quarta-feira, 23 de abril de 2014

Inversão Total

Por Fabio Ramos
 
 
Cena do filme "Animal Farm" (1954)


ele
(o dono)
 

bebe
café em copo
de
requeijão
 

come
a feijoada
em lata
de
goiabada
 

se banha na
fonte
da
praça
 

mas
ele
(o bicho)
só come em prato
de porcelana
usando
talher e faca
 

terça-feira, 22 de abril de 2014

Olhos Tristes

Por Denise Fernandes
 
 


Você me disse que eu estava com olhos tristes. Perguntou o que era. Disse que não era nada, que não estava triste. Talvez meus olhos estivessem irritados pela maquilagem. Você ficou bravo pensando que eu estava mentindo. Disse que não estava mentindo, se eu tivesse triste, eu falava. Geralmente, quando fico triste, eu falo, expliquei a você. Você fez uma cara de quem não acredita muito. Ai, aí eu acho que também achei que não falo sempre das minhas tristezas e pensei que não estava com vontade de falar delas para você. Medo de que só de falar eu possa ficar mais triste do que estou. Medo de chorar. Medo de te envolver na tristeza envolvida, essa compaixão arrancada do outro, de você ou outra pessoa. Não quero esse sentimento implorado. Deve ser orgulho ou bobagem da minha parte, mas quero alguém que sinta compaixão sem lágrima alguma, sem chantagem. Sei que são sonhos. E não tenho certeza se esses sonhos são causa desses olhos tristes, que também me assustam.
 
Não consigo entender, mas meus olhos parecem mais tristes do que a tristeza que estou sentindo agora. Será que carregam tristezas de antes? E a tristeza dos meus olhos me deixa um pouco triste. Da onde saíram esses olhos tristes me olhando? Acho que fico um pouco triste com a tristeza dos outros. Pego emprestado e sofro com a tristeza dos outros; mas também pego alegria. Esses olhos mais tristes que o normal foram de tristezas que não lembro. Sentimentos de solidão que me fizeram bem sozinha mesmo. Como um morador de rua que encontrei no caminho sem nenhum cobertor velho, nenhum casaco velho, a camiseta curta, ele bem gelado. Via o gelado nos olhos dele, deitadinho no chão, sem papelão. O morador ao lado com cobertor, papelão, casacão. Sinto uma solidão danada olhando para os dois, assim desiguais, lado a lado, unidos nem sei eu pelo quê. Tem horas que entendo todas as tristezas dos meus olhos, mesmo essas que aparecem sem que eu perceba, e descubra dessa forma. Você olhando e vendo o que eu nem mesma sabia.
 
A tristeza demorou para sair dos meus olhos. Mas não precisei chorar. Nem falar. Acordei simplesmente diferente. Depois percebi que era bom que você lesse meus olhos, que não fosse tudo indiferença, que houvesse essa pergunta sobre o conteúdo dos olhos, que houvesse verdade. Mesmo assustada pela descoberta de algo que eu não sabia que estava em mim, sinto que é luz aparecendo para eu perceber que sou mesmo um pouco transparente. Transparência que começa pelos olhos e continua; e quando você me vê, sabe como estou lá no fundo, mesmo eu não gostando tanto de ser tão transparente assim.
 
E será que temos o tato triste, os ouvidos tristes, o olfato triste, o paladar triste? A mão que tem saudades de carinhos, a pele carregará a tristeza de tudo? Fecho os olhos e ainda te vejo. Meus olhos fechados continuam tristes? A porta bate com força e eu me assusto como se eu fosse um bebê. Meus cinco sentidos continuam sentindo o que eu nem sei que sinto. Me avise quando meus olhos estiverem cheios de amor. 
 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

episódio

Por Ana Paula Perissé
 

 
 
                                            há 1´princípio
                                            errante
                                            assombrador de sonhos
                                            mas pregnante
                                            de vida.

                                            longas noites, eu temo
                                            de sons prantivos
                                            ao longe
                                            água que foge
                                            scintilla em enfarte
                                            desértico

                                            mas 1´ luz persiste
                                            à aurora
                                            primeva,
                                            uma pletora
                                            de sorrisos
                                            sobrevive
                                            sem saber-se motivo

                                            há algo de inefável
                                            entre o desejo
                                            a espera
                                            e 1´vida

                                            (façanha arriscada
                                            esse viver.)
 

domingo, 20 de abril de 2014

sábado, 19 de abril de 2014

Hoje eu vou mudar

Por Meriam Lazaro
 
 
 
“Hoje eu vou mudar/Vasculhar minhas gavetas/Jogar fora sentimentos e ressentimentos tolos.”... Assim começava a canção interpretada por Vanusa, de sua composição e Sérgio Sá, segundo a internet. Mudanças estão a nossa volta, em nossa mente, em nossas ações. Nem sempre precisam de um novo espaço para acontecer. Podemos mudar no lugar em que estamos.


Evidentemente há os que preferem fazer o Caminho de Santiago de Compostela ou participar de outra peregrinação. Tudo bem! Mas até para ir a Galiza, para a maioria, é necessário uma mudança prévia, isto é, se pudermos chamar de mudança o desejo de organização. Organizar as finanças para ter dinheiro para a viagem em busca da simplicidade. Organizar os hábitos de exercícios físicos para sustentar a caminhada. Organizar a mochila dispensando tudo que é supérfluo para estar sobre os ombros. Organizar o tempo de férias, ordenar os documentos, rever as ideias sobre alojamentos coletivos...


