sábado, 9 de junho de 2012

A Madrilena - Parte 1 de 2

Por Flávia Marques


Se havia uma mulher de fibra na região de Cabiceira do Rio Seco seu nome era Úrsula Rodrigues. Seu aspecto já demonstrava o temperamento prático e sua conhecida valentia. Trazia os cabelos grisalhos curtos, batidos na nuca. Não era magra nem gorda, mas de uma musculatura socada e rígida; debaixo da pele bronzeada por anos de trabalho em seu sítio. Viera com a família de Madri aos dezesseis anos, a bordo de um navio cheio de gente e peste. A voz grave e rouca emitia um leve sotaque espanhol. O pai estava a caminho da cidade grande para trabalhar nas fábricas, mas parou em Cabiceira e nunca mais saiu da cidade. Arrumou emprego nas terras do Coronel Amaral que, com o passar dos anos, cedeu-lhe um pequeno pedaço no qual fez um sítio. Úrsula era filha única e aprendeu com o pai a não depender de homem algum. Foi para ele o mesmo que dez filhos homens, o que lhe deu a firmeza e o caráter que rendeu – mais de um século após sua morte – a fama de justa e verdadeira.

Quando fez dezenove anos, Úrsula casou-se com Tomás Amaral, um dos filhos adotivos do Coronel. Deu-lhe nove filhos, todos homens, dos quais apenas quatro chegaram a idade adulta. Tomás, ao contrário da esposa, era um homem de sangue fraco. Não suportava o trabalho, fosse qual fosse, andava sempre às voltas de alguma dor ou doença inventada. Quando era posto contra a parede, chorava e alegava que sofria dos nervos.

Úrsula aprendeu a não dar ouvidos aos achaques do marido. Suportava sua fraqueza por amor aos filhos e consideração ao Coronel.

Na mesma noite em que o menino mais novo morreu de febre em seus braços, Úrsula recebeu o corpo do marido, trazido pelos amigos de bebedeira, vindos da casa de dona Iolanda. Parece que ele decidiu que não viveria mais sem a menina Vânia, a russa amazona, chamada assim por montar em seus parceiros de noitada de botas, esporas e chicote, pois sua especialidade era dominar. Pegou o próprio cinto e afivelou o pescoço nos caibros do teto até seu coração parar. Vânia assistiu a tudo sentada na cama, achando que fosse brincadeira, e que Tomás só estivesse com ciúmes pueris de seu casamento e futura partida. Quando percebeu que era tarde demais, chamou os amigos do homem, que o retiraram de lá, o vestiram e o levaram para a esposa. Úrsula velou pai e filho pelo resto da noite. No dia seguinte, antes de fechar os caixões, deu um beijo na testa do filho e, ao marido, sussurrou:

– Que grande bosta você me foi!

Assim Úrsula enterrou-se na viuvez aos trinta e cinco anos; consolando-se no trabalho com mais vontade ainda nas terras de seus pais. Viu, com o passar do tempo, os filhos casarem e partirem um a um, deixando-a na companhia de seus bichos e seu trabalho.

Quando completou oitenta anos, Úrsula ainda possuía a disposição de um guerreiro persa. Sua rotina não havia alterado em quase nada. Vivia do que plantava, mas depois de sucessivas enchentes, separadas umas das outras por períodos longos de seca, sua produção era escassa e mal dava para alimentá-la. Numa das épocas de grandes chuvas, no exato momento em que seu relógio anunciou meio-dia, e o céu um breve período de trégua, Úrsula ouviu, à sua porta, batidas claramente masculinas. Podia descobrir a altura e o peso do visitante antes mesmo de lhe abrir a casa, tal era a transparência de seus toques.

– Dia!
– Buenos!
– Desculpe-me incomodá-la, senhora, mas estou procurando um lugar onde possa trabalhar por um período em troca de comida. Estou exausto de viagens e, no caminho para cá, não encontrei quem me desse um gole d’água. Tenho força nas mãos e a disposição de um cavalo. Em troca de comida e um lugar para ficar, posso trabalhar quase sem descanso.

Úrsula apertou seus olhinhos cansados e perscrutou o rapaz à sua frente. Calculou que ele não tivesse muito mais que trinta anos. A voz possuía a firmeza dos que falam a verdade, mas sua pele era clara demais para a de um trabalhador braçal. Os cabelos castanhos precisavam de corte e a barba indicava uns três meses sem ver uma lâmina. Tinha, aproximadamente, dois metros e uns cem quilos bem pesados.

– Sente-se nos degraus da varanda. Eu já volto.

Continua na próxima semana...

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