quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Indagações

Por Fabio Ramos
 
 

 
daltônico
dirige
?
 

a
rosa
é cor de
rosa
?
 

por que
o céu
é
azul
?
 

por que
as
nuvens
encobrem
o sol
?
 

galinha
pode voar
?
 

cabeça
de
bacalhau
existe
?
 

como
será
no outro
lado ?
 

o ovo
e a
galinha
de
novo
?
 

(...)
 

QUEIJO

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Mistério

Por Denise Fernandes




Quanto mais invento
 
mais desvendo os mistérios do meu ser.
 
essa dentadura
 
essa solidão
 
o sangue quente dentro do seu caminho,
 
até espinhos,
 
reinventados.
 
Observo a matéria profunda e ela se move.
 
a avenida comprida,
 
o porquê da história;
 
a morbidez, amor,
 
pode ser um rápido aviso
 
(esse momento foi muito árduo
 
para ficar em branco);
 
o mistério era essa sufocante reedição de mim.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

ave!

Por Ana Paula Perissé
 
 


                                     a um dédalo de mim é córrego
                                     a um fogo de nós está 1´pássaro
                                     sonho em fazer-me céu
                                     sem horizonte:
                                     róseo como a aurora lunar
                                     (atrás de cheiro de mato)



                                     a um cântico de ti
                                     há 1`viajante
                                     cuja mala roubei para estrelas



                                     ( perde-se muito
                                     ao escrever
                                     diante do nada)



                                     Ave!


                                     estrelecer com fuga de lua.
 

domingo, 14 de dezembro de 2014

Partida

Por Oswaldo Antonio Begiato
 
 


Vida, sem alfombra;
As folhas, o fruto, a árvore...
Sem ombro, sem sombra.
 

sábado, 13 de dezembro de 2014

Abrindo falência

Por Meriam Lazaro
 
 


Há palavras que não gostaríamos nem de ouvir, que dirá testemunhar o verbo em ação! Assim é com: fracasso, perda, falência. Mas nem por isto seus fantasmas deixam de apontar os dedos de ossos finos em direção a nós. Quem vende histórias de fracasso? Imagine, numa prateleira de autoajuda o livro: A arte de ser um bom fracassado. Ou o luminoso na esquina: Boteco do Fracasso (este iria “bombar”, pois pinguço gosta de novidade). Ainda, sermos atendidos 15 minutos após a discagem e ao invés do irritante trio gerúndio: vou estar lhe transferindo..., ouvir da mocinha da operadora de comunicação: vou estar lhe fazendo perder um tempinho. Fracassar, perder ou falir nada mais é que parte da experiência da tentativa. Nada mais é que errar. Somos humanos, mas temos um grave problema de rejeição com o erro. No âmbito político, nem se fala! Ninguém nunca erra. Quando muito, não sabiam... Claro que há quem se profissionalize na coisa. Tem mais! A falência é legal. Da pessoa natural, pela falência de órgãos passamos desta para outra que, a não ser que Roque Santeiro venha nos dizer, não saberemos se é para melhor. De minha parte, sou tolerante à ignorância e não pretendo saber tão cedo. Nem sempre legal significa bacana. Nos currículos atuais há programa de curso para ensinar a moçada a abrir e gerir uma pequena empresa, de modo a pelo menos obter o retorno do dinheiro empregado no final de dois ou três anos. Ainda que o empreendedor não saia com lucro, se funcionar o projeto ensinado na faculdade, levará para outro ponto a marca ou nome da empresa e a experiência. Pois bem, sabe a Lei nº 11.101, de 2005, Lei de Falências? Não tem nada a ver com o texto, mas bem que eu poderia encher de osso por aqui só para não escolherem mais temas como este.
 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Eternas ilusões

Por Mayanna Velame
 
 

 
Quando éramos crianças, as festas natalinas tinham um gosto especial. Elas iam muito além do sabor de peru e de qualquer outra iguaria típica do período.
 
 
Eram interessantes as expectativas que carregávamos. Vestíamos a melhor roupa, fazíamos o melhor penteado, chamávamos os vizinhos e nos tornávamos crianças obedientes. Estudávamos com afinco, com o intuito de sermos logo aprovados no colégio. Queríamos ficar livres das recuperações e das pendências escolares.
 
 
Naquela época amistosa, ao soar do relógio (à meia-noite), ceávamos. Em seguida, dormíamos embriagados pelos sonhos. Na ansiedade de encontrar nosso presente de Natal ao lado da cama.
 
 
Tempos depois, crescemos e nos transformamos em adultos – muitas das vezes, complexados e frustrados. A esperança de criança diluiu. Descobrimos, então, que Papai Noel não existe. Ele é apenas mais uma criação do capitalismo. “As cobranças da vida” até que nos amadurecem. As infantilidades se evadem e seguimos como seres racionais.
 
