sábado, 16 de maio de 2020

À toa

Por Meriam Lazaro




Sentindo o vento na face
Da dor eu me dissocio
A mulher nova renasce
Na flor em pleno estio


Caminho pela cidade
Deixando o ninho vazio
Os sonhos da mocidade
Sensualidade ou cio


Eu sigo à toa na vida
Não penso em felicidade
Em cada esquina há guarida
Depois adeus e saudade


No espelho vejo perdida
Antiga face e coragem
Da noite compadecida
Em beijo, bar e voragem


Mas antes que a vida passe
Em solidão ou miragem
Peço ao vento que me abrace
Pra seguir boa viagem

sexta-feira, 15 de maio de 2020

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Comida de primeira

Por Fabio Ramos




dessa
carne


(você não tira pedaço)


foi
um


aperitivo


para


dar o gostinho


(...)


não é
pra


(encher a barriga)


que se
vai


a
um
restaurante


grã-
fino


(...)


não
é
caindo


de
boca


na sobremesa


que
se
come


o prato principal

terça-feira, 12 de maio de 2020

A moda permanente

Por Maurício Perez



Já vimos de tudo, quando o assunto é moda: cabelo longo, curto, pintado, calça corsário, gravata de crochê etc. E sempre será assim. Com um pouco de tempo e dinheiro, as pessoas arriscam, compram e usam novidades. Enjoou? Cansou? Não gostou? Troca. Moda é sinônimo de efêmero. Por isso, surpreende ver a tatuagem virar moda. A única moda permanente.


Em poucos anos, a tatuagem deixou de ser a marca de marinheiros, presos e gangues de motocicleta, para estar presente em 36% de americanos entre 18 e 25 anos. Afastou-se do submundo, foi acolhida pelas massas, e tornou-se também uma indústria.


Há diversos tipos e tamanhos de tatuagem - e inúmeras razões para marcar o corpo: expressão da identidade, personalização, arte, "porque todo mundo faz" etc. E alguns motivos para pensar duas vezes antes de fazer: dificuldade para conseguir certos empregos (que, futuramente, desencadeará uma nova "luta contra o preconceito"), a pele envelhece e os desenhos se alteram...


No entanto, há algo que deveria ser apresentado com mais atenção. Nossa sociedade moderna orgulha-se de valorizar o que há no coração; e não dá importância a formas, ritos e fatores externos. Se é assim, por que marcar na pele o que levamos no coração? Das duas, uma: ou o protocolo, a materialização de realidades espirituais são importantes - e creio que sim - ou, então, a tatuagem é um grande erro.


A sociedade moderna tem pavor de compromisso. Medo do casamento, medo de ter filho, medo de algo que exija dedicação integral (e que não permita pular fora e ficar livre, a qualquer momento). Contudo, a tatuagem estará presente na pele daqui a dez, vinte, trinta anos. Quando a pessoa disser "cansei", "já não significa mais nada", "foi bom enquanto durou", "naquela época eu gostava de fulano, do Senhor dos Anéis e da Penélope Charmosa, mas minha cabeça mudou", o que restará além da lamentação? Teremos uma legião de tatuados arrependidos? Teremos jovens que não farão tatuagens para se diferenciarem dos pais? Eles conseguirão remover os borrões com eficiência? Quem viver, verá.


Há um conselho antigo, que caiu no ostracismo: antecipe as consequências. Antes de agir, pense se a atitude de hoje valerá a pena daqui a um, dez ou cinquenta anos.

É autor do blog Correio Chegou.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

mulher de pedra 2

Por Ana Paula Perissé




névoa cedo
desfigura-se assim
em paleta intensa de rubro.


vestida cedo
madruga sóis
em cores essenciais:


e como se fosse algo de terra,
cedo se refaz
enluarada
o róseo da mulher imaterial,
que me deixou.


altitude densa, porém.
despencam amanheceres
imóvel, sem enigma.


explícita. (deitada e nua
libido de céu,
era minha mulher)


Já é tarde.

domingo, 10 de maio de 2020

Autocrítica

Por Oswaldo Antônio Begiato




Antes a honesta crítica
ao elogio descabido.


Artistas há
cuja razão
é consumida
pelo fogo da vaidade.


Diante disso
preciso recapitular
as coisas
que ando pensando
a meu respeito.


Besta como sou
é bem capaz
de me julgar poeta.

sábado, 9 de maio de 2020

Nada mais

Por Meriam Lazaro




Cadeira vazia
Silêncio e vontade
Sol que arrepia
Na pele que arde


Sempre arredia
Caminha na tarde
Flor que foi um dia
Hoje é saudade


Quanta nostalgia
A retina invade
Por que foste fria
Minha mocidade


Densa agonia
Neve a alma invade
Com melancolia
Versos sem alarde


Folha rodopia
Dança sem maldade
Falta eucaristia
Tempo e vaidade


Velha sinfonia
Segue com a idade
Cala a euforia
E a eternidade


Nada mais havia
Singular verdade
Adeus e elegia
Gestos de bondade