segunda-feira, 22 de setembro de 2014

brutaexpectaria

Por Ana Paula Perissé
 
 


                                           causa 1`dano
                                           orgástico
                                           o acaso
                                           que se aconchega
                                           sob herança
                                           errática
                                           ulterior.

                                           (pista
                                           ou rastro raso
                                           de outroraderme)

                                           pois verte
                                           rumor invertido
                                           que improvisa no silêncio
                                           aquele porvir
                                           quase turvo¨

                                            ¨só pra deixar 1´sorriso
                                           grávido
                                           de maré&sopro
                                           em

                                           >>>  brutaexpectaria.

 

domingo, 21 de setembro de 2014

sábado, 20 de setembro de 2014

O filme, a canção, o túnel e Vincent

Por Meriam Lazaro
 
 

 
A ficção pode trazer conforto antes que em nós se hospede o tédio. Descreve-se o tédio como o sentimento caracterizado por falta de estímulo. Talvez o tédio possa surgir também pelo excesso de estímulo a que somos incitados, especialmente pela internet no caso dos frequentadores das redes sociais. Isto requer medidas para desacelerar. Que tal um filme de arte?


No sábado, escolho um clássico. O conto “Corvos”, no filme “Sonhos”, de Akira Kurosawa, mostra um rapaz observando telas no museu. As telas ganham movimento até que o rapaz se vê frente a frente com o pintor no campo de trigo. Pude entender porque aprecio tanto a aparente simplicidade da arte de Van Gogh. Percebo algo como: quando uma cena parece pintura, não necessita ser pintada. A beleza para o pintor está no cotidiano. Daí, aos olhos atentos, adquirirem vida uma cadeira com cachimbo, um quartinho com objetos modestos, sob a ponte as lavadeiras no rio, no campo os humildes colhedores de batata... Repito o conto e vejo que não subtrai dali a minha percepção.


No domingo, convite aceito para ir ao cinema, no trajeto comentei com uma amiga o que havia percebido sobre a arte de Van Gogh e do filme “Sonhos”. O som do carro mudou de Djavan para tocar uma belíssima canção estrangeira. Com inglês sofrível percebi que falava de estrelas, estrelas na noite, pintura em cores azul e cinza, árvores, flores flamejantes, sanidade e de novo estrelas, estrelas na noite. No trajeto, deveríamos passar pelo túnel que dá acesso à rodoviária, mas pouco saíamos do lugar por causa do engarrafamento atípico para uma tarde de domingo. Enquanto observava a floração das paineiras, pedi para repetir a canção, cujo título apareceu no mostrador: “Vincent”. Uma homenagem ao pintor! Restava descobrir o nome do cantor, o que fiz mais tarde pela internet.


Meia hora de engarrafamento depois, cruzamos a entrada do túnel. As pistas laterais estavam interditadas para um dos mais deslumbrantes acontecimentos de rua já presenciado por nós. Sob fortes holofotes, dezenas de grafiteiros de vários países estavam colorindo as paredes do túnel de uma ponta a outra. Fotógrafos com máquinas e celulares estavam a postos para captar a beleza do momento. "Vincent" continuava a tocar.


Um pouco atrasadas, conseguimos os últimos lugares para a sessão das cinco. Depois de passar por tanta beleza no caminho, me peguei de olhos fechados em vários momentos do documentário sobre a medicina indiana. Este sim, maçante! Novamente me veio à mente a ideia de desacelerar. Pensei em voltar ao antigo hábito de trocar correspondência com pessoas de longe. Não conhece o encantamento, quem não viveu a expectativa de receber uma carta, contendo figura ou desenho num canto do papel, no envelope o selo bonito para se colecionar e as notícias dos parentes lidas com toda pompa para deleite da família. Assim, não se espante se nos próximos dias o Carteiro chamar seu nome com uma carta na mão!
 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Celebrações sabáticas

Por Amilcar Neves*

 

Jovens, ambos. Ele branco, ela negra. O filhinho, de cinco anos, mulato de cabelos lisos, brinca com o carrinho do supermercado, empurrando-o para a frente, até atingir de leve a mãe, e para trás, até bater na perna do cliente na fila. O pai pega o menino, coloca-o no carrinho vazio - as compras na esteira do caixa - e faz uma brincadeira com ele, sorrindo; não vê, na atitude do filho, agressões à mãe ou ao desconhecido. O garoto se estica para pegar algo, a mãe procura o cartão de crédito para pagar as compras, o pai agarra o filho e o abraça. Em seguida, coloca-o de pé no chão, para lá dos limites do caixa.
 
 
- Olhem, eles já devem estar em Santo Amaro! - um outro casal, sem filhos, passa com as compras ensacadas num carrinho e fala para os dois.
 
