segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

a-verbal

Por Ana Paula Perissé
 
 


                                           foi como se uma flor
                                           houvesse me entrado
                                           com todo seu espinho
                                           a deslizar-me
                                           o corpo arredio
                                           de tantas névoas
                                           que já se foram



                                           o inominável
                                           veste-se de vísceras
                                           à sombra
                                           de qualquer pensamento



                                           fuga de palavras
                                           fuga de gemidos



                                           o gutural inexpressivo
                                           de ser
                                           1´vida com sentidos.

 

domingo, 7 de dezembro de 2014

Descuido

Por Oswaldo Antonio Begiato
 
 
Imagem: Kadir Yilmaz

 
Só no canto a aranha;
A teia armadilha e cúmplice.
Mosca perde o voo.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Pingo nos “is”

Por Meriam Lazaro
 
 


Amanheci com vontade de por o pingo no “i” da internet. Na verdade, não um pingo, mas um ponto moderador ou final por puro deboche. O bom é que a internet se presta para isso, pois ali nos abrigamos em entretenimento e também chutamos o pau-da-barraca, à semelhança dos bichos que depois de comer viram o tacho. Pessoas que mais postam besteira são as que mais reclamam de quem posta besteira. Outros, em eterno monólogo, reclamam pelo tempo perdido (ou encontrado) na rede mundial de computadores. Há quem esteja quase frequentando o CLIC - Centro para Loucos Internautas Curtidores. Curta essa: o centro é virtual e funciona 24 horas por dia mediante único “clic”. Desgosta-me profundamente os convites impositivos para compartilhamento no Facebook. À semelhança das antigas correntes do anjo do dinheiro ou do sexo, cuja consequência para quem não infestasse a caixa postal de “i” pessoas da sua lista de endereços era morrer duro (ou mole), agora o sujeito não utiliza mais “estou apenas repassando”, mas seu apelo deixa o amigo numa sinuca-de-bico. “Se você ama carrapato, compartilhe esta coceira”. E quem é que não ama carrapato!? Alguém me dirá que por um ponto final na internet me fará perder todos os amigos de vez. Pelo contrário, só assim deixarei de ver os “is” de idiotice e manterei os amigos no coração, enquanto faço uma boa caminhada ou me misturo à excêntrica lista dos adoráveis leitores-que-não-querem-ser-escritores.
 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Babiki

Por Mayanna Velame
 
 
 
 
A multidão está me esperando. Sei que todos os assentos do principal teatro da cidade foram ocupados. Do camarim, escuto vozes longínquas e abafadas clamando pelo meu nome: “Babiki, Babiki, Babiki”. Sim, Babiki sou eu! O mágico mais famoso e consagrado de todos os tempos. Meu prestígio está disseminado aonde quer que eu vá. Até Nobert, meu coelho companheiro, sente-se enobrecido. A glória e o sucesso contaminam seu coração. Confesso que nem me importo com isso, até porque ganho a vida iludindo as pessoas – mesmo sabendo que a vida, em si, já é uma ilusão.


Mas, hoje, preciso me superar. Estou farto de realizar meus truques e apresentar os mesmos espetáculos. Quero (e preciso) de algo inesquecível. Afinal, sou Babiki, o mágico...


Nobert me oferece um gole de conhaque. Aceito a bebida. Logo sinto um fervor no estômago. Os cabelos negros da nuca permanecem arrepiados e minha fronte, pouco a pouco, torna-se úmida. Com as pupilas dilatadas, vejo, no espelho, a barba cerrada que reluz. Nos minutos seguintes, visto as luvas. Fico admirado como elas se encaixam perfeitamente em minhas mãos. A varinha mágica voa ao meu encontro. Eu apanho-a. Contudo, Nobert me diz que não preciso dela. O poder está em mim. E, realmente, sinto-me muito mais poderoso do que antes...


“Babiki, Babiki, Babiki”.


O espetáculo inicia. Meus números tradicionais são exibidos. Começo a ser visitado pelo tédio. Preciso fazer algo diferente, algo inesquecível. Até que, de repente, noto um casal na primeira fileira. A moça é linda. Em uma das mãos, segura um saquinho de pipocas. Seus olhos são verdes, como esmeraldas, e os cabelos são como a escuridão da noite. Ela sorri para mim. Permaneço encantado. Vejo mágica no seu olhar. Desconcentro-me. Nobert morde a ponta do meu dedo anelar esquerdo. Num instante, sangro, mas penso que o verdadeiro espetáculo ainda vai começar.


“Babiki, Babiki, Babiki”.


