenas um personagem afastado de seu criador. Ele já não sabe o que fazer comigo, em qual conto devo estar. Lembro-me que o autor até tentou me transformar no protagonista de um romance chamado... Agora não lembro o título da história.


Também já não me importo, pois tudo que sei é que realmente estou caminhando pelas ruas escuras. Sem cachorros, sem polícia, sem putas, sem pedras para chutar com a ponta do sapato.


Continuo a caminhada. Sinto os músculos fadigados. Tento repousar meu corpo num banco de praça. Estou sozinho, literalmente sozinho.


O cigarro no canto da boca. Trago duas vezes, e náuseas visitam meu organismo. Sou um personagem fracassado. Meu criador não me quer. Permanecerei perdido por toda a eternidade – como um náufrago numa ilha deserta.


Tudo que enxergo é apenas escuridão. Lentamente, ela vai sendo extinta por uma claridade amarela, que se aproxima com ímpeto de meu corpo. Confuso, levanto-me, esfrego os olhos com os dedos. Não acredito naquilo que vejo. Um gato de feição arrogante (envolvido numa luz agora esverdeada) range os dentes e pula contra meu peito.


– Quem é você? – pergunto, estupefato.


– Sou Leôncio. O personagem mais querido deste autor. Tenho um recado para você.


– Diga logo!


– Você não vai ser personagem algum. Ficarás vagando de página em página, e não encontrarás qualquer história feita exclusivamente para você.


– Não! – grito, atordoado, arremessando o gato no ar.


Em seguida, uma dor me faz desmaiar. Subitamente, encontro-me em um túnel. Pareço viajar no tempo. Meu corpo sente um peso estranho nos ossos. Não entendo o que está acontecendo. Será que morrerei? Não, não me deixe perecer assim! Ainda quero tragar o último cigarro e preciso participar de um derradeiro conto ou romance.


Então, vejo a turba. Meu traje é estranho: um terno e um chapéu. Pretos. Não sei exatamente onde estou. Ando devagar, peço licença para as pessoas que cruzo no caminho. Porém, elas parecem não me entender. Falam em outra língua. Acho que é castelhano. Escuto o som de sirenes. Guardas de trânsito afastam os curiosos, que rodeiam um corpo. Sim, parece que um homem foi atropelado. Ele agoniza no chão. Seus olhos opacos tentam iluminar a minha solitude. Sorrio para ele. É tarde demais, está morrendo. Choro, tentando não acreditar na morte deste cidadão.


Mas sei que ele está bem melhor que eu. Porque vejo que estou desamparado. E totalmente contrito nas ruas de Buenos Aires.