sábado, 8 de fevereiro de 2014

Grão

Por Meriam Lazaro
 
 


                                            Morreu-me um amor.
                                            Nascerá outro?!
                                            Porque nem tudo
                                            o amor descrente,
                                            amor miúdo, vai suportar.
                                            Por isso acaba.
                                            A dor de espada finca graúda,
                                            travessa mágoa
                                            (maior do mundo!),
                                            está na perda do amor eterno
                                            que só a arte sabe criar.
                                            Porém teimoso, o amor da gente,
                                            por troça ou graça,
                                            espera breve recomeçar.
 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Adeus

Por Mayanna Velame
 
 


Tentou ser forte, implacável. Os olhos se negando a voltar ao passado. O corpo dizia “não”, mas a alma queria gritar para o mundo um único sim, definitivo e eterno. Na verdade, o que poderia ser eterno? O amor? A paixão? Ele queria ficar.
 
Os escritores sabem que tudo na vida é efêmero. Ele sabia disso. Nunca havia amado de fato, almejado ninguém. A primeira despedida é sempre arrebatadora. “Nunca entregue seu coração” – dizia o pai. 

O apaixonado quis ser racional, o sentimento é arquiteto de armadilhas. Qual o segredo para trancar a porta do coração? 

Procurou encontrar respostas nas estrelas. Subia os montes mais altos da cidade, percorria escadas para chegar ao último andar dos prédios. Tudo em vão: as palavras escritas nas cartas de amor, o telefonema em meio à lúgubre madrugada, o beijo recebido na silenciosa sala de estar.  

O adeus óbvio o agonizava, na medida em que as roupas eram postas na mala surrada e sem zíper. A vida é tétrica, mesmo quando os sonhos se projetam fantásticos em nossa mente tão ínfima. 

Olhou ao seu redor. O quarto? Lugar secreto das noites de promessas que nunca foram cumpridas. A cama coberta por lençóis frios, a chuva amaldiçoando as vidas. O que mais poderia acontecer? A resposta saía naturalmente de sua boca: nada. 

Sentou-se à beira da cama. A mala ao lado, entreaberta. Deita fora suas vestimentas. Abaixou os olhos e lembrou-se do tempo em que a felicidade se resumia a abraços, beijos, sexo. Um novo horizonte se lançava: um filme extraordinário, protagonizado por dois seres tentando se completar. 

O adeus é completo. O que ele tinha em mãos seria roubado pela vida. A vida não é círculo perfeito, ela tem o seu fim muito bem elaborado. Filosofias à parte, o tempo se espatifava no ar. A penumbra escondia seu rosto. Suas emoções alojadas no âmago das recordações mais sinceras. 

Por que pensar nos bons momentos? Ele sabe que o passado é preso no seu próprio tempo. Recordar é ferir, apunhalar cada vez mais o que chamamos de sentimento. Balançou a cabeça como se não entendesse, ou melhor, não queria aceitar o fim de tudo: o fim do amor, da paixão, da felicidade. 

A mala em mãos suadas, o olhar fixo na janela que também chorava – queremos sempre vencer, quando a vitória não é a nossa melhor amiga. A porta estava ali, pronta para ser aberta; o quarto ficaria vazio, sem vida; os móveis não fariam sentido, não teriam utilidade. O benefício do amor é a solidão. 

Pensou em tudo, menos em si. O melhor era esquecer o que jamais seria esquecido. Fatos marcantes são cicatrizes na alma. Em passos curtos partiu. A mão na maçaneta, a porta lhe apresenta o corredor escuro. Nenhum bilhete escrito, nenhum recado enamorado.

Não! As palavras, muitas das vezes, nos fazem sofrer. Mas ele estava convicto que o silêncio de uma pessoa assassina qualquer esperança. Ele fecha a porta, segue seu caminho. A sombra reflete nas paredes. É sua última permanência naquele prédio, onde conheceu a outra face do amor: o amor não eterno.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Experiências extremas (no sentido de opostas)

Por Amilcar Neves*
 


A queixa é mais ou menos assim: "Um absurdo, um escândalo a exploração desses convênios de saúde! Cobram uma fortuna dos segurados e pagam uma miséria para os médicos credenciados! Pouco mais de cinquenta reais por consulta quando qualquer idiota sabe que Medicina é dos cursos mais dispendiosos para os alunos, mesmo em universidade pública! Imagine: são seis anos de faculdade, mais dois de residência obrigatória, mais três longos anos, no mínimo, de especialização, mais congressos, conferências e simpósios a fim de manter a indispensável atualização, a necessária sintonia com o estado da arte em sua área, para ganhar cinquenta reaizinhos por consulta! Por baixo, 11 duros anos de banco escolar para, como profissional gabaritado, receber a ninharia de cinquentinha!"

