domingo, 14 de maio de 2017

Formiga

Por Oswaldo Antônio Begiato




Nunca quis ser
padre,
pedra,
podre.


Nunca quis ser
nobre,
cobre,
pobre.


Nunca quis ser
filha,
folha,
falha.


Nunca quis ser
bela,
vela,
dela.


Nunca quis ser
lente,
lenço,
lento.


Nunca quis ser
morto,
porto,
torto.


Nunca quis ser
rato,
ramo,
ralo.


Nunca quis ser
santo,
manto,
tanto.


Nunca quis ser
proto,
prato,
preto.


Nunca quis ser
mente,
pente,
gente.


Nunca quis ser
louça,
lousa,
louca.


Eu só queria ser
a lágrima
que a formiga
derramou
por sentir
saudades
da cigarra.

sábado, 13 de maio de 2017

O empréstimo

Por Meriam Lazaro




Quando ouço uma frase ou expressão, é comum vir à memória o trecho de uma canção, causo ou passagem de livro ou filme. Coisa de quem já tomou de empréstimo um tantão de coisas pela vida. Ao ouvir "me empresta", veio-me à memória o verso de uma música cantarolada pela minha mãe, e que eu não ouvia desde zitinha: Laura, me empresta um sorriso, do Pery Ribeiro.


Pensamentos ziguezagueantes me fizeram lembrar que, de tempos em tempos, se toma de empréstimo um nome tradicional para registro de dúzias de crianças nas creches, nas escolas. Laura é um bom exemplo. Curiosamente o empréstimo, cuja natureza é passageira, quantas vezes se torna permanente! Os casais românticos tomam de empréstimo de algum cantor sua música tema.


Quando nos pedem uma frase ou palavra de efeito, que utilizamos em nossa experiência, socorremos aos imortais. Quem é que nos empresta tudo isso? Como estou costurando letras (sem saber o que dizer), busco fragmento do livro A insustentável leveza do ser, de Kundera, no qual a fotografia de Hitler o surpreendeu; com evocação de memórias incríveis da infância. Tendo vivido durante a guerra, teve diversos membros de sua família mortos nos campos de concentração nazista. É difícil compreender essa reconciliação do autor com seu passado, pela fotografia de Hitler, mas confesso que é uma passagem da literatura que muito me toca. Usei aqui para dizer que, nem sempre, os empréstimos são livres escolhas.


Quem não se deparou com a repetição de um bordão ouvido ao acaso? Pois bem, décadas depois, o mesmo bordão pode nos surpreender com boa dose de nostalgia. Não sei de que caixa mágica vem tudo isso. Alguns podem dizer que é da fada madrinha ou do tempo.


Mas o que é o tempo,
senão o momento,
a palha da folha
que serve ao fogo
que lambe os números
lá do calendário?


O mais provável é que, até nós, estejamos aqui por empréstimo; com cláusula de devolução em aberto. Nada para se levar tão a sério, ok? Os americanos me emprestaram o ok... Alguém me empresta um sorriso?

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Triângulo amoroso

Por Mayanna Velame




Corte-me em cubos.
Já não pertenço
Ao teu círculo vicioso.


Resta-me o quadrado
Da tua solidão...


Vejo-te em ângulos opostos,
Somos retas paralelas.


Calculo tua fórmula de amar
Na figura de um triângulo amoroso.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Como o vento

Por Nana Yamada




Com o vento
Levou-se
Todos meus amores
Com o vento
Traz-me
Todas as lembranças
Como o vento
Tão suavemente
Sinto seus toques
Como o vento
Queria voar
Até você...

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Hospício

Por Fabio Ramos




tem
dentes
de coelho


(orelhas de coelho)


pés
de coelho


mas
insistem que
coelho
não
é


(...)


vão
ao
shopping
quando enfermos


pois como
dizem


a
doença
é construção social


que
não existe
certo
nem
errado


que chamar de
gostosa
é


INJÚRIA


mas
se autodefinir
como
vadia
é um elogio


(...)


dados
os transtornos


qual
será
o diagnóstico?


meu
caro


(na real)


quem tem boca
fala merda


(...)

terça-feira, 9 de maio de 2017

Mudar

Por Denise Fernandes




O centro é indizível; só faço vaguear e escutar. Na minha solidão, escuro do personagem, o destino silencia e só escuto um centro frio, infinito, dizendo eu. É o tempo. São as luas e os sóis espumados. É você e eu na solidão da palavra; o que vai no sangue, além da razão. O que vai no sentido, além da paixão. Uma solidão de entendimento. Moras na palavra? Ou moro eu sozinha, como a solidão da espera de muitas cartas e de um cem número de palavras? Moro eu sozinha com todo meu barro e pó de cem milhões de anos, origem e escavação.

Perversão da manhã. Perversão da mão do prazer de mim. Sorte no amor, azar no jogo. Quero o azar até que esse fogo termine dentro de mim. Até que fique zero a zero, na vida e na morte, no gelo e no fogo. Até que esse azar cesse o fogo, e a morte dentro de mim.

Queria ser "de verdade", e não sou. A palavra certa: impossível, imóvel mar suspenso, antiga ilha. Digo sol, verdade, amor, amar invadindo a palavra certa. Esqueça: a palavra certa, cravada, jamais será dita.

Cola minhas mãos no teu corpo e aguarda. Te amar era uma delícia adocicada pelo não-sempre. Quero arrancar essa marca até que, de sua raiz, brote alegria. Meu mal de amor é que não cessa meu esquecimento de mim.

E a última palavra, não-dita, é renasça. Renasça como puder, nem que das cinzas surjam apenas dragões ou fantasmas.

Olho o retrato desesperado de mim, que ainda sou a "mesma". Entende minh'angústia? O fio que se partiu...

Para perguntas infinitas, infinitas respostas. Arcanjos do bem e do mal, nada sabem de mim, de ti, do resto do mundo. O silêncio é a boca oportuna do caos. Mas eu vigio: observo o movimento.

Meu coração lhe telefonou mil vezes essa noite. O tempo do nosso amor insistente, talvez inexistente, em colapso de amor. Ouça, meu coração, para não ficar assustado nem com seu ridículo, nem com sua fome. Quero você e não quero. Seu corpo é uma caverna secreta.

Mudar é seguir. Bem melhor que o nada.

No hospício do mundo, nosso amor é essa abstinência, essa vontade de dominar, essa luz. No buraco do mundo, nosso amor é água; é essa rata parindo pares de olhos inocentes, que suspiram e contaminam suficientemente o ar. Nosso amor é essa vertigem.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

cheiro de sal

Por Ana Paula Perissé


Imagem: Alina Louka


                                      Cheiro
                                      nos olhos
                                      alma nas vísceras de um desejo


                                      cheiro
                                      amalgamado de tempo
                                      na sílaba
                                      ou no tom de cada murmúrio
                                      in-significante
                                      cheio
                                      dentro do mar
                                      em ondas
                                      que se fazem nossas


                                      cheiro de sal
                                      suor banido
                                      de nosso percurso
                                      de um
                                      ora vai, ora volta
                                      ora chora ora regozija


                                      cheiro
                                      que jamais partirá de mim
                                      dos dois?
                                      Ti.
                                      Uno
                                      em várias nuances cheirosas
                                      cais em plenitude
                                      revolto
                                      manso
                                      livre de tanto sentir


                                      cheiro
                                      salgado em duo
                                      sentido
                                      e cindido em Uno

domingo, 7 de maio de 2017