terça-feira, 8 de abril de 2014

Pensamentos

Por Wagner Silva
 

Pensamentos perdidos na mente.
Pedem para sair, partir, seguir em frente.
Parte deles encontra a saída.
Os remanescentes anseiam pelo mesmo.

 
Estão aprisionados? Ou simplesmente não amadureceram?
Por mim, estariam livres, tão logo desejassem.
Porém, nem sempre sei como desatar os nós, quebrar as correntes.
Então, sigo pensando.
 
 

Paulista que reside em Salvador (BA).
Formado em Ciências Biológicas e mestre em Zoologia.
Autor do blog Codificando Ideias. 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

-1

Por Ana Paula Perissé
 
 
Imagem: Joanna Sierko Filipowska


                                              fui tua derme
                                              enquanto houve lua

                                              molda.

                                              sou minha fuga
                                              própria
                                              porque há língua
                                              sem pele
                                              .
                                              .
                                              .
                                              agora


                                              muda.

 

domingo, 6 de abril de 2014

sábado, 5 de abril de 2014

Pequenos prazeres

Por Meriam Lazaro
 
 


Dizem que não se discute política nem religião, mas o que dizer da arte de bem viver? Quem trabalha a semana inteira sabe o quanto é bom aproveitar o final de semana. Podemos querer fazer muita coisa, no entanto, diminuir as expectativas, faz apreciar melhor os pequenos prazeres. Sem esquecer a ligeireza das horas de lazer, penso que há maior proveito em dormir alguns minutos além do despertar habitual, do que a manhã toda. E o banho semanal? Aquele com direito a sais-de-banho, máscara no cabelo, creme no rosto, unhas aparadas. Não que não se possa fazer tudo isto durante a semana, mas a pressa nos priva do capricho. Depois, para mim que adoro canecas, tomar café numa caneca nova (presente de aniversário) complementa a excelência da manhã... Há pouco, também descobri que na noite anterior ao final de semana, por mais exausta que eu esteja, posso passar a vassourinha mágica pela casa, limpar o pó dos móveis, pôr roupa na máquina para lavar. Sobra mais tempo para não fazer nada no dia seguinte. A arte de bem viver começa quando procuramos identificar o que nos faz felizes. Arte personalíssima!
 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Dias atrás

Por Mayanna Velame
 
 


É interessante como nós, seres humanos, nos deparamos com nossas reminiscências. Tanto é que, algumas vezes, elas surgem com muita veemência. Nosso coração logo se recorda de fatos e acontecimentos que jamais regressarão.

Esse é o poder da chamada nostalgia, momento pelo qual o nosso presente se anula; ressuscitando tudo aquilo que já estava guardado no baú da memória.

Falo disso porque, dias atrás, avistei, da janela do ônibus, uma amiga do tempo de escola: a Giselle. Ainda tentei chamá-la pelo nome, mas a minha voz baixa – e a pressa do motorista – me impediram tal ação.

No dia seguinte, escrevi para Giselle, contando o ocorrido. Para minha surpresa, ela também havia reencontrado uma outra amiga nossa, a Cley.

Com tantos reencontros, voltei aos tempos do colegial. Parece que os períodos de escola são os mais felizes da vida. Naquela época éramos garotas, jovens, saudáveis. Tudo se resumia em sonhos, devaneios e esperança.

Eu pensava em ser comissária de bordo. Queria aprender várias línguas, conhecer diversas pessoas, acordar no Norte e dormir no Sul. Era muito bom sonhar. Acreditar nas possibilidades e impossibilidades da vida. Converter as fórmulas nunca decoráveis de Física e Química em receitas perfeitas, para o enigmático futuro.

Porém, nada dessa existência é para sempre. O tempo se rompe, se desfaz, é máquina potente. Aceita erros, mas não concede o perdão.

Hoje, eu e minhas amigas estamos na casa dos vinte e tantos anos. Giselle se tornou mãe de duas lindas meninas. Cley graduou-se em Farmácia. E eu me formei em Letras. Viajo agora com as palavras. Para o Norte ou para o Sul, levo minhas personagens.

A vida toma rumos imprevisíveis. Jamais me imaginei rodeada de textos, parágrafos, versos. Apenas me vejo, em algumas circunstâncias, como aquela mocinha de dezessete anos. Uma garota que não pensaria em transformar sua nostalgia em inspiração para escrever esta singela crônica.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Violações

Por Amilcar Neves*

 

Por isso lhe é tão estranho e difícil: porque ela adora livros.
 
Sim, há gente que ama os livros. Mais do que isso: existe gente que coleciona livros que tomam as prateleiras e os espaços disponíveis. Como uma praga. Livros são uma praga para quem gosta deles, reproduzem-se de forma vertiginosa. Ganham com isso os vendedores de estantes e armários embutidos.
 
