quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Infância é

Por Fabio Ramos
 
 

 
pedra
é tesoura
é papel
 
dois ou
um
 
dominó
 
brincar de
pega
pega
 
é
bater
figurinha
 
é rodar
pião
 
futebol
de
botão
 
sela
 
cabra-cega
 
chinelada
na
perna
no braço
na
bunda
 
levar ponto
na cara
 
estilingue
na
mão
 
é
pera
uva ou
salada mista
 
forca
 
jogo
da velha
 
é rua
é rua
 
é
corrida
de
saco
 
é ou não
é?
 
equilibrar
a vassoura na
ponta do
 
etc.
 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Busca

Por Denise Fernandes
 
 


                          É uma busca. Lembra? A insustentável leveza do ser!
                          Salve-se quem puder, a vida.
                          Vi três vezes esse filme.
                          Eu, caçador de mim.
                          Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres,
                          cem anos de solidão,
                          memórias, sonhos, reflexões,
                          a procura continua sempre,
                          perto do coração selvagem,
                          e em filmes de amor,
                          onde sonho como se já tivesse encontrado.
 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Moço

Por Ana Paula Perissé
 
 
Imagem: Cecile Veilhan

 
Para o aniversariante desta semana             
 
 

                                          só te viajo
                                          porque receio muita paz.

                                          e como ondulações
                                          és como fulgura
                                          teu maior brilho:

                                          vôo.

                                          (em entranhas
                                          únicas)

 


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Meu pai, meu poeta!

Por Oswaldo Antônio Begiato
 
 


     Meu pai foi poeta sem nunca ter escrito um único verso.
     Poeta do amor mais puro e profundo que já vi.

     No dia em que completei trinta anos
     mandou buscar para minha mãe a orquídea mais bonita de Jundiaí.
     O cartão dizia que há trinta anos ela o tinha feito, pela primeira vez,
     o homem mais feliz do mundo
     (sou o primeiro filho deles).
     Minha mãe disse com todo encanto do mundo:
     - Como você é bobo, Milton! E riram um riso casto.

     Minha irmã caçula, depois de onze outros partos de minha mãe,
     nasceu no dia nove de maio de mil novecentos e setenta e um
     (dia das Mães, naquele ano).

     Meu pai deu a ela o mesmo nome de minha mãe Regina – Rainha.
     Quando chegou com a certidão de nascimento em casa
     minha mãe com o mesmo encanto de sempre disse:
     - Como você é bobo, Milton! E riram um riso casto.

     Quando estou muito triste gosto de imaginar
     o quanto de poesia ele fez entre o primogênito e a caçula deles. E rio. Apenas rio.

     Com eles aprendi que poetas são bobos.

 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Grão

Por Meriam Lazaro
 
 


                                            Morreu-me um amor.
                                            Nascerá outro?!
                                            Porque nem tudo
                                            o amor descrente,
                                            amor miúdo, vai suportar.
                                            Por isso acaba.
                                            A dor de espada finca graúda,
                                            travessa mágoa
                                            (maior do mundo!),
                                            está na perda do amor eterno
                                            que só a arte sabe criar.
                                            Porém teimoso, o amor da gente,
                                            por troça ou graça,
                                            espera breve recomeçar.
 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Adeus

Por Mayanna Velame
 
 


Tentou ser forte, implacável. Os olhos se negando a voltar ao passado. O corpo dizia “não”, mas a alma queria gritar para o mundo um único sim, definitivo e eterno. Na verdade, o que poderia ser eterno? O amor? A paixão? Ele queria ficar.
 
Os escritores sabem que tudo na vida é efêmero. Ele sabia disso. Nunca havia amado de fato, almejado ninguém. A primeira despedida é sempre arrebatadora. “Nunca entregue seu coração” – dizia o pai. 

O apaixonado quis ser racional, o sentimento é arquiteto de armadilhas. Qual o segredo para trancar a porta do coração? 

Procurou encontrar respostas nas estrelas. Subia os montes mais altos da cidade, percorria escadas para chegar ao último andar dos prédios. Tudo em vão: as palavras escritas nas cartas de amor, o telefonema em meio à lúgubre madrugada, o beijo recebido na silenciosa sala de estar.  

O adeus óbvio o agonizava, na medida em que as roupas eram postas na mala surrada e sem zíper. A vida é tétrica, mesmo quando os sonhos se projetam fantásticos em nossa mente tão ínfima. 

Olhou ao seu redor. O quarto? Lugar secreto das noites de promessas que nunca foram cumpridas. A cama coberta por lençóis frios, a chuva amaldiçoando as vidas. O que mais poderia acontecer? A resposta saía naturalmente de sua boca: nada. 

Sentou-se à beira da cama. A mala ao lado, entreaberta. Deita fora suas vestimentas. Abaixou os olhos e lembrou-se do tempo em que a felicidade se resumia a abraços, beijos, sexo. Um novo horizonte se lançava: um filme extraordinário, protagonizado por dois seres tentando se completar. 

O adeus é completo. O que ele tinha em mãos seria roubado pela vida. A vida não é círculo perfeito, ela tem o seu fim muito bem elaborado. Filosofias à parte, o tempo se espatifava no ar. A penumbra escondia seu rosto. Suas emoções alojadas no âmago das recordações mais sinceras. 

