sábado, 8 de dezembro de 2018

Inconstância

Por Meriam Lazaro




Já fui nuvem inconstante,
cinza, branca, rosada...
Já corri atrás da forma
por gurus iluminada.
Apressada voei ventos,
fui passageira, mutante,
brinquei circos, corri palcos,
deixei a mão na calçada.
Já quis parar a aurora
para não sentir mais nada.
Hoje, triste ou feliz,
sombria ou muito amada,
com a vida por um triz
sou céu que a tudo abarca.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Amigo

Por Mayanna Velame




Eu te conheci numa tarde ensolarada, de poucas nuvens no céu. Não havia muito o que fazer ou pensar. A vida me rodeava em pensamentos soltos e desconexos.


Sem pretensão alguma, você me olhou, perfilado entre tantos outros. Meus dedos passearam entre as lombadas empoeiradas, até tirá-lo da posição, para ganhar morada em meus braços. Senti você como quem sente o amor pela primeira vez. E, desde então, não pude te deixar.


Através da razão e da emoção, tu impregnaste em mim; enquanto as palavras eram refletidas nas minhas retinas. Tu me abriste o mundo. Viajei além da janela aberta da sala. Com você estive no Rio de Janeiro, em Paris, na Amazônia e nas civilizações mais longínquas. Tudo isso me aconteceu por que tu sempre foste solidário. De mãos dadas, fortalecemos nossos laços. Por tua causa, conheci outros amigos: vocabulários requintados, histórias fascinantes (alegres e tristes).


Não pretendo ser redundante, mas eu amo você. Gosto de ler tudo aquilo que proporcionas a mim. Contigo compreendi as pessoas e seus dramas, testemunhei encontros e desencontros amorosos, inventei paisagens.


Sim, devo dizer a verdade. Aprendi contigo a viver a dor e a solidão. Confesso que posso e devo compartilhar todo esse peso com você. Mesmo que muitos menosprezem a tua importância, não entendo: como podem te ver como inimigo, quando a tua missão é iluminar nossos passos?


Eu nunca vou te abandonar. Sempre haverá um tempo  e um espaço  para ti. Pode ser no vagão do trem, numa viagem de avião, em um dia chuvoso, ou na ausência de existir.


Levarei comigo tuas frases, planetas imaginários e mestres que transformam a palavra bruta em diamante. Estou aqui para abrir e folhear tuas sublimes páginas, meu amigo livro!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Meu querido

Por Nana Yamada




Meu querido,
A tua existência
Me acalma
Me conforta


Me faz acreditar
No amor
Na paixão
Na vida


Me ensinou
A saborear a vida
Sentir o frescor da chuva
Na minha alma


Meu querido,
Colírio para meus olhos
Me fez enxergar todas as coisas
Que jamais pude ver antes


Sonho com você
O dia inteiro
A noite inteira
Vejo meu futuro


Me tirou da gaiola
Me deu asas, e voei
Voei para bem longe, e voltei
Para seus braços

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Vanessa do mato

Por Fabio Ramos




ela mora
na
mata


mata
mata


MATAGAL


(...)


e
na
montanha


(com muita sanha)


cansou
de
imitar


BETHÂNIA


(...)


e agora
essa


CANTRIZ


quer
ser
como ELIS


(feliz)


na
passeata
da


guitarra elétrica


(...)


mas AÊ


se não lamber


CAÊ
no
PELÔ


fica sem TUTU


da
RUANÊ


(...)


e Vanessa


não
está só


nesta MARLEY:


ainda
tem


MALU
EXU
GADÚ


no CURUZU


(...)


e
se
convidar


todas
elas


para jantar


o
cheiro


(da buchada)


vai
nos


embrulhar

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Bom humor

Por Maurício Perez



Nada tão importante (e sério) como o bom humor. E como faz falta neste nosso mundo. E como precisamos ter, ao nosso lado, pessoas com bom humor.


Bom humor não tem nada a ver com ser palhaço ou soltar gargalhadas. Muito menos com o otimismo superficial, do tipo "Vai dar tudo certo!". Ouvir isso, em certos momentos, é bastante deprimente. É preciso ser profundo e ultrapassar a camada intermediária dos acontecimentos, para se ter bom humor.


Em certa ocasião, Nelson Motta conversava com Tim Maia e soltou esta:
 Milha filha adotou um gato e batizou-o com teu nome.
A resposta veio fulminante:
 Já sei... Deve ser um gato preto, gordo e cafajeste!


Rir de si mesmo é sinal de saúde espiritual, e facilita muito a convivência. Podemos imaginar o comentário de uma jovem estudante de ciências sociais, dizendo que o Tim Maia foi gordofóbico e racista. Mimimi. Preciosismo. Politicamente correto. Não é só chatice. Essa criatura leva-se muito a sério.


Como não apreciar o humor inglês, sutil e inteligente?


O cavalheiro dirige-se ao mordomo:
 Meu caro Mr. Bronson, gostaria de ter uma conversa com você. De homem para homem.
 Senhor  responde o mordomo , receio que, de outra forma, será no mínimo constrangedor!


A beleza deste tipo de humor é que não precisa recorrer a palavrões e genitálias. Quase todo o humor atual (nos filmes e nas redes sociais) enveredou por aí. Adultos rindo como meninos adolescentes.


Bom humor é mais importante que oxigênio nas horas difíceis, quando o ar fica carregado. Quando a discussão familiar vai tomando ares de brigas e ofensas. Um comentário feliz e a tempestade se desfaz. Tira-se o peso do que não deve ter peso.


A família tinha uma boa condição financeira. Carro bacana, viagem anual para a Europa. Chegou a crise e teve que mudar de bairro, vender o carro e comer quentinha. Isso pode ser visto como o fracasso total. A vergonha diante dos amigos e amigas. Há, inclusive, quem mata a família e se mate depois por causa disso. Mas há quem diga que agora mora em Big Field (Campo Grande), anda de Mercedes (ônibus) e gosta de frequentar o restaurante Chez Moi (Minha Casa).


O brasileiro deu mostras disso em 2014, na Copa do Mundo: as pessoas exigiam hospitais e escolas com padrão Fifa, havia black blocs nas ruas etc. E tomamos o 7 a 1 da Alemanha. Poderia ter sido a fagulha de um grande incêndio, de muita violência; mas as brincadeiras, nos memes e nos bares, evitaram uma tragédia. Nosso povo também tem qualidades invejáveis.

É autor do blog Correio Chegou.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

clareia, à beira.

Por Ana Paula Perissé




                                              retorno
                                              à vela
                                              semi-acesa
                                              à casa
                                              que de mim
                                              faltou.


                                              torno-me
                                              com voltas
                                              num algo de saber
                                              com gosto de cais.


                                              retomo
                                              a costa florida
                                              como se fosse
                                              a primeira vez.
                                              ( em mar)


                                              revoltas em desvario
                                              calmo.

domingo, 2 de dezembro de 2018

sábado, 1 de dezembro de 2018

Coisas do Brasil

Por Meriam Lazaro


Imagem: Carlos Morales


Pescador, por que te espelhas
nas águas claras do rio?
Madrugada, lua cheia...
Tu sem mar eu sem navio.
Nuvem pequena no céu,
peixe pegou o desvio,
na rede o aluguel do mês,
a faca que perdeu o fio.
No Araguaia, o tambaqui,
por aqui nadou a escarpa.
Cheira só a patchouli,
erva mate doce e napa...
Fafá cantou de Belém
Pauapixuna e xote,
carimbó dançou também
o Pinduca lá no Norte.