Mais importante do que amar e juntar livros, há pessoas que leem livros. Leem-nos da primeira à última página, palavra por palavra, atentas e interessadas, sem saltar parágrafos, sem pular páginas, sem correr direto para o final a fim de saber como termina a história. Mais impressionante ainda: são pessoas que não conseguem ter as mãos vazias: finda a leitura de um livro, emendam um outro. E sempre saem satisfeitas e mais completas da aventura de ler. É gente que vê o que não percebem os que não leem, é gente que vislumbra as razões e motivações do que acontece consigo, à sua volta, com o mundo.
 
Ler. Ler quando os livros são caros. Mas há livros baratos. Bons e baratos. As livrarias costumam fazer promoções, geralmente em parceria com editoras. Feiras do livro habitualmente dão descontos. O pagamento de livros pode ser parcelado. E abundam sebos por todos os cantos, lugares em que se descobrem obras esgotadas, livros que não existem mais. Sem contar as livrarias virtuais, que são o terror das congêneres "de carne e osso" que empregam gente da terra, pagam impostos locais e giram a economia regional. Mas o fato é que há livrarias virtuais, com preços inacreditáveis e parcelamentos extensos, como pagar 15 reais por um livro de 40 e, numa cesta de compras de 60 reais, desembolsar 5 por mês durante um ano.
 
Isso no capítulo das aquisições. Mas existem as bibliotecas, tanto as públicas quanto as escolares, que emprestam de graça (há amigos que também emprestam livros, mas não recomendo esta operação nem mesmo com a própria mãe: livro emprestado é livro perdido, não há responso que o traga de volta). Se os acervos não são atualizados, cabe pressionar com veemência e indignação prefeitos e secretários de educação e de cultura. Ou, em alguns casos, ainda que possa parecer absurdo, o secretário de turismo ou de esporte, dependendo de onde tenham dependurado a biblioteca.
 
Uma alternativa para suprir a necessidade imperiosa de leitura aplica-se, infelizmente, apenas à minoria que dispõe de um computador de mesa, de um computador portátil, de um tablete ou de um celular esperto: os livros eletrônicos. Eles também custam dinheiro, mas existem, legalmente livres e gratuitos, milhares de títulos "vendidos" de graça, mesmo em português. Todos os clássicos são encontradiços nesse formato a custo zero. Conheço gente que aproveita o excedente da hora do almoço para ficar numa praça ou num café lendo seu livro ao telefone.
 
Ela é uma pessoa assim, voltada intensamente para a literatura, uma leitora voraz, o sonho de todo escritor: ela lê, ela lê em abundância. Outro dia, lia os Cinquenta Tons de Cinza quando, num dos ápices do livro, faltou-lhe texto: havia duas páginas em branco. E depois mais duas, e assim até completarem-se 16 páginas de vácuo absoluto. Escreveu para a editora e deram-lhe instruções sobre como proceder para receber um novo exemplar.
 
Esta a sua dor: ela, que venera os livros e cuida deles com o máximo carinho, precisa agora arrancar a capa do volume como se extirpam os olhos de alguém e enviá-la pelo correio. Só de pensar no que precisa fazer dá-lhe náusea.

* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 26.02.14

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Apostinha

Por Fabio Ramos
 
 


deu macaco no
jogo do
bicho
 

que sacanagem!
diz o pretinho
 

qual o quê
 

deu
é veado no
jogo do
bicho
 

que fuleragem!
diz a bichinha
 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Inferno Astral

Por Denise Fernandes
 
 



         Lembro que ele sempre sabia qual poema era para ele – e para os outros.
         E isso foi razão de brigas.
         As metáforas antes revelam do que escondem.
         Mas sinto falta de alguém que me leia como se procurasse pistas do meu amor um pouco impossível.
         Há, em toda essa liberdade, a ausência do olhar que procura. Passos e visões que só contarei se quiser. Dias de um azul que verei só.
         Nenhuma disputa. E sinto menos vontade de acreditar que será possível o impossível. Talvez eu durma depois do almoço, longe de um corpo que perturba. Posso preferir margaridas a rosas, posso amar ou não.
         Pode ser que seja meu inferno astral, uma vontade enorme de abraçar surgiu. No céu, algumas estrelas na cidade realmente vigiam o infinito. Vou fazer jantar só para mim e acordar para um dia sem graça, com TPM ou menopausa, e as mesmas notícias em todos os jornais.
         Depois escolho sonhar; e não há nada de estranho nisso. Além de sonhar, escrever. Sim, escrever vários mundos, com seus relevos e saudades.