segunda-feira, 8 de junho de 2015

meus olhos

Por Ana Paula Perissé




              em teus olhos
              ficam
              um sumptuoso mistério
              d´1 amor deAlém



              ( nos meus)
              além vida
              há núpcias de pele em almas
              inquietas pelo desejo
              de horizontes



                                                                             (os meus tesouros
                                                                             todos, mas poucos
                                                                             protegidos em tuas
                                                                                            pupilas)



              e em teus olhos
              na ausencia desta noche
              acompanham-me
              para além dos sentidos¨



              ¨estão-me
              todos
              doces... endoidados
              aqui
              só em mim



              e os meus a te rondar
              em sonhos de devir.



              só eu e o meu amor
              de olhar.



              (vista-se)

domingo, 7 de junho de 2015

sábado, 6 de junho de 2015

Minha história

Por Meriam Lazaro




Minha história é esse nome que hoje carrego comigo. Embora sem entrar num bar para virar a mesa e entornar os copos (como o personagem Jesus, da música do Chico), já berrei e briguei por ele. Tudo por causa de uma letrinha, quiçá um erro de registro, como constatei ao pedir a segunda via da certidão de nascimento há alguns anos. O documento veio com outra letrinha. E lá fui eu entrar com uma nova retificação de nome.


Ainda não era formada. Mas o juiz, não atentando para isso, determinou a alteração. O escrivão, na hora de lavrar a sentença, de uma forma muito educada e divertida, informou: o número da OAB que ali constava era de estagiária; e quem assinara a petição era “a própria”. Na verdade, a fúria era tamanha – e a pretensão também – que esqueci de pedir a uma amiga, já formada, que assinasse o documento comigo. Na época, isto foi motivo de muito riso. Era a certeza de que só iria me formar para corrigir este feito. Parece que, em parte, meus amigos tinham razão.


Na escola, até os colegas esperavam a hora da primeira chamada. O professor chamava do “A” ao “L”. Quando chegava no “M”, parava, corrigia o “erro” na caderneta, e me chamava Mírian (para o deleite de todos). Identificando-me ao telefone vida afora, volta e meia ouço a pergunta: “O teu nome é mesmo assim?”. Tenho vontade de responder: “Não. É que eu gosto de complicar, e depois passar três minutos explicando”.


Fora o tempo que eu não falava, e nem brigava por isto, são quase quarenta anos repetindo o nome, e ouvindo vários codinomes: Meg, Meri, Mig, Mirica, Marion, Muriel, Miiii, Mercedes e Vanessa.... Como a paciência – e o bom humor – faz muito bem para a pele, hoje atendo por qualquer coisa. É só escutar um desses nomes, que o pavilhão auditivo traduz três vezes, como o canto do galo (“qual-quer-coooisa!!”), ao que respondo pronta e operante.


Como se isso não bastasse, novamente me vi às voltas com o tal nome. Um nome simples, comum até, se considerarmos que apenas uma letrinha foi mudada, originária do hebraico, Maria, cujo significado é senhora. Fui tirar a segunda via da carteira de trabalho e apresentei a carteira de identidade, novinha em folha. Não é que a atendente implicou com o nome “errado” – e que eu estava muito velha? Que desaforo! Só tinha 18 anos na época.


E se, como Drummond no Poema de Sete Faces, eu me chamasse Raimunda!?... Não haveria rima, e nem seria a solução.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Relíquia

Por Mayanna Velame




Estrelas configuram
o céu...
Aviões exibem
suas forças e luzes.

 
Na noite melancólica,
o silêncio é melodia.
Amor é relíquia...
E solidão, descontentamento.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Diferencial

Por Amilcar Neves*


Curitiba, PR Donizete é vendedor de pneus. Vendedor de pneus, de palhetas para limpador de para-brisas e de acessórios automotivos variados. Coisas que nem se imagina existir. Trabalha numa grande empresa nacional de autopeças, com ênfase em pneus. Conversa com os clientes na loja do Portão, bairro da capital paranaense. De ascendência italiana, Donizete honra as origens: conversa um bocado enquanto vai vendendo. E não é só conversa fiada, não. Aliás, nem chega a entrar muito em conversa fiada. Nada de falar do tempo ou das agruras do trânsito. Nem mesmo de política, assunto arriscado; de religião, assunto delicado; ou de futebol, assunto fácil se o time for comum. Nem de mulher, pois a possibilidade de resvalar para a deselegância é razoável. E nunca convém ser deselegante com um cliente. Nem mesmo para tentar ser engraçado. Ou simpático. O tiro sempre pode sair pela culatra. De mulher fala-se com os amigos e conhecidos, gente da casa. Ou com a mulher quando, na intimidade, fala-se dela própria.