 
É sábado, é início de tarde e ali da imensa vitrina do supermercado na Costeira do Pirajubaé divisa-se um cenário deslumbrante e ensolarado, de topo para o mar da Baía Sul, para as montanhas no Continente, para o céu distante e tão próximo. Em torno, os morros revestem-se de verde, no meio do qual destacam-se pelas copas fechadas e compridas, dispostas na vertical, alguns eucaliptos; pelos caules pálidos e retos, inflexíveis, distinguem-se muitos garapuvus que no topo se abrem para os lados, loucos para que chegue a primavera a fim de se cobrirem de flores amarelas, amarelando toda a Ilha.
 
 
Cores. Um sábado pintado em technicolor com tecnologia natural. Sem pagamento de royalties.
 
 
Então é que se revela, quando a muito custo trazemos de volta nosso olhar para o interior da loja, que pai e filho vestem camisetas idênticas, com um grafismo circundado pela frase que me deixa horrorizado: "Desenvolvendo o caráter de Cristo".
 
 
- Meu Deus! Dois mil anos já e esse senhor ainda não tem o caráter formado? - pensei quase em voz alta, e rezo aos céus para que efetivamente ninguém me tenha ouvido.
 
 
Escuto que os quatro adultos são da Assembleia de Deus, que se dirigem para um evento piedoso em Santo Amaro da Imperatriz e que seu objetivo é desenvolver o caráter de Cristo nas crianças e nos jovens da sua fé.
 
 
Um dia único
 
 
Todos os dias são únicos, é verdade. Não se registrou na História, até hoje, nenhum caso em que uma determinada data haja se repetido em momentos distintos. Isto é ficção científica, não a realidade rasteira do nosso cotidiano.
 
 
No entanto, o sábado passado revestiu-se daquelas características que fazem valer a pena vivê-lo cada minuto: o frio finalmente se apresentou, o céu andou claro, o ar mostrou-se fino e transparente, o azul impecável cobriu nossos ócios, uma lancha singra a Baía Sul em direção à Ponte Hercílio Luz (ao que resta da ponte), o mar espreguiçava-se espelhado e convidativo. Desenhando o horizonte além da Baía, o perfil senoidal do Cambirela e o serrilhado da Serra Geral vestiam-se de tons azulados, em contraste com o verde exuberante dos morros na cidade.
 
 
Um dia também de 50 anos.
 
 
50 anos de um dia
 
 
Manoel Osório tem muitos amigos (o que não o impede de cultivar inúmeros desafetos também). Amigos de todas as idades. Um destes o convidou para uma celebração na adega subterrânea de sofisticada loja de vinhos da Ilha. Foi no mesmo sábado de tantas cores. Um sábado coroado por ótima comida, maravilhoso espumante, excelente vinho e gente que só encontra em festas de família.
 
 
Tratava-se da comemoração das bodas de ouro dos amigos Ana e João Camargo. De presente da Ana, o João ganhou a autorização para fazer uma viagem com um filho e dois netos cumprindo um roteiro inusitado pela fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Partem nesta segunda-feira. Voraz colecionador de histórias, Manoel Osório já reservou cadeira para ouvir os relatos do périplo.
 
 
De presente, a Ana quis duas semanas de descanso.
 
 
*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 21.07.14

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

VE-RI-FI-CA-ÇÃO

Por Fabio Ramos
 
 


chaves
?
OK
 

água
mineral
?
positivo
 

carteira no
bolso
?
com
certeza
 

o guarda
chuva
?
não pode
faltar
 

moletom
?
ah sim
pode esfriar
 

sinal
da cruz
(antes de sair)
?
mas
é lógico
 

FUN-DA-MEN-TAL
 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Ar

Por Denise Fernandes




Estávamos perto do ninho
e o grande abutre abriu suas asas
bem perto de nós
não parecia ter medo ou ódio
tinha o ar da plenitude,
como se tivéssemos tocado a campainha de sua casa.


Ainda lembrava que nós preferimos sempre
o vento das montanhas
Aquela quantidade demasiada de ar
nos atravessando
Tão diferente da Cidade aberta repleta densamente
rodeando nossos projetos


Você ainda não sabe onde pôr o carro e
falta pouco
para que abandonemos o veículo
em qualquer congestionamento.
Você me diz que falta Ar na Cidade.
Te digo que também falta Água.
E não sabemos mais o que fazer por aqui.


Quando você me abraça, me respira
para não sufocar.
Quando te beijo, te respiro.
Somos Ar.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

episódio 2

Por Ana Paula Perissé
 
 


                                        em tempos de marés
                                        sem dono
                                        surdia
                                        errante
                                        apenas 1´desejo
                                        de se consumir finitude
                                        plena

                                        e ao que passa
                                        a insânia do que virá
                                        certeira,

                                        (abeira-te com cautela
                                        em posição de alerta)

                                        os resquícios de lembranças
                                        doídas
                                        somam-se ao porvir
                                        urdido em tramas
                                        dourado-sãs.

                                        (sou tecelã
                                        desmedida
                                        em desvario em tecer pedras
                                        escandalosas)

                                        passa, então,
                                        à sombra
                                        da curva,
                                        a árvore da vida
                                        em essência que nos faz
                                        crepúsculo.


                                        Alea jacta est.