Chamo Nobert e o coloco sobre uma pequena mesa. Com um pano preto, que retiro do bolso interno do paletó, eu cubro seu corpo. Elevo minhas mãos, exibindo-as vazias para o público. Segundos depois, exaltadamente, grito: “ALABUKI, ALABUAKI...”. Nobert, o coelho imprestável, se transforma numa serpente com asas – que voa pelos quatro cantos do teatro. A criatura vai embora, fugindo pela porta central.


Inspiro fundo. Nobert já não precisa de mim. O show continua. Excitado, fito minha musa. A seu lado, todavia, um rapaz alto e sério fuma um charuto. Aproximo-me deles. Deslizo os dedos entre as mechas sedosas da minha amada. Tímida, ela recua a cabeça (na tentativa de me evitar). Porém, eu não desisto... Tomo suas mãos. O saquinho de pipocas ainda pela metade. Mais uma vez, grito: “ALABUKI, ALABUAKI”. Numa fração de segundos, as pipocas do saquinho foram substituídas por diamantes. A multidão delira... Um escarcéu se apodera do teatro. Todos querem ficar ricos.


Aproveito o ensejo e agarro a musa. Sinto seu coração pulsar ligeiro. Não hesito: no meio dos gritos, e dos passos desnorteados das pessoas, registro minha façanha. Beijo ardentemente os lábios da donzela. Incrível como ela se entrega. Sua carne enfraquece. Parece envolvida com o toque avassalador de nossas línguas. De repente, seu homem reage. Com fúria semelhante à de um touro bravo, ele nos separa – e, sem forças, tenta me nocautear. Eu o empurro de volta à cadeira. Pisando em seus sapatos, muito bem lustrados, puxo de sua boca o charuto cubano e grito:


“ALABUKI, ALABUAKI”.


O charuto converte-se num punhal de lâmina afiada. Lanço a arma mortal em direção à garganta de meu inimigo. Esguichos de sangue por todos os lados. Enquanto ele agoniza, nos últimos minutos de vida, eu, Babiki, abraçado com minha musa, beijo-a mais uma vez. Envolvidos em minha capa preta, nós desaparecemos (com um simples estalar de dedos).
 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Estrogonofe

Por Amilcar Neves*
 
De manhã quase cedo, a mãe, dedo em riste, dirigia-se à professora:


– Quem te disse que tens o direito de chamar a atenção da minha filha? Nem que fosse em particular! Sabes muito bem que eu é que pago o teu salário, a tua boa vida. Colégio, por aqui, tem um monte. Se eu tiro a Dannyelly desta bosta de escola e outros pais fizerem o mesmo por causa dessa tua mania de querer impor ideias antiquadas, ultrapassadas, e de querer obrigar os alunos a estudar e fazer tarefas em casa, perturbando a tranquilidade deles, não só tu perdes o teu rico empreguinho como a escola fecha em dois tempos. Então, escuta bem, que não vou repetir: estou indo agora mesmo fazer uma reclamação formal à direção do estabelecimento. O próximo passo será registrar queixa no Procon [sigla de "Procuradoria de Proteção e Defesa do Consumidor", segundo o "Novo Dicionário Aurélio" versão 6.0.6]. Depois é B. O. [boletim de ocorrência] direto.


No início da tarde, o rapaz, angustiado, procurou a assistente social:


– Não sei mais o que fazer, preciso conversar com alguém, e necessito dessa conversa agora, antes que eu caia de vez em desespero. Agradeço demais sua paciência, sei que é parte do seu trabalho, mas é que estou desorientado, me sinto perdido, não tem adiantado nada a minha mãe falar com ela, a mãe dela conversar com ela, e ainda tem o nosso filhinho, isso é o que me preocupa mais, claro, a nossa situação, a situação que estamos vivendo também me enche de preocupações e assombros, mas a senhora sabe, um filho sempre é um filho, o que a gente fizer com ele agora vai marcar toda a vida dele, o fato é que ela não se contenta mais com nada, diz que quer muito conhecer Buenos Aires, e Paris, e as ilhas gregas, e me xinga dizendo que não tenho dinheiro nem para levá-la a Biguaçu enquanto meu primo, do tráfico, tem vida boa, de rei, e ela só ralando, a senhora tem um tempinho para me escutar um pouco?, pois estou desesperado, não sei o que fazer...


Ao final do dia, o executivo, contrariado, mede palavras ao falar com o guarda:


– Não se pode correr riscos inutilmente, o Tenente Soiza aí sabe muito bem do que estou falando, por isso tenho amigos importantes e dedicados na alta cúpula do Governo, na alta magistratura do Tribunal e no alto comando da Polícia, gente que resolve. Não tenho amigos no alto escalão da Cultura porque isso não leva a nada. O que quero lhe dizer, Tenente Soiza aí, com todo o respeito pelo seu uniforme, é que lhe restam três opções: aceitar numa boa esse cinquentinha aí pra cerveja do final de semana e livrar a minha cara, fazer que não viu e não sabe de nada e sair de fininho no preju, ou terminar de preencher a bosta dessa multa por estacionamento em vaga de aleijado e se arrepender depois pelo resto da vida. A escolha é sua e eu não tenho mais tempo a perder.


