quarta-feira, 15 de abril de 2015

Ô de casa

Por Fabio Ramos

 
 
 
uma légua
e meia
de
pernada


vindo
de
acolá


com destino
ao além


(...)


na estrada
de terra


quando
passa
um
carro


sobe aquela
poeira
do
chão


é o olho
que
arde


a
garganta
que
fecha


se
não for
incomodar


(...)


água
do
filtro
de barro


na
caneca
de alumínio


aqui moço
(beba)
 

terça-feira, 14 de abril de 2015

ASSIM

Por Denise Fernandes




NA VERDADE, É SÓ ISSO
 
COMO ASSIM?
 
NA VERDADE, É SÓ ISSO
 
COMO ASSIM?
 
ASSIM, ASSIM SENDO
 
ASSIM, SIM
 
ASSIM, SEM MEDO
 
SEM CULPA
 
O VENTO E O MAR
 
COMO ASSIM?
 
É QUE NA VERDADE, É SÓ ISSO.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Chardonnay

Por Ana Paula Perissé



 
                                    o travesseiro me conta
                                    histórias vãs
                                    como posso acreditá-las?
                                    de seu lilás o mais
                                    eloquente
                                    diz-me da menina que sumiu
                                    aos goles de sua senhora blanc
                                    ao vislumbrar
                                    numa taça de cristal
                                    
balançante
                                    inquieta
                                    a passos tão delicados
                                                              o encontro de sua
                                                                                fonte
                                                                       metonímica
                                    de causas contadas
                                    sentidos
                                    olhos fechados
                                    diante do espanto
                                    de ser
                                    apenas
                                    1´mulher.

 

domingo, 12 de abril de 2015

Varanda

Por Oswaldo Antonio Begiato




Na varanda da casa que não tenho,
coloco a cabeça no mundo da lua
mas fico com os pés no chão firme.
No chão, teço caminhos e sei que jamais os palmilharei.
 
 
Na varanda da casa que não tenho,
rezo o terço de cada dia,
faço a procissão passar com os santos em seus andores.
Caio de joelhos diante de um Deus que não é meu
nem eu sou Dele.
 
 
Na varanda da casa que não tenho,
leio o livro do poeta decrépito
cheio de versos moribundos.
Aprendo novas rimas,
nas entrelinhas do pensamento.
Com pena nas mãos escrevo com letras mortas
a poesia que não me ressuscitará.
 
 
Na varanda da casa que não tenho,
fico pensando no amor verdadeiro
e de viola em viola componho canções novas.
Os pássaros gostam de ouvir mas meu amor, não.
 
 
Meu amor; aquele que não veio nem nunca virá.

sábado, 11 de abril de 2015

De malas prontas

Por Meriam Lazaro




– Na viagem para outro mundo, ainda na Terra ou não, o que você escolheria levar para lá?
– Como assim? Objetos? Eu levaria um livro, aquela autobiografia do Jung: “Memórias, sonhos e reflexões”. Uma canção, embora quase impossível escolher, levaria a nona sinfonia de Beethoven.
– E o que mais?
– Creio que mais nada. E você? Se fosse para outro planeta e lhe concedessem levar uma memória apenas da Terra, o que escolheria?
Já que estavam no terreno das possibilidades, o amigo pensou bem antes de falar.
– De tudo que já presenciei, considerando uma beleza exterior, escolheria levar na retina a imagem do pôr-do-sol de sábado passado.
Ambos ficaram em silêncio, lembrando do grande espetáculo visto acima do rio que margeava suas cidades, ainda que morassem em pontos distintos do mapa. De repente, o último que falara disse:
– Também levaria a lembrança das coisas boas que pratiquei.
– “Caraca”, cara! Devo ter praticado alguma coisa boa, mas o quê? Não me lembro de nada agora?
– Então, pense em três delas apenas. Coisas simples. As coisas boas não precisam ser grandiosas. Aquele abraço que você deu em alguém, que já estava no limite do cansaço, e o fez reabastecer-se de energia para mais duas horas de palestra. Aquele dia que você ficou cuidando da sobrinha, enquanto sua irmã ia fazer a prova do concurso, mesmo deixando de ir ao estádio para assistir a partida final do campeonato. Algo assim.
– Ah, tá. Coisas assim, eu fiz bastante, mas é incrível como só pensamos em gestos grandiosos como válidos. E você? Se estivesse de malas prontas para embarcar para outro mundo, o que levaria na bagagem?

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O mundo

Por Mayanna Velame




“Não, meu coração não é maior que o mundo / É muito menor / Nele não cabem nem as minhas dores”.


Drummond, eu, você... Quem de nós nunca carregou (ou carrega) sentimentos doloridos na alma? Há dias que nos sentimos desnorteados, frente às circunstâncias da vida. Não temos como evitar. As decepções, as frustrações e os medos, cedo ou tarde, irão nos confrontar.