Todo mundo já ficou com pena do seu médico, xingou o governo que não fiscaliza e os convênios que abusam, e sentiu-se, no mais íntimo da sua alma, o maior culpado pelo fato de que, mesmo involuntariamente, estamos causando um grande dano ao profissional da saúde que, no geral, costuma mostrar-se dedicado e atencioso. Isto sem contar que é cada vez mais difícil conseguir marcar hora com um especialista - na hipótese de ele integrar os quadros do teu convênio de saúde -, deixando-te a impressão de que estás procurando consulta e tratamento pelo SUS.

Assim, foi uma surpresa enorme quando a mulher ligou e a secretária do badalado médico, cujos nome e fotos vivem saindo nas colunas sociais dos melhores jornais da região, disse que ela podia escolher o dia, "até mesmo para a tarde de hoje", completou.

- Sempre tem horário disponível?

- Sempre, o Doutor sempre consegue encaixar mais um paciente.

Isto pode ser bom ou ruim, ela pensou, mas precisava do atendimento e escolheu um dia em que o marido também tinha médico marcado, assim os dois poderiam ir juntos no mesmo carro, o que os faria contribuir para a redução dos congestionamentos urbanos.

O médico do marido ficava a três quadras do seu, ela esperaria um pouco até ser atendida no horário marcado para ela, depois seria a vez dele esperá-la. A consulta dele durou pouco mais de 30 minutos:

- Conversamos sobre livros, literatura, filosofia, ideologias, ditaduras latino-americanas, medicina e até sobre a minha saúde - ele contou depois, satisfeito da vida com o atendimento humano recebido. - A 50 reais por consulta, meu médico fatura quatro mil por semana trabalhando oito horas por dia e 18 mil por mês - 27 mil se consultas levarem 20 minutos -, o que não é valor desprezível. Considerando cirurgias e exames complexos, seu ganho é maior.

A mulher estava possessa:

- Vocês lá batendo papo nessa vergonhosa conversa fiada e eu aqui esperando neste calorão, nesta sala imunda e apinhada de gente! O sujeito mal olhou na minha cara, não quis nem espiar os exames que a médica da emergência do convênio me pedira - ela não é especialista, falou, não sabe de quais exames eu preciso -, prescreveu os mesmos exames que ela, mandou-me voltar quando tivesse feito tudo no laboratório que ele indicou e me despachou. Tudo isso em quase 3 - três! - minutos de consulta! Ele atende todo mundo rápido assim, até as consultas particulares.

O marido rapidamente fez as contas: são 20 consultas por hora, 160 por dia, 800 por semana, 3.600 por mês, o que daria a bagatela de 180 mil reais de honorários se atendesse apenas clientes de convênio.

- Realmente, é um escândalo esse negócio dos planos de saúde...

* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 29.01.14

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O Visitante

Por Fabio Ramos
 
 


som de
campainha
,

olho mágico
escurece
,

uma chave
a girar
no
buraco
da fechadura
,

entre
por favor
ela
convida
,

é o
desenho
na moldura
,

é a
estante
com livros
,

essa
energia
do
ambiente
,

esse dom
para
acolher
,

ele
adora
tudo que
,

o sentimento é
recíproco
 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Sonhos de uma noite de verão

Por Denise Fernandes
 
 


                                                “Não desças os degraus do sonho
                                                Para não despertar os monstros.
                                                Não subas aos sótãos - onde
                                                Os deuses, por trás das suas máscaras,
                                                Ocultam o próprio enigma.
                                                Não desças, não subas, fica.
                                                O mistério está é na tua vida!
                                                E é um sonho louco este nosso mundo...”
                                                (Mário Quintana).


            Quando eu estava grávida da Bia, há 29 anos atrás, estava um verão como esse agora: quente, mais que quente, a gente quase que derrete em vários momentos do dia. A gente fica transpirando mesmo estando parado. A gente toma uma limonada gelada como se recebesse sangue novo. Tem picolé também para agradar. E tem o bafo quente cozinhando a gente de várias formas.

            Eu deitava grávida de oito meses na banheira cheia de água fria, como um ovo quente. Voltei a dormir porque a médica me receitou um calmante. Eu sonhava com o parto e com o bebê. Eu tinha medo de que minha filha nunca me chamasse de mãe. Esse medo era o principal e me atormentava. Adoro ouvi-la me chamar de mãe.

            Naquela época a gente viu "Sonhos de uma noite de verão" de várias formas: peça, filme. Eu tinha medo de tudo o que de fato aconteceu com meu casamento. E a peça, o filme, tudo se confundia com o que eu vivia. Gastei muito tempo tentando entender.

