domingo, 8 de junho de 2014

sábado, 7 de junho de 2014

A Missão

Por Meriam Lazaro
 
 


Todo bonitão, após loção de barba, pego a carteira e na porta decido: elevador ou escada? Como não há ninguém no elevador nessa hora vou de escadas, corro o risco de encontrar dona Dolores e seu Enrico de portas abertas a tomar um mate. Qual nada, meus vizinhos não estão em casa. 
 
Na portaria seu Lidugero vigia há cinco anos nosso entra e sai. - Como vai seu Bento? - ele me pergunta. - Bem e o seu pessoal? - Ao que ele me responde com riqueza de detalhes, que lhes poupo aqui senão passa do espaço do conto. Outro dia, quem sabe... 
 
Passo pelo ponto de ônibus, que pena! Dona Quitéria, da faxina do prédio, não veio nesse. Queria saber do seu Manuel, portuga de quem se separou por três vezes após tentar alvejá-lo com uma caçarola com óleo quente. 
 
Que dia sem esplendor, pelo visto. Não, não posso dizer isto. Vejo no céu as nuvens rosadas que minha mãe chamava de rabo-de-galo, sinal de geada naqueles tempos. Saudade da grande quantidade de atividades que tinha para fazer durante o dia, 24 horas não dava para nada. 
 
Chego então ao meu destino e eis que vejo fartura. Uma fila de conhecidos no balcão, todos me cumprimentam efusivamente, vejo dona Dora fazendo as contas à mão como sempre fez, a moça do caixa olhando desconfiada para o papel pardo, mãos que alcançam embrulhos, dedos que indicam quantidade de pãezinhos. Cedo a vez a quem vai chegando e vou sempre ficando no final da fila para conversar com todos e valorizar... Opa! Eis que do nada chega minha neta adolescente, linda e valente como uma Anita histórica e, de botas e mãos em bule, me passa um pito: 
 
- Vovó disse que faz duas horas que o senhor saiu para vir aqui na padaria buscar o pão e o leite! 
 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Paradoxos

Por Mayanna Velame
 
 
 
Pessoas que nascem no Norte do Brasil convivem, diariamente, com temperaturas altas e escaldantes. Não é novidade alguma vivenciar tardes ensolaradas, contemplar um céu infinitamente azul e sentir, em todas as extremidades do corpo, 35° ou 40° graus penetrando em cada poro.
 
Esse calor é explicado em virtude do território nortista ser atravessado pela Faixa Equatorial – considerada a zona mais quente do planeta. Quentura essa que, muitas vezes, chega a ser insuportável e incômoda (mesmo que estejamos acostumados a ela).
 
Entre meridianos, trópicos e paralelos, há chuva e sol. O inverno é o período que, pessoalmente, mais me atrai – embora aqui, no “andar de cima do país”, as quatro estações não sejam bem definidas. Por esse motivo, sempre que posso, dou uma fugidinha e me recolho nas temperaturas baixas.
 
Devo concordar que o verão transparece alegria e diversão. Mas acontece que o tempo frio me traz calmaria e introspecção. Época propícia para ler um bom livro, escrever, e refugiar-se entre montanhas e serras.
 
É por isso que, na Literatura Romântica, a natureza é vista como a extensão do eu. Se a personagem vive dias de verão, é sinal que ela está feliz. Agora, se é inverno, momentos de análises, conflitos existenciais e tormentos estão em seu enredo.
 
Felicidade e melancolia, assim como o inverno e o verão, são dois polos da vida. Dificilmente suportaríamos viver todos os nossos dias enjaulados, em tempestades de desalento. E também creio que jamais gostaríamos de permanecer iludidos, com falsos e momentâneos verões.
 
A verdade é que vivemos em paradoxos: se sentimos frio, logo pedimos calor; se estamos casados, queremos nos comportar como solteiros; se temos trabalho, reclamamos do chefe; se estamos na escassez, lamentamos a falta de dinheiro. Nunca estamos verdadeiramente satisfeitos. Seres humanos são dotados de contradições. E são as oposições da vida que nos fazem crescer (e refletir) sobre nosso modo de agir (e pensar).
 