Donizete é curioso, portador da saudável curiosidade que transpira interesse sincero por aprender coisas, por saber de usos e costumes. Na loja, onde é funcionário, gerente ou dono da franquia, vá-se lá saber, ele também faz cadastros. Cadastros importam em desnudar um pouquinho a vida dos clientes. Isso lhe dá um monte de assunto. Ao receber um engenheiro, envolve-se com as atividades da fábrica e seus processos de controle e qualidade. Com autores de livros de ficção (contistas, romancistas, esse pessoal, até cronistas), pergunta como é ser escritor num país como o Brasil, tido como de parcas leituras. Descarta da categoria os redatores dos livros de cunho profissional, das obras de autoajuda e dos textos místicos. Pergunta, enfim, sem formular objetivamente a questão, como é que vive um sujeito que desenvolve um produto pelo qual escassas pessoas estão interessadas.

Piedoso, Donizete conta que tem duas filhas. A de 14 anos vive grudada nos livros. Recusa outros programas em favor do prazer maior de ler uma boa obra literária. A irmã, com 16, filha do mesmo pai e da mesma mãe, fruto da mesma educação e do mesmo lar, não passa nem perto de um livro. Nem história em quadrinhos ela lê.

A menor é excelente aluna em todas as matérias. A outra sofre dificuldades permanentes na escola. A diferença são os livros, não tenha dúvida.

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 12.08.2009

quarta-feira, 3 de junho de 2015

É com você

Por Fabio Ramos
 
 


doce
ou salgado?
 

preto
ou
branco?
 

jazz
ou blues?
 

sul
ou norte?
 

cospe
ou
engole?
 

sim
ou não?
 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Recado

Por Denise Fernandes




cantiga de ninar
 
cachorrinhos azuis
 
enquanto no sítio de sempre
 
você a cobra preta e amarela
 
é a família
 
a culpada
 
por tudo
 
enquanto o poder
 
apodrece
 
não quero nada
 
já disse que não quero nada
 
e aparece o Fernando Pessoa
 
vem o Plínio Marcos
 
querendo falar com a filha
 
já disse que não sou médium
 
não sou Nada
 
enquanto a Ana Cristina César
 
quer ser psicografada
 
pelos gatos
 
eu disse que não quero nada
 
e me vem a tabacaria
 
e Álvaro de Campos
 
estou tão só
 
e nem estou em Lisboa
 
revisited por mim
 
trinta e um de maio
 
de dois mil e quinze
 
em São Paulo
 
conectada em você e na cabala
 
virgem esculpida
 
em pedra
 
horóscopo
 
eu vou ler de trás
 
para frente
 
eu vou ganhar
 
nada
 
não vou guardar
 
e quando me for
 
serei o nada
 
dentro de outro nada
 
serei um livro
 
perdido
 
no mar
 
e enquanto as palavras se desfazem
 
virão os cânticos
 
as sereias os peixes
 
pequenos caranguejos
 
serei o mar.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

demasia

Por Ana Paula Perissé


Imagem: Nimit Malavia



                                          sem vertigem
                                          sem abismo
                                          sem dúvida



                                          ( a vida ainda pulsa?)


                                          há 1´atrevimento atávico
                                          impulso em chamas
                                          que não apazigua paixões



                                          consome demais
                                          deliciosos
                                          a todos
                                          em metamorfose
                                          a mão que se move
                                          para o cerne
                                          de um céu estrelado



                                          há que se viver
                                          em lançamentos



                                          (puros desvarios
                                          alma que sobe
                                          à escuridão)



                                          o amor volta
                                          à minha origem
                                          e nos faz destino



                                          nosso.