quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Amor que desconheço

Por Nana Yamada




O amor que desconheço...
Te quero tanto
Te espero tanto
Te guardo tanto
Por tanto tempo fico imaginando
Como seria me apaixonar por seu sorriso
Fico imaginando tudo aquilo que
Já existe em algum lugar
Vivendo nosso amor
Em busca do nosso amor

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Óleo nas engrenagens

Por Fabio Ramos




Deus
sabe


(a energia)


que
ela


despende:


nesta
idade


CAMINHAR


exige
muito


de suas pernas


(...)


chegou
no
recinto


(e deparou-se)


com
aquilo:


ninguém senta


pois
os
bancos


estão reservados


(...)


além
disso


há senhoras


que
largam


bolsas e roupas


nos
assentos


VAGOS E SOMEM


(...)


ela
até
poderia


(indicar a grosseria)


no
entanto


preferiu o silêncio


(...)


Deus
sabe


que esta filha


não é
de


se queixar

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Geração pós-pílula

Por Maurício Perez



Na França, há um surto de mulheres abandonando a pílula anticoncepcional. Logo o produto que é visto como um rito de passagem para a vida adulta de muitas mulheres do Ocidente e também como símbolo máximo da libertação sexual. O que acontece?


Passados 50 anos do seu uso massivo no Ocidente, a poeira assentada, é possível ver as coisas com um pouco mais de serenidade. Os efeitos colaterais de um fármaco  que não é remédio para uma doença e que mexe com o delicado equilíbrio hormonal  são muito fortes para continuar sendo ignorados.


Já são vários livros publicados por mulheres no exterior contando suas experiências nefastas com a pílula (Sabrina Debusquat em J'arrête la pilule ou Holly Grigg-Spall em Sweetening the Pill: Or How We Got Hooked On Hormonal Birth Control). Há também o caso de Barbara Seaman, jornalista americana, que foi banida dos jornais onde escrevia, sob pressão da indústria farmacêutica, porque dava informação clara para as mulheres sobre os efeitos colaterais dos contraceptivos. Agora, todas essas mulheres contam com a ajuda de alguns grandes jornais; que passaram a dar espaço para o tema. O progressista Le Monde recolheu mais de mil testemunhos de francesas que largaram a pílula.


O momento crítico foi em 2012, quando 30 mulheres entraram na justiça contra 4 fabricantes da pílula, após sofrerem acidentes vasculares graves, embolias pulmonares e tromboses venosas. Elas tomavam pílulas de 3ª e 4ª geração, que são as mais modernas. Tendo em conta esse risco, o Ministério da Saúde francês decidiu suspender o financiamento que dava para fabricarem essas pílulas. Uma em cada cinco mulheres deixaram de usar esse método e migraram para o método Billings (natural) ou para o preservativo.


Já são muitos os estudos que apontam os efeitos colaterais: em 2006, o Mayo Clinic Proceedings apontou que o risco de câncer de mama cresce 19% em mulheres com menos de 50 anos que usaram a pílula. E para as mulheres que usaram a pílula antes da primeira gestação, esse risco de ter câncer de mama sobe mais 44% (um fato que costuma ser ignorado nas fofas campanhas do Outubro Rosa). Um estudo mais recente, de 2016, da revista JAMA Psychiatry, relaciona o uso da pílula com eventos mais frequentes de depressão e transtornos do humor. Isso para não falar em aumento de peso, fadiga e perda da libido.


Na França, uma mulher de 60 anos dialoga com sua filha de 30:
 Mas, filha, a pílula foi um instrumento de libertação da mulher da minha geração...
 Eu sei, mãe, mas eu quero me libertar também da indústria farmacêutica!


A pílula converteu a mulher em dona absoluta da fecundidade; que ainda teve que lidar sozinha com todos os riscos e problemas. Agora, por ironia da história, as que migram para os métodos naturais obrigam os homens a compartilhar o fardo das suas decisões.