E se não quisermos ou não pudermos sair do nosso chão? Como poderemos nos despojar desse mundo de coisas desnecessárias que carregamos? Foi assim com Noé.


                                                           ***


Um belo dia Noé acorda e vê que a barca partiu levando até seu cachorrinho de estimação. Não tem mais ligação com ninguém. Também não quer partir. Sente que o elo que deseja com pessoas, animais, coisas não virá de fora. Sentir-se ligado a outrem independe de espaço, está além do tempo, inclusive. Sai da zona de conforto (que é a mesma de desconforto). Põe-se a pensar em organização. A “zona” é total e aparentemente incorrigível! Noé desanima.


Num outro dia Noé pensa, pensa, pensa. Na imaginação faz tudo o que é necessário. Organiza as contas. Não gastará mais com livros, que levaria vidas para ler. Já não compra mais discos de música, pois o momento é de gastar com filmes. Disto não abre mão! Em pensamento troca o vídeo doméstico pela tela grande de cinema. Dois em um. Assistir filme em tela grande e som espetacular; sair de casa e experimentar o convívio com outros humanos e seus cheiros de pipoca amanteigada que ele odeia. Limpa a casa com o melhor detergente, abre janelas e portas. Tem mania de limpeza. Por enquanto, sua mania consiste em estocar material de limpeza. Depois organiza gavetas, armários, papéis, seguro de vida (deixará para quem?). De tanto pensar, Noé está fatigado. Chegou o momento de descansar. Mais um dia passou.


Noé já não aguenta mais. Deseja uma mudança. Qualquer mudança que lhe desperte felicidade. Mas por não saber bem o que é felicidade, o medo lhe impede qualquer ação que não seja a do pensamento. Um dia Noé irá despertar e a barca terá voltado.
 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Talvez

Por Mayanna Velame
 
 
 
 
Sempre admirei a palavra “talvez”. Não necessariamente por causa da escrita. Mas justamente pela semântica, ou seja, pelo significado que ela traz consigo. Na Língua Portuguesa, “talvez” classifica-se como advérbio de dúvida. E a dúvida, sem dúvida alguma, é a mãe da ansiedade (e de toda angústia).

Entre o sim e o não, existe o “talvez” neutralizando respostas que desejamos ouvir ou ler. É o talvez que nos comove, sucumbe o juízo e a razão.

Um “talvez” camufla verdades e mentiras. É o meio-termo, o “x” da questão, a omissão dos fatos, a incógnita perdida, a fala indecisa.

O fato é que a vida está cercada pelo “talvez”. Tal palavra continua impregnada nessa finita existência: “Talvez sejamos felizes”, “Talvez encontremos o amor de nossa vida”, “Talvez”...

Diariamente vivemos entre incertezas futuras, probabilidades, ausência de garantias. Tudo isso promove desconforto e insegurança. Contudo, nas nebulosidades circundantes – ministradas pelo “talvez” – encontramos motivação para aproveitarmos cada dia, minuto e segundo como se fosse a última chance.

Quando o “talvez” impera na mente, é hora de agirmos. Precisamos tomar atitudes; ganhar coragem e confiança. A falta de convencimento, em certas ocasiões, nos anula.

Talvez essa crônica não tenha sentido. Porque o sentido do “talvez” possui mão dupla. São as regras da vida que, constantemente, se sobrepõem entre nós.

Escrevemos nossa história a todo instante. Somos autores, ou coautores, da vida. E, sendo assim, esperamos que o “talvez” não esteja escrito no último capítulo da existência (para expressar o que poderia ter sido e não foi).
 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Homem gigante e povo formiga

Por Cláudia de Villar 

 

Homem gigante caminha
Pelas ruas da cidade,
Se mistura e se sobressai,
Pois é gigante.
 

Homem gigante tem.
Tem o metal, tem o poder,
Tem o domínio de outro ser,
Pois é gigante.
 

Homem gigante
Que tem o lazer, que tem o acesso,
Que tem o sucesso,
Pois é gigante.
 

Homem gigante
Se mistura entre o povo formiga.
Que trabalha, que batalha,
Que se espalha, que se joga,
Que se expõe.
Povo formiga que toca o bonde,
Que luta, que sofre,
Que chora, que grita.
 

E que grito doído tem o povo formiga!
 

Enquanto isso...
O homem gigante
Se distrai
Esquentando a água para jogar no formigueiro.



Nascida em Porto Alegre, é graduada em Letras.
Atua como professora, escritora e oficineira. É colunista em veículos
como Jornal de Viamão, Jornal Zona Sul e Revista Zona Sul.
Também colabora no site literário Homo Literatus e no portal Artistas Gaúchos.
Possui oito livros publicados, sendo sete deles voltados ao público infanto-juvenil.
Para maiores informações, visite o site pessoal da autora.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Estava Escrito

Por Fabio Ramos
 
 


ao dizer
sim
 

anjos
protegem
 

rotas
convergem
 

juras
são
trocadas
 

vidas
são
geradas
 

ao dizer
sim