            Agora minhas noites de verão são mais tranquilas. Repletas de memórias e ideias. Para mim tudo bem ser “penso, logo existo”. E verão: ter o quente de dentro no quente de fora, frutificar. A árvore aqui de casa floresce no verão, mesmo não sendo ausente na primavera. Acho que até preciso dessas pequenas flores, e quando a vizinha reclama da sujeira da árvore, sorrio por dentro a vitória tão pequenina, amarelinha a branca, cobrindo o chão. A vassoura festeja a flor, mas minha vizinha não percebe. Ela vê de outro ângulo. E tenho medo que ninguém mais veja da forma que eu vejo, ainda não sei a dose da solidão ou o que Deus quer de mim ou o que os deuses querem para eles da parte que me cabe. Assim, confusa, o que me resta é essa latitude, longitude; um velho disco na vitrola; o pássaro que passa cantando alto; a música que está tocando é minha.

            Apesar do cansaço, acordo na noite de verão e imagino que outros também acordam: tem um sol na minha cama na madrugada de verão e me sinto como uma verdura refogada. Sonhei tanto.

            A cachorra aproveita o gelado do piso e dorme, desmaiada, relaxada. Sinto tanta inveja da minha cachorra quando a vejo assim, curtindo plenamente o momento. Na noite de verão ela late, mas é para conversar com outros cães, para afugentar os ratos. Ela deixa para sonhar de dia. Será que ela sonha comigo? Será que nos seus sonhos dou um monte de carne a ela? Ou passeamos, passeamos e passeamos? Sei que é estranho que os sonhos dela me interessem tanto, mas os meus sonhos são tão estranhos que é bom me refugiar em outros sonhos.

            Enquanto o verão brota em cada um como essa flor radical, desistimos de morrer e desistimos de desistir; o que é mais importante do que simplesmente continuar. Porque com o coração cheio dessa cor que o verão traz, há mais amor, mais desejo. Mesmo que eu pareça um pouco distante de tudo; é que estou aprendendo, há muitas páginas em branco dentro de mim, muitas doses de um medo fino, parecendo um licor, muitas perguntas e altitudes. Mesmo assim é possível perceber a cor do verão até em suas mãos.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

estrelecer

Por Ana Paula Perissé
 

Imagem: Cécile Veilhan
 
 
                                       ave!

                                       a um dédalo de mim é córrego
                                       a um fogo de nós, 1´pássaro
                                       sonho em fazer-me céu
                                       sem horizonte
                                       róseo como a aurora lunar
                                       (atrás de cheiro de mato)

                                       a um cântico de ti
                                       há 1`viajante
                                       cuja mala roubei para estrelas

                                       ( perde-se muito
                                       ao escrever
                                       diante do nada)

                                       Ave!

                                       estrelecer com fuga de lua.
 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Coração de estudante

Por Meriam Lazaro
 
 
 
 
Mamãe gostava de lima. Pegava o fruto, cheirava, rolava nas mãos para ficar mais suculento. Com canivete tirava um cordão de casca inteira para secar ao sol. O mesmo acontecia com a casca da laranja que, junto com a flor da laranjeira, resultava em perfumada infusão. Depois de descascada, era partida para que eu ganhasse a tampinha. Diferente da laranja, da lima se saboreava os gomos, quase que alvéolo por alvéolo. Dentre as laranjas, havia uma espécie cuja parte branca, bastante grossa, servia para doce, mas o sumo era amargo. Para tudo que a natureza dava amargor, mamãe atribuía um efeito curativo. Com a ajuda do sol, as garrafadas resultavam de misturas exóticas, nunca reveladas para as vítimas. Criança que não limpasse o prato, logo se via ameaçada pela poção servida num copinho plástico, daqueles que vinham com os vidros de fortificantes. Daquele tempo, ficou o gosto pelos frutos, a certeza de sua importância para a saúde, bem como uma afinidade pelos tratamentos alternativos, embora não descarte de forma alguma o auxílio da medicina tradicional. Muita Coca-Cola depois, esta semana será objeto de votação um projeto de lei incentivando a alimentação saudável nas escolas. Algumas escolas já oferecem opções de lanches apropriados, além de aulas sobre alimentos e outras práticas louváveis - como o da separação do lixo - que são levadas depois pelas crianças para os pais. Alguns pais, de modo surpreendente, inicialmente se mostraram contrários à proibição das frituras e dos refrigerantes. De leis nós temos fartura, a exemplo do Decreto-Lei nº 986, de 1969, que se busca modificar com o projeto a ser votado. Mas o que se espera é que a iniciativa das escolas e até do poder público encontre simpatia nos lares. Assim, se todos nós fizermos o dever de casa, nossas crianças, como diz a canção de Milton Nascimento, saberão florir bons frutos.