terça-feira, 15 de abril de 2014

Fogão Novo

Por Denise Fernandes
 
 


         E eu não sabia que ficaria tão feliz com o fogão novo. O fogão sonhado, inesperado presente, inaugurava uma nova fase em minha vida, sim, ali onde a diferença entre o singelo e o oco é um bolo novo no fogão novo.
 
         Como um sonho que sonhei e se realizou, o fogão novo representa muito mais que o calor com que aquece nossas comidas. O fogão novo é o tempo que deu certo em minha vida, sonho comedido, mas também sonho farto de muitas comidas. O fogão novo é o real cheio de prazer, além do sonho que se transforma em chão. Sim, ainda vale a pena sonhar, ainda dá tempo.
 
         O fogão novo se manterá novo por um bom tempo, se Deus quiser. Eu que preciso da novidade desse fogão, passo pano até brilhar, até ser espelho no fogão. E me vejo em cada pudim, cada carne refogada, naquilo que mexo nas panelas e nos meus desejos. O fogão novo acende mais espaços para os meus desejos. O fogão novo tem encantamento de sonho realizado, tem intenção. É objeto, mas não é inanimado, é animado embora não se mexa como nos desenhos animados. Mas diria que meu fogão novo sente. Sente os novos tempos, meu fogão novo representa a energia que preciso para continuar em todos os sentidos bons. Meu fogão novo cozinha a vida para ela ficar mais saborosa.
 
         Meu fogão novo é tão maravilhoso que não é só meu. Ele é um fogão que ama. Meu filho acende o fogão sabendo que ele é um sonho que realizou, fonte nova de energia para nós que já perdemos algumas batalhas. Ele é um fogão que é um mini sol, onde nossa fome nos seus espelhos tem solução. Nosso fogão novo é uma raiz com o sempre novo vivente. Nosso fogão novo é mais profundo que muitos computadores, porque não trabalha com informação, trabalha com nossa formação.
 
         O fogão novo funcionando aguarda a fome do filho, a minha fome de cozinheira, experimentando, misturando. No calor da comida feita, esqueceremos nossas piores dores. O fogão novo é uma das pequenas portas que nos conduzem ao paraíso.
 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

pré-simbólico

Por Ana Paula Perissé
 
 
Imagem: Rene Schute


                                              (verbete de suor
                                              é silêncio ou grito)

                                              punhado verborrágico
                                              esquece do que há
                                              só com olhos de ver
                                              ou pele de rasgar:

                                              alheamento palavra

                                              não há pretensão
                                              de ser poema
                                              nesse hiato
                                              de quase-mundo.

                                              (só há voz
                                              em gozo
                                              no sentido
                                              a 2

                                              .
                                              .
                                              .

                                              incontrito)

 

domingo, 13 de abril de 2014

sábado, 12 de abril de 2014

A serviço de Sua Majestade

Por Meriam Lazaro
 
 

 
Diante da página branca, me ponho a serviço de Sua Majestade. Sei que ela me confortará, mas não sei o que será dito. Ainda assim me dedico a escaramuças. Não é sempre que recebemos a visita do leão. Como aprendi a máxima de que todo problema traz em si a solução, busco calma. No roteiro de sábado, passar roupas, organizar papéis, começar a leitura de um novo livro. Nada, porém, me faz esquecer o desafio de garras afiadas. À noite haverá o baile da cidade, que minha amiga, Clarice, pensa que é para ela, também ariana do mês de março, com alguns séculos a menos que Porto Alegre. Logo mais quero estar tranquila para a festa. Talvez a máxima não seja para tudo... Que fazer? Matar o tempo antes que a preocupação me mate. Exagerado era o Cazuza. Por falar em morte, lembrei-me de outras duas amigas, Ana e Célia, que diziam querer viver somente até os 50 anos, pois tinham horror às limitações da velhice. Já ultrapassaram a marca e, no entanto, estão por aí bem faceiras com seu sonho fracassado. Um assunto leva a outro, lembrei-me que também já ultrapassei a minha marca. No meu caso, achava lindo morrer aos 23 anos. Não sei a razão de expectativa tão abaixo da média. Caso você não tenha percebido, não obtive sucesso. Neste mundo, onde o sucesso é supervalorizado, até sonhei com um luminoso em neon: A Fracassada... Pronto. Não é que uma das amigas citadas, a Célia, é fera em domar leões?! Sua Majestade, a Palavra, trouxe-me mais uma vez a calma esperada. Agora, é pôr os Beatles para tocar e divertir-me com o roteiro do dia.
 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Um livro para o meu amigo secreto

Por Amilcar Neves* 
 


Ninguém imagina quanto agradeço aos céus pelo amigo secreto que me coube presentear! E presentear com um livro, a delicadeza mais nobre que se possa imaginar!
 
O meu amigo secreto é... - Roberto Carlos!
 
Comprei o livro que te presenteio na Shakespeare & Co., de New York, em dezembro de 2003. Esperei esse tempo todo por alguém que o merecesse. Não vou te contar que custou 1,50 dólares, mas é a tua cara, amigão. Melhor: a imagem da tua cabeça, do teu cérebro. Tenho certeza que vais A-DO-RAR! É leitura que não cansa nem chateia. Leva por título William Morris Notebook, numa edição da Dover Publications, Inc., de Mineola, NY, e compõe-se de 64 páginas - todas em branco, de um vazio imaculado!
 
Nele, Betão, nas entrelinhas do texto, descobrirás que contam a tua história. O que é inadmissível. Sei que processarás o infrator e ganharás muito dinheiro com isso! Desejo-te augusto sucesso nesses teus empreendimentos à margem da música.
 
Aliás, vou mandar buscar outros exemplares da obra: há mais gente, inclusive em Santa Catarina, que faz jus a igual mimo.

* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 24.12.13

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Charada

Por Fabio Ramos
 
 


entre dedos
mas não
é
cigarro
 

larga nódoa
mas não
é
vinho
 

pode morder
mas não
é
carne
 

pode falhar
mas não
é
arma
 

(desisto)
 

que
diacho
será então
 

quiridu?
 

terça-feira, 8 de abril de 2014

Pensamentos

Por Wagner Silva
 

Pensamentos perdidos na mente.
Pedem para sair, partir, seguir em frente.
Parte deles encontra a saída.
Os remanescentes anseiam pelo mesmo.

 
Estão aprisionados? Ou simplesmente não amadureceram?
Por mim, estariam livres, tão logo desejassem.
Porém, nem sempre sei como desatar os nós, quebrar as correntes.
Então, sigo pensando.
 
 

Paulista que reside em Salvador (BA).
Formado em Ciências Biológicas e mestre em Zoologia.
Autor do blog Codificando Ideias.