Por essa razão, se o céu da minha vida efêmera está carregado de nuvens cinzentas e pesadas, penso que há um Sol oculto – esperando o tempo certo para despontar, majestoso, no horizonte. 
 
Mas se o tempo está aberto e claro, pondero que é bom preparar o guarda-chuva e um agasalho. Porque chuvas de desilusão sempre respigarão em nosso jardim.
 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Gabo, um náufrago que sobreviveu

Por Amilcar Neves* 

 

Conheci Gabriel García Márquez - sua obra, não o autor - em Buenos Aires, por meados dos anos 1970. Vivíamos então no Brasil a descoberta da vasta e maravilhosa literatura latino-americana. Dessa safra, para mim, pessoalmente, marcaram-me nomes como Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Roberto Arlt e o próprio Gabo. Dele, comprei em uma livraria da Calle Florida seu emblemático Cien Años de Soledad, que trago no coração até hoje, livro que qualquer escritor decente gostaria de ter escrito.
 
 
Um dia, porém, depois de várias outras obras dele, li seu Relato de um Náufrago, de 1955 em sua versão publicada originalmente na imprensa colombiana. Tomei um susto. Corri para minha estante, tomei A Balsa do Desespero, de Enzio Tiira, de 1954, se bem me recordo, e o reli de um só fôlego: pareceu-me então que tudo o que vinha contado no Relato estava embutido na Balsa. Bem verdade que relatos de náufragos num mar infestado de tubarões devem transmitir experiências muito semelhantes.
 
 
De qualquer forma, aí que pude avaliar melhor o tamanho do talento de García Márquez e sua lição sobre como escrever um texto excelente e saboroso a partir de outras obras (se este fosse o caso). Cortázar fez exatamente isso com uma bula de remédio para cefaleia e um tratado acadêmico sobre as enguias.
 
 
Como todo latino-americano, Gabo nasceu náufrago, quase afogado; como gênio da literatura, sobrevive para sempre em sua magnífica obra.
 
* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 18.04.14

quarta-feira, 4 de junho de 2014

selo lá

Por Fabio Ramos
 
 


na
bolsa
da garota
vivia
um
celular
 

que
filmava
 

que
fotografia
tirava
 

como
lanterna
funcionava
 

e até ligação
efetuava
 

mas isso
não
bastava
!
 

ele
(o celular)
tinha
um sonho:
disputar os jogos
olímpicos
 

sua
modalidade?
o
salto
ornamental
 

quanta
plasticidade
!
 

piruetas
no
ar antes de
afundar
(na piscina)
 

só era
necessário
praticar
!
 

na
primeira
oportunidade
livrou-se
da
dona e
mergulhou
 

nas águas do
vaso
sanitário
!
 

terça-feira, 3 de junho de 2014

À Leitora

Por André Vianna


 
Que minhas palavras acariciem teus olhos
Como lábios se encontrando em um beijo
E que ele seja real, ainda que etéreo
Ainda que imaginário


 
Que meus versos a toquem
Como mãos percorrendo o teu corpo
Mostrando-me teu, fazendo-te minha
Ainda que por ilusão


 
E que mesmo distante - intangível -
Minha poesia cubra o vão do abstrato
E faça o meu sentimento palpável
Ainda que na brevidade destas linhas
 

Nasci no Rio de Janeiro em 1978. Publiquei em diversas antologias poéticas e também tenho um livro de contos - Sobre o Natural e o Sobrenatural - lançado pela Editora Multifoco.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

sonho içado, à beira

Por Ana Paula Perissé
 
 
Imagem: Egon Schiele


                               vc dorme com meus olhos bem´
                               abertos
                               enqto teu sopro me invade
                               para viver assim.
                               e se desfaz no cansaço que sinto
                               por sonhar meus delírios
                               de errância

                               ( mais do que o efêmero balanço
                               desta noite, ronrona com mais cabelo grisalho
                               do que naquele tempo)

                               e ainda mareiam vagas
                               em caos neste pier
                               sem fim
                               .
                               .
                               .
                               sono.
 

domingo, 1 de junho de 2014