Pelo meio da noite, na Câmara, logo após a hora do jantar, dois vereadores que deveriam estar em sessão colocam-se frente a frente a uma mesa de canto na cantina daquela casa do povo e olham-se fixamente em silêncio absoluto. Observando-os atentamente percebe-se que suas fisionomias mudam, de forma quase imperceptível, assumindo expressões de surpresa, desgosto, alegria, contrariedade, entusiasmo, concordância e juras solenes e profundas:


A fim de evitarem aborrecimentos com esses bagulhos eletrônicos que tudo ouvem e tudo veem e tudo leem e tudo registram, comunicam-se por telepatia quando precisam tratar de assuntos impublicáveis ligados a poder e dinheiro.

*Conto publicado no jornal "Diário Catarinense" de 15.06.11

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Blecaute

Por Fabio Ramos
 
 


qual
o problema
de
comer
no escuro
 

se
mastigo
com
os dentes
 

e
não
com os
olhos
?
 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A Deusa

Por Denise Fernandes




Quando L. tinha 7 anos, perguntou: a gente deve rezar pai nosso ou uma oração que a gente fala direto com Deus? Puxa, meu filho, não sei muito bem mas, na dúvida, como Deus é importante, é melhor rezar das duas formas. Eu rezo das duas. L. silenciou e eu fiquei com aquela sensação que me fez nunca mais esquecer esse momento. Nós tocamos no mistério quando falamos de Deus, mas faltou falar da deusa. A Deusa que é Ave-Maria, mas que também é nada: é mar, suporte, a força e a magia do mundo.

A Deusa não nos deixa dormir e, muitas vezes, nos sacode. Alma que chora, que grita, alma que acalmamos (com desespero) o próprio espaço de nossos desejos; onde cavalgamos sem saber ao certo onde vamos. A Deusa também nos pede oração. A ela suplicamos como se colocássemos o mundo em nossas mãos – como se fosse nossa a imensa responsabilidade de salvar a humanidade. A Deusa é a Luz em nós, e quando se diz Alá, a deusa está no “a”.

Quando se tem seca, quando falta bondade no ar, é a própria Deusa quem seca a terra, que se enfurece com a humanidade. A Deusa é a Terra e seus prazeres. A deusa é o pão que o próprio Deus come. A deusa é saudade e o sofrimento da saudade. A Deusa é música.

A deusa é delicadeza, é vontade de carregar a criança no colo, a Deusa é abraço. É sem começo porque começar seria partir. A Deusa é tudo que sempre fica e sempre ficou. É o eterno do Eterno, porque haveria um lugar sem começo e sem fim, raiz e fruto ao mesmo tempo.

A deusa existe em mim na forma de vida e atravessa o abismo que antes havia entre eu e você.

Foi a Deusa quem criou o Sonho e o próprio Deus maior que ela. A deusa é a estrada, a agonia que liberta. É a deusa que nos inspira quando choramos uma lágrima única, e essa lágrima liberta.

Quando você me pede coisas impossíveis e eu digo sim, quando caminho sem direção até me acalmar, quando o vento faz barulho, quando sou invadida por sentimentos estranhos, é sempre a Deusa.

Quando aguardo outro verão, quando o trovão soa sacudindo o céu, em todos esses momentos é a deusa que respira.

A Deusa é oração, mas também não é. A deusa é quando a gente está tão ocupado que se esquece de rezar e acorda e levanta e continua esquecendo. E quando a gente lembra, sabe que foi a Deusa com sua mão que criou esse esquecimento. Também é a deusa que nos faz, muitas vezes, esquecer o tempo e nossas dores.

Nos momentos em que, adulta, me sinto como criança, é a deusa que beija minha testa, e eu sinto o silêncio do mundo. E o silêncio do mundo é a Deusa.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

de aguamentos

Por Ana Paula Perissé
 
 


                                         há algo de hiato
                                         entre o ardor verborrágico
                                         e o que se quer não dito.



                                         pois ardem águas
                                         em minha pele
                                         só



                                         derruída em dormência
                                         silêncio e distância
                                         quase nua
                                         cá dentro



                                         (incolor e inodora.
                                         não sou
                                         de ti)



                                         acendem águas
                                         lustre
                                         tantas vivas

                                         outrora doces
                                         tôdas em viço
                                         - única.



                                         pois deito água
                                         em minha fervura
                                         água de pé
                                         borrifada em fina renda
                                         margeada até
                                         ao desvelo



                                         e chegam-me águas
                                         em suor



                                         (água-me
                                         em seiva bruta.)