quarta-feira, 6 de abril de 2016

Esqueletos

Por Fabio Ramos




se
outro amo
escavas
em
teu jardim


o
que
pode vir à
tona?


o
que
deverá
permanecer
nas
sombras?


se a
vergonha
lhe
soterra


se a
consciência
lhe
imputa


(escondas)


o
que
ninguém


atina

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Chorare III

Por Ana Paula Perissé




                            será.
                            já brincaste
                            com a brisa do mar
                            tua face ao vento
                            sentindo meu perfume
                            distante mas inteiro
                            só para ti?



                            será.
                            algum dia
                            ouviste a voz das ondas
                            de meu corpo
                            ou a música de meus afectos?



                            será.
                            já sorriste
                            para esta loucura
                            que existe sendo
                            apenas só minha?



                             já te fui um pouquinho         
                             tua?



                            ( a loucura que atravessa minhas cicatrizes
                            reconduz-me
                            sempre
                            de volta
                            aqui,
                            caramujos sem jardim.)

domingo, 3 de abril de 2016

Inacabada

Por Oswaldo Antônio Begiato




Foste tu que vieste me benzer
Com o rosto coberto por um véu
E o corpo negro e seminu?


Foste tu que tingiste a seco
Minha túnica de escarlate
E minhas sandálias de terra?


Foste tu que maculaste
Meus lençóis com orgasmos
E minhas pegadas com sangue?


Foste tu que negaste
Se refletir na lente de meu cristalino
E depois oraste sem me tocar?


Foste tu que cobriste
A noite com o manto da saudade
E o dia com os raios da espera?


Foste tu que prometeste
Amar-me por toda a vida
E depois morreste de repente?


Foste tu?
Foste tu que partiste sem me benzer?

sábado, 2 de abril de 2016

Ensaio fotográfico

Por Meriam Lazaro




O gosto da fotografia é o gosto do olhar da gente.
Há olhos que enxergam longe e dão ao foco um quê de ausência.
Há olhos que gostam da imensidão intocada, a não ser por outros olhos.
Há olhos assanhados como o vento
A varrer folhas, erguer saias, derrubar placas.
Há olhos puxados ao detalhe:
O galho seco, a sombra no muro, o tronco caído, a bicicleta.
Há acima de todos os gostos o gosto do olhar que conspira com o silêncio.
O gosto da fotografia é o gosto de quem quer, em vão, reter o tempo.
Para todos os olhos, há olhares que a beleza espreita.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Simultâneo

Por Daniella Caruso Gandra




Somos simultâneos à medida que pontuamos. Nos espaços que por ora nos habituamos, exclamamos, como se por um fio estivéssemos; para sonorizar o que por dentro pausamos. 


Nas incertezas que lado a lado, aos poucos, interrogamos, nem sempre ao encontro do que esperamos, pois, ansiosos, à estaca zero retornamos. 


É quase sem querer: somos levados a compreender que não tem por que substantivar o que nos é característico. É só um jeito de ser, muito camarada, pouco rasteiro, mas ainda frágil, já que se rompe fácil. 


Embora estejamos constantemente raciocinando, é na emoção onde mais nos gostamos. Por prazer, atenção prestamos. De que adianta viver de queixumes, sem enfeitar com flores os rios que transbordamos? 


E a cada dia, nas rasas mortes que vivenciamos, como sentinelas, vamos acomodando o bem e o mal. Por dentro e por fora. Aprendendo a incluir o amargo nos momentos doces. Neutralizando o que fomos ontem.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Why Beauty Matters

Por Fabio Ramos




os
arcos em
pedra


que
envoltos pela
névoa


(daqui)


por
este
ângulo


um
busto
com séculos
de idade


no
recinto
e na história


(...)


são
vários
detalhes


(acabamento)
(entalhes)


quando
bate
sol
feixes
perpassam
vitrais e grades


se
tem chuva
raios
e claridade


(...)


direito
que chega
às
nuvens


tão
apenas


do
passado
e no presente

terça-feira, 29 de março de 2016

Palavras

Por Denise Fernandes




palavras de amor que ficaram

ressoando dentro de mim

no ambiente burocrático

tudo parece de plástico

menos eu e as palavras.