domingo, 2 de maio de 2021

Poema rico

Por Oswaldo Antônio Begiato




Gostaria que abundantes me fossem
as palavras.
Mas elas me fogem
se fazem magras,
raquíticas,
e parcas.
(Me deixam mudo
diante desta mulher).


Gostaria que intensos me fossem
os diamantes.
Mas tenho apenas uns cristais
que se quebram quando meu olhar
os toca sem sentido.
(Me deixam pobre
diante desta mulher).


Mas tenho dentro de mim um coração,
que mesmo mudo,
bate enlouquecido
e como uma ostra vaidosa,
cria com o seu bater doído
a pérola mais linda
que já se viu.
(Me deixa como joia rara
diante desta mulher).


Me deixa como poeta
diante desta mulher.

sábado, 1 de maio de 2021

Tão sem destino

Por Meriam Lazaro




Navega, navega a maresia
em memórias de dunas macias
Enxuga esse pranto…


Encapela, encapela a agonia
em saudades nas horas tão frias
Abarca esse cântico…


Peregrina, peregrina e vazia
em solitária caravana que desafia
Segue o caminho…


Escreva, escreva a poesia
em escalada de sombra ou luzidia
Tão sem destino…


Sossega, sossega esta porfia
em tua evolução o Mistério confia
Como aqui veio…

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Um dinossauro chamado Monterroso

Por Mayanna Velame




E quando despertou,
mesmo depois de séculos,
o dinossauro percebeu:
o homem pré-histórico
ainda estava lá.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Você e mais ninguém

Por Nana Yamada




todas as vezes que estou assim
todas as vezes que me encontro assim
você é o único que me atura
é o único que percebe
é o único que compreende
é o único a palpitar
é o único a torcer
é o único que está aqui
nessas horas
como naquelas horas
sempre me dando essa liberdade
de ser quem sou
do bem que me fez todas as vezes
como da primeira vez
como todos os dias…

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Vento mensageiro

Por Fabio Ramos




QUE CHEGUE


até
você


(aonde estiver)


esse
vento:


que vire as páginas


do
livro


(e devagarinho)


venha
lhe


beijar


os
lábios


(...)


À JANELA DE ONDE


você
estiver


(com o brilho)


das
estrelas


haverá a luz da lua:


que
ilumina


por aí e também


mais
acolá


(precisamente aonde)


ele
está


unido ao vento


que
vai


lhe encontrar

terça-feira, 27 de abril de 2021

Finda

Por Denise Fernandes




Então, tudo finda. Finda o blog, finda o casamento, finda o sexo. O que parecia interminável, termina. E eu aqui, olhando uma cadelinha que não tem nem dois meses. Meu Deus, que graça! Mas também tem graça na vira-lata, cheia de catarata, deitada no quintal, no seu sono de velhinha.

Talvez o blog termine como uma nuvem que se desfaz em chuva. Como tantos relacionamentos que, se eram paixão, eram menos amor. Só sei que sempre fui cega: não dos olhos, não da vida, mas neguei a ferida. Fui sempre mais advérbio do que verbo. Medito de olhos abertos, vendo a bagunça da minha casa, sem nenhuma vontade de arrumar. Talvez eu esteja zen, sim, sem disciplina nenhuma. Hoje minha reza é em silêncio. Meu mal não é de amor, e eu não sinto falta de abraço. A caneta, o papel, a voz de quem eu amo me basta.

Lembro que meu filho chorou quando pegou o primeiro peixe na vida. O peixe brilhante, pleno de vida, brilhando na manhã. E seus olhinhos de criança cheios de lágrimas doces, seus lábios de criança bem vermelhos.

Nas minhas memórias, os dez anos do blog passaram num segundo. Levei mais tempo para nascer, um útero apertado, sombras e luzes do meu Brasil. Quem sabe o blog é como uma folha de papel, que pode amarelar com o tempo. E dentro da porta imaginária que se fecha, a Via Láctea aguarda quieta, infinita, melancólica e em êxtase.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

ardência

Por Ana Paula Perissé




há uma imagem que sobrevive
vívida
a coisa de muito estremecer


há linguagem solta
esvoaçante
que esmaga metáforas de não pairar


há 1´mundo
que me desconhece
a cada olhar que tenho
de ti


(arde na planta do rosto)

domingo, 25 de abril de 2021

Penitente inamável

Por Oswaldo Antônio Begiato




Onde há cruz, não há manto.
Onde há manto, lança-se a sorte;
Pois o manto não se divide
(Ele é peça única, sem costura
e a ele dono único será dado).


Não padeço de males pequenos.
Meus males vão além do túmulo.
Vão além da esperança. Além do material.


Aqui jaz o corpo novo de uma alma velha.
Nunca amada, nunca amou
(Assim quero escrito, com letra de forma,
na minha pedra tumular).


Pois assim foi minha vida.
Que seja assim, também, minha eternidade.