E é nesse confronto que, de repente, nosso coração – fortaleza das emoções humanas – se torna pequeno, indefeso. Drummond redigiu esses versos na segunda fase de sua obra poética (entre 1930 e 1940). Nesse período, sua poesia volta-se para as questões sociais da época: o crescimento do nazi-facismo, a guerra na Espanha, a Segunda Guerra Mundial e, no Brasil, o surgimento da ditadura Vargas.


Os anos passaram. E por mais que a sociedade se enquadre em novas tendências, ainda assim, somos testemunhas de que o mundo permanece assombrado; refém do egoísmo humano, do extremismo religioso, da intolerância, das incertezas políticas, das crises econômicas.


Drummond parecia de fato entender que os entraves afetariam nossa vida, causando descontentamento: “A rua é menor que o mundo / O mundo é grande”. E é nessa grandeza do mundo que, cada vez mais, nos perdemos (com a atrocidade dos homens).


Sitiados pela crueldade humana, vamos vivendo. O medo reside em nós. Basta lermos os jornais, basta vermos as vidas que são extintas, aqui na esquina, ou do outro lado do planeta. Difícil suportarmos tantos desafetos. Sendo assim, para aonde caminhamos? Seguimos para o Norte, o Leste, o Oeste ou o Sul? Não sabemos. Mas insistimos nessa peregrinação. Desacordados e, com os olhos vendados, ainda podemos reconstruir esse mundo, demolidor de sonhos.


“Então, meu coração também pode crescer / Entre o amor e o fogo / Entre a vida e o fogo”. É dessa forma que Drummond sabiamente finaliza o poema “Mundo grande”. Seus últimos versos nos levam a supor que a vida e o amor estarão sempre nesse embate: entre a guerra e os tropeços do homem. De certa forma, o mundo é grande, fora de controle e impossível de mantê-lo em nossas mãos. Porém, nosso coração é extraordinariamente manso e prudente. Ele ameniza as dores que, de vez em quando, nos visitam, sem pedir licença.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Um enfermo sem imaginação

Por Amilcar Neves*

 
 
Algacyr Osório, filho de Algamedes Osória e Cyro Osório, é um escritor desconhecido do Sul do Estado. Natural de Meleiro, formou-se em Direito por faculdade de Roraima, foi aprovado em Exame de Ordem pela Seccional Acre, transferiu-se para Santa Catarina e atua na cidade onde nasceu e em povoações adjacentes. Sua verdadeira paixão, no entanto, é a boa e velha Literatura lida em livros de papel e escrita à mão em blocos de folhas finas e pautadas, objetos cada vez mais raros hoje em dia. Para evitar surpresas desagradáveis, encomendou à fábrica um lote de dez fardos de 50 caixas com 40 blocos de carta cada uma – antes que resolvam produzir apenas o que interessa à sociedade do século 21.
 
Não há por que estranhar esse pedido monstruoso, pois só o é em aparência: trata-se do fato de que, meticuloso e perfeccionista, Algacyr Osório não admite rascunhos rasurados, borrados ou rabiscados: ele os vive passando a limpo, de alto a baixo, caso uma incorreção qualquer polua o seu texto. Então, com uma letra redonda e grande, vistosa e imponente, Algacyr Osório gasta bastante papel para manter seu texto sempre imaculado. Como se fosse uma tela de computador.
 
Apesar do considerável volume da sua produção, Algacyr Osório continua desconhecido, embora não inédito: fora as peças jurídicas, como procurações, termos de confissão de dívida, requerimentos, contestações, recursos e iniciais, são de sua lavra e autoria todos os discursos e artigos, pronunciados uns, assinados os outros pelo prefeito municipal de Meleiro. Os artigos, em especial (posto independerem da dicção prefeitoral), têm obtido boa repercussão microrregional pelo fato de aparecerem em hebdomadários até de Araranguá e Criciúma.
 
Façanhas maiores de Algacyr Osório, em nome do alcaide, foram a extrapolação das fronteiras catarinenses, quando uma peça tratando do cultivo de arroz nas várzeas de Meleiro saiu numa publicação de Osório, RS, e a penetração no centro do poder estadual, com um texto sobre as festas típicas do município, o qual se viu abrigado em um diário da Capital.
 
– O diabo, primo – costuma ele reclamar para Manoel Osório –, é esta gripe que me assola quase a cada mês, com suas dores e inconveniências todas que a acompanham: onde conseguir a inspiração para bordar uma peça literária à altura das tradições do nosso querido líder, o prefeito da cidade?

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 25.08.10

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Senhor de Si

Por Fabio Ramos
 
 


vivia com
base
no
futuro
 

o amanhã e
o depois
 

no
presente
 

vive
o hoje
e o agora
 

(sim)
(por si)
 

antes do
fim