Por que pensar nos bons momentos? Ele sabe que o passado é preso no seu próprio tempo. Recordar é ferir, apunhalar cada vez mais o que chamamos de sentimento. Balançou a cabeça como se não entendesse, ou melhor, não queria aceitar o fim de tudo: o fim do amor, da paixão, da felicidade. 

A mala em mãos suadas, o olhar fixo na janela que também chorava – queremos sempre vencer, quando a vitória não é a nossa melhor amiga. A porta estava ali, pronta para ser aberta; o quarto ficaria vazio, sem vida; os móveis não fariam sentido, não teriam utilidade. O benefício do amor é a solidão. 

Pensou em tudo, menos em si. O melhor era esquecer o que jamais seria esquecido. Fatos marcantes são cicatrizes na alma. Em passos curtos partiu. A mão na maçaneta, a porta lhe apresenta o corredor escuro. Nenhum bilhete escrito, nenhum recado enamorado.

Não! As palavras, muitas das vezes, nos fazem sofrer. Mas ele estava convicto que o silêncio de uma pessoa assassina qualquer esperança. Ele fecha a porta, segue seu caminho. A sombra reflete nas paredes. É sua última permanência naquele prédio, onde conheceu a outra face do amor: o amor não eterno.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Experiências extremas (no sentido de opostas)

Por Amilcar Neves*
 


A queixa é mais ou menos assim: "Um absurdo, um escândalo a exploração desses convênios de saúde! Cobram uma fortuna dos segurados e pagam uma miséria para os médicos credenciados! Pouco mais de cinquenta reais por consulta quando qualquer idiota sabe que Medicina é dos cursos mais dispendiosos para os alunos, mesmo em universidade pública! Imagine: são seis anos de faculdade, mais dois de residência obrigatória, mais três longos anos, no mínimo, de especialização, mais congressos, conferências e simpósios a fim de manter a indispensável atualização, a necessária sintonia com o estado da arte em sua área, para ganhar cinquenta reaizinhos por consulta! Por baixo, 11 duros anos de banco escolar para, como profissional gabaritado, receber a ninharia de cinquentinha!"

Todo mundo já ficou com pena do seu médico, xingou o governo que não fiscaliza e os convênios que abusam, e sentiu-se, no mais íntimo da sua alma, o maior culpado pelo fato de que, mesmo involuntariamente, estamos causando um grande dano ao profissional da saúde que, no geral, costuma mostrar-se dedicado e atencioso. Isto sem contar que é cada vez mais difícil conseguir marcar hora com um especialista - na hipótese de ele integrar os quadros do teu convênio de saúde -, deixando-te a impressão de que estás procurando consulta e tratamento pelo SUS.

Assim, foi uma surpresa enorme quando a mulher ligou e a secretária do badalado médico, cujos nome e fotos vivem saindo nas colunas sociais dos melhores jornais da região, disse que ela podia escolher o dia, "até mesmo para a tarde de hoje", completou.

- Sempre tem horário disponível?

- Sempre, o Doutor sempre consegue encaixar mais um paciente.

Isto pode ser bom ou ruim, ela pensou, mas precisava do atendimento e escolheu um dia em que o marido também tinha médico marcado, assim os dois poderiam ir juntos no mesmo carro, o que os faria contribuir para a redução dos congestionamentos urbanos.

O médico do marido ficava a três quadras do seu, ela esperaria um pouco até ser atendida no horário marcado para ela, depois seria a vez dele esperá-la. A consulta dele durou pouco mais de 30 minutos:

- Conversamos sobre livros, literatura, filosofia, ideologias, ditaduras latino-americanas, medicina e até sobre a minha saúde - ele contou depois, satisfeito da vida com o atendimento humano recebido. - A 50 reais por consulta, meu médico fatura quatro mil por semana trabalhando oito horas por dia e 18 mil por mês - 27 mil se consultas levarem 20 minutos -, o que não é valor desprezível. Considerando cirurgias e exames complexos, seu ganho é maior.

A mulher estava possessa:

- Vocês lá batendo papo nessa vergonhosa conversa fiada e eu aqui esperando neste calorão, nesta sala imunda e apinhada de gente! O sujeito mal olhou na minha cara, não quis nem espiar os exames que a médica da emergência do convênio me pedira - ela não é especialista, falou, não sabe de quais exames eu preciso -, prescreveu os mesmos exames que ela, mandou-me voltar quando tivesse feito tudo no laboratório que ele indicou e me despachou. Tudo isso em quase 3 - três! - minutos de consulta! Ele atende todo mundo rápido assim, até as consultas particulares.

O marido rapidamente fez as contas: são 20 consultas por hora, 160 por dia, 800 por semana, 3.600 por mês, o que daria a bagatela de 180 mil reais de honorários se atendesse apenas clientes de convênio.

- Realmente, é um escândalo esse negócio dos planos de saúde...

* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 29.01.14

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O Visitante

Por Fabio Ramos
 
 


som de
campainha
,

olho mágico
escurece
,

uma chave
a girar
no
buraco
da fechadura
,

entre
por favor
ela
convida
,

é o
desenho
na moldura
,

é a
estante
com livros
,

essa
energia
do
ambiente
,

esse dom
para
acolher
,

ele
adora
tudo que
,

o sentimento é
recíproco