É autor do blog Correio Chegou.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

vento de voz

Por Ana Paula Perissé




                                            vento de voz
                                            de areia,
                                            imensidão tão séria
                                            fala-me a navegar


                                            que de tão pequena
                                            eu me sou.
                                            mutada em cada sopro
                                            de duna
                                            brincante de vida
                                            a esmo


                                            porque recolho
                                            rastros de mar
                                            ao pôr-de-sol.


                                            (vento de voz
                                            é silêncio
                                            que afaga ou machuca.)

domingo, 4 de novembro de 2018

sábado, 3 de novembro de 2018

Piano

Por Meriam Lazaro




O piano toca,
só você não vem...
No palco, uma hora,
ensaiou a quem?
Voz aveludada,
caminhos de ontem,
chama o alto-falante,
embarca ninguém.
O piano afoga
mágoa e Zepelim.
A folhinha vira,
o cinco retém
o Chanel que aspira.
Emoção contém.
O piano roça,
suave querer bem,
já não é estrela,
não dança Chopin.
Cisne bailarina
quer morrer também,
quando desafina...
Batuque meu bem!
O piano toca
nota de desdém...
Nada mais importa
se você não vem.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Noite morna

Por Mayanna Velame




Fim de domingo. Debruçada sobre a escrivaninha da sala, rascunho algumas palavras secas, com raízes retorcidas. Elas estão impregnadas de fungos. Lá fora, vozes exaltadas gritam. Fogos de artifício estalam no céu de uma noite morna. Aqui, meu coração inibe-se com o futuro (que os homens dizem agora escrever).


Neste momento de veemência partidária, seria interessante ler uma crônica machadiana  repleta de sarcasmos e ironias; a destilar cinismo nas entrelinhas. Melhor ainda seria ler Drummond, em letras gauche, exprimindo todo o sentimento do mundo. Ansiamos o amanhã, mas nossas dúvidas nos abraçam com força. Sim, esse mundo é um esboço constantemente reescrito pelos homens. E há aqueles que não se cansam (e muito menos se envergonham) de redigir sua história com tintas de hostilidade e discórdia. Há muitos Policarpos Quaresmas por aí. Entre o ideal e o real, eles vivem em bolhas de ingenuidade.


É preciso fechar os olhos e esquecer. Tudo se dissipa  e aquilo que acreditamos, há de ser. Lá fora, gritos e buzinas. Aqui dentro, apenas o silêncio. Meu coração bate ao apanhar teus poemas (aqueles que você não me entrega).


O sonho será sempre sonhado: nas esquinas, nas salas de aula, nas ruas, nos ginásios. Nos quartos com janelas trancadas. Em cada livro dessa estante empoeirada, ainda há de existir a formosura da esperança.


Nossa noite é morna. Estrelas se escondem entre farrapos de nuvens. Carros desfilam sobre o asfalto quente. Estendo minha mão e tu a seguras contra o peito. Não tenhas medo. Sabemos que o amor é onipotente. Ele supera a cólera exibida nas catedrais. Somos fortes. Entenda o seguinte: nada pode ser mais importante do que eu e você. Não podemos morrer hoje. Para sermos a resistência do amor, é preciso viver.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Em busca de você

Por Nana Yamada




Pego minha taça
Acendo meu cigarro
Em busca da inspiração
Que eu perdi
Em algum lugar
Em algum tempo


Cada gole tento pensar
Em algum sentimento
Em algum pensamento
Em alguma lembrança
Em alguma palavra
Em alguma coisa


Acendo o cigarro novamente
No meio da fumaça, tento achar...
Músicas me fazem companhia
Nessa escuridão, olho para as estrelas
Tento achar um caminho até você
O único motivo dessa escrita


Taça vazia
Me embriago em você
Que demora tanto e não aparece
Quantas vezes terei que fazer
Minhas malas?
Quantas vezes terei que partir
Em busca de você?