Por Denise Fernandes
Imagem: Ramen Ramen
Por
enquanto, estou velha. Tentando ficar velhinha.
Um dia,
quando meu filho mais novo tinha uns onze anos, e começara a andar pela rua,
sozinho, ele voltou para casa muito agitado.
– Mãe, você
me diz que é para respeitar gente mais velha, e sempre tratar bem. Mas, e se a
pessoa mais velha te trata mal, e não tem educação nenhuma com você? Se ela te
xinga de filho da puta sem você ter feito nada?
Sem ter
feito nada não tá certo, meu filho, mesmo a pessoa sendo de idade. Ai, quando
eu ficar velhinha, se conseguir chegar lá, espero não ficar xingando os outros
na rua. Espero ter mais respeito pelo ser humano. Embora não tenha muito
dinheiro, espero ter amor dentro de mim.
Recentemente,
esse meu filho – agora com vinte e um anos – viu o filme "Ensina-me a
viver", adorou, ficou apaixonado pela apaixonante velhinha da história.
Vontade de ser parcialmente como ela. Vontade de não cometer suicídio no final.
Vontade de ser velhinha para morrer com sabedoria. Receber a morte quando ela
realmente não quiser mais ceder um cadinho, um cadinho só dentro do mistério do
meu corpo, onde gosto de ficar.
Vontade de
ser bem velhinha, com minha pele, e mais mil peles nascidas nas noites mais
frias. Vontade de ser o depois de mim.
Rir do
sexo, rir da sorte. Quando ficar velhinha, quero continuar rindo bastante.
Pretendo
começar a jogar na loteria quando ficar velhinha. E quando ficar bem velhinha
mesmo, vou transar sem camisinha, sem me importar com doença sexualmente
transmissível, de origem misteriosa, ou criada pelo tempo. Vou arriscar sem
culpa só quando ficar bem velhinha, sei disso.
Se eu tiver
a chance de ficar velhinha, vou procurar me aproximar mais, e avaliar menos.
Sei bem o quanto as rugas, aquele monte de ruguinhas que só as bem velhinhas
têm, vão me proteger.
Quando chegar
a hora, vou ser daquelas velhinhas cheirosas, arrumadinhas, nada de velhinha
jogada, cheirando mal, e com vestido sujo. Velhinha mimosa.
Quando eu
ficar velhinha, não vou ter pressa. E não vou mais ter paciência com quem não
tem paciência comigo. Vou ser uma revolucionária velhinha, mais perigosa do que
sou.
Vou tomar
banho de mar pelada. Claro que tendo cuidado para não ser presa por atentado ao
pudor (por causa da nudez), se, quando eu ficar velhinha, as leis forem tão
bobas quanto são hoje. Processo e prisão, nem velhinha...
Preciso
ficar bem velhinha porque quero ter a chance de ver tudo melhorando. E se não
tiver melhorado até lá, quero morrer chorando bem velhinha, buscando a piedade
divina. Não quero desistir.
Tem gente
que diz que não quer ficar velhinha porque não quer dar trabalho aos outros.
Mas eu já estou acostumada a dar trabalho aos outros. Parece que sempre dei. E
parar de dar trabalho aos outros, justo quando fico velhinha, pode ser um
desastre. Quando eu era pequena, lembro da minha mãe dizendo que eu dava
trabalho, que eu inventava moda. Nunca estava satisfeita com as coisas como
estavam.
Depois, na
fase dos namoros, meus namorados sempre disseram que eu dava muito trabalho, o
que tem vários sentidos. Acho que gosto de dar trabalho, de chamar a atenção. É
tão ruim passar desapercebida. Por isso, gosto de dar atenção aos outros. Talvez
eu não esteja tão só. Porque, nesse mundo confuso, quem sabe haja muito de mim
em quase todos. Enquanto respiro solidão, respiro todo mundo. Talvez os
momentos em que eu mais esteja próxima das pessoas seja nos momentos de
solidão. E velhinha, minha solidão não vai mais me incomodar – do mesmo jeito
que agora. Talvez seja até pior. Mas de tanto convivermos, haverá intimidade
entre nós. E não essa solidão que me surpreende velha; solidão de dúvida, onde
eu esperava ter certezas.
Quando eu
for velhinha, vou ser mais esperta. Como um gato caçando. Velhinha, não vou ter
medo, enfim, vou ser a mulher coragem que esperei a vida inteira ser, e não
fui. Não que eu não tenha sido corajosa. Mas agora sei que não fui o suficiente
para tudo aquilo que eu queria ter sido. Acho que me preocupei demais em
cumprir minhas responsabilidades, e esqueci de ouvir a voz de trovão que ecoava
diante de mim. Essa angústia que carrego, tão pesada, não vai estar em mim
quando estiver velhinha, pois não vou ter mais tempo, nem forças para
carregá-la.
Com
meu corpo leve e gasto, inútil para o mundo que pressiona, vou poder, enfim,
ligar para mim, para meus minúsculos segredos e alegrias, para meus ossinhos
doendo, para o meu passado. É o meu passado que me agita. Quando somos velhos,
sabemos que o passado talvez seja mais importante que o futuro. Mas, velhinha,
poderei realmente esquecer as tolices do futuro, e curtir a enorme vastidão do
meu passado, as noites inesquecíveis que esqueci, os momentos indizíveis em que
fui tão feliz (que todos diriam que era impossível ser assim). Velhinha,
poderei viver o absurdo de uma vida feliz e não comportada, uma vida viva de
bobagens que fazem rir, sem falsas expectativas. Com meus cabelos ainda mais
branquinhos que agora, vou poder escancarar a verdade, e olhar o espelho de
frente, vendo o que ele nunca desvelou: meu sorriso.