 
Antes, nossas preocupações resumiam-se em saber qual brinquedo pedir para o bom velhinho. Mas, agora, estamos limitados ao tempo, subordinados ao dinheiro e condicionados à nossa rotina.
 
 
Não existe Papai Noel mas, de certo modo, quando perdemos a ilusão de vida, deixamos para trás nossos sonhos, desejos e perseveranças.
 
 
Papai Noel não fabrica brinquedos durante o ano todo; para depois visitar cada casa desse planeta. No entanto, podemos construir nossa vida (e não fabricar sonhos) com uma pitadinha a mais de fantasia. Porque, caso contrário, nossa existência estará de saco cheio de viver.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Paisagens partidas

Por Amilcar Neves*

 

Tinha a cidade aos pés desde a noite anterior, uma cidade sobre rodas motorizadas (não se via uma bicicleta sequer, somente rodas ou os pés da gente que anda a pé). Ao fundo, barcos: lanchas, veleiros e um iate fundeados no Iate Clube Veleiros da Ilha, uma ou outra lancha pequena passando preguiçosa a longos intervalos no mar cinzento, reflexo de um céu forrado de nuvens escuras e varrido por um nordeste que mexia o ar mais do que esquentava, um clima ótimo para deixar toda arrepiada na beira da praia uma mulher de biquíni.


Apesar do ângulo aberto contado a partir do morro, nas encostas do Menino Deus, não via tudo o que havia: o prédio ao lado obstruía-lhe a visão das pontes e suas circunvizinhanças. Espiar a Hercílio Luz, então, só na imaginação: como o fazem há tempos aqueles que um dia a conheceram como ponte que suporta o trânsito cotidiano da cidade e como o farão, daqui a pouco, aqueles que chegaram a conhecê-la como monumento em acelerada decrepitude por obra da omissão de vários governantes, cujos nomes deverão ser gravados a fogo num monumento que se erguerá no lugar da estrutura metálica pênsil, e por desobra de muito dinheiro que, endereçado à HL, nunca chegou ao destino, como se a ponte já não houvesse mais e, portanto, nada nem ninguém pudesse chegar ao destino, sequer o dinheiro destinado a salvá-la (quando, antes, bastava mantê-la).


Diz o Houaiss que, em Estatística, dá-se à "falta de atividade, de trabalho; inércia, inatividade" o nome de desobra. Estatisticamente a Ponte cairá um dia, e nossos governos têm trabalhado arduamente para antecipar o quanto possam tal data fatal. Esquecem que, quando a queda da Ponte acontecer, ela deixará de lhes ser um valioso pretexto para, digamos assim, canalizar verbas e recursos outros.


À esquerda, o que resta de Mata Atlântica ao redor da subida do Senhor dos Passos bloqueia a visão das bocas Oeste do túnel duplo que liga a Prainha ao Saco dos Limões, desprezando o José Mendes à sua direita, para quem vai do Centro para o Sul da Ilha, para satisfação e tranquilidade do Júlio de Queiroz, que mora de frente para o mar sem o barulho contínuo e irritante de cidade em seu portão. Alguém teve a inspiração de dar ao caminho pelas entranhas do Mocotó o nome de Antonieta de Barros, uma mulher bem negra que foi professora respeitadíssima (quando se respeitavam os professores, para não dizer mais) por seu trabalho no magistério durante a primeira metade do século passado, mas o corporativismo da Assembleia Legislativa resolveu puxar um pouco a si a homenagem, batizando o túnel como Deputada Antonieta de Barros - ainda que ela tenha sido eleita a primeira deputada de Santa Catarina, sua obra mais significativa foi a de professora.


Restaria o mar à frente, com a Baía Sul toda desdobrada aos olhos - desde que o Fórum e o Tribunal de Justiça, de alturas excessivas, não fragmentassem de novo a paisagem, ladeados por construções mais humildes que afastam o mar de quem está em terra, a pé ou mesmo motorizado: uma passarela do samba, de costas para o mar, que não para de crescer cada vez mais feia, tendo já atropelado o local em que um papa rezou missa, e uma imensa caixa de sapatos toda fechada, de tampa verde, a que se dá o nome de centro de convenções ou algo similar. Na borda do mar desenhada já por aterros, construções desnecessárias para o local bloqueiam a simples visão do mar; em paralelo a elas, pistas de alta velocidade bloqueiam o mero acesso ao mar.

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 23.11.11

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Ausência

Por Fabio Ramos
 
 
Imagem: Michelle Wilson


faca
sem corte
 

rua
sem saída
 

viagem
sem
destino
 

cheque sem
fundo
 

penetra
sem
convite
 

carro
sem freio
 

árvore sem raiz
 

rebanho
sem
pasto
 

homem
sem
disposição
 

uma
vida
sem propósito