domingo, 8 de julho de 2018

Estiagem

Por Oswaldo Antônio Begiato


Imagem: Adriano Santori


Dói no velho olhar
Uma frágua  a falta d'água.
Sertão vira mar.

sábado, 7 de julho de 2018

Pandora

Por Meriam Lazaro




Se me morre a esperança
não sobrevivo, padeço.
Do desespero, a dança,
da luz do dia, adoeço.
Por isso o Céu me alcança,
me eleva em nuvens sem medo.
Pra que de novo a esperança,
da caixinha, abra o segredo!

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Tantas vezes

Por Nana Yamada




Tantas vezes
Deixei que as palavras
Falassem por mim
Deixei os momentos
Acontecerem naturalmente


Tantas vezes
Me envolvi no seu olhar
Tão envolvente
Nas suas palavras
Tão macias


Tantas vezes
Gritei seu nome
No silêncio da noite
Fiquei a te olhar
Enquanto sonhava


Tantas vezes
Acreditei no seu amor
Num novo recomeço
Numa nova história
No nosso caso sem fim...

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Acima do ilusório

Por Fabio Ramos




garantiu
ao


(espelho)


de
manhã:


1. vou


aprender italiano
amanhã


(...)


2. vou
sair


com meu


vira-
lata


amanhã


(...)


3. vou
rezar


(ardorosamente)


amanhã


(...)


enquanto isso


em
seu
automóvel


acompanha a canção:


amanhã
será


um lindo dia


(...)


freios
na
estrada


são acionados


e
BUM!


(...)


amanhã


vai
honrar


o compromisso:


estar
na missa


de corpo presente


dentro
do


caixão

terça-feira, 3 de julho de 2018

Companheiro Alejandro

Por Denise Fernandes




Quando um idealista morre, seus ideais não morrem com ele. Para os netos, ele vira uma estrelinha lá no céu, fácil de localizar. Para os filhos, ele vira semente. E a semente vira fruto. Para sua esposa, ele vira saudade.

Seus amigos lembram da sua alegria de viver.

Para a matéria, ele vira cinzas. E as cinzas viram árvores. O pó nos fertiliza. E nos matando, nos torna imortais.

Quando um idealista morre, seu velório não é triste. Principalmente porque ele não desejou um velório triste. Ele viu a morte como a comemoração da vida. E quando comemos e bebemos no velório, brindando a sua saúde, ele riu conosco. O amor é imenso em seu luto.

Enquanto ouvíamos "Gracias a la vida" em sua cremação, pois ele assim o desejava, passou um filme de bons momentos compartilhados. E não era tristeza o que sentíamos. Era um sentimento estranho de transformação, que emocionava o corpo inteiro. Rir, chorar, viver, morrer. O vento dos ideais nos transpassava nesta noite quente, em pleno inverno, que mais parece verão. E assim nos despedimos do companheiro Alejandro. Por enquanto.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

mulher com olhos de resíduos de terra

Por Ana Paula Perissé




                  a estrada ainda viça
                  um desejo, solidão tem rosto que borboleteia curva radical
                  com a serra no olho que viceja
                  kms de terra batida chegam com libélulas de arfar
                  no vazio da casa que não mais há


                  a estrada ainda viça
                  a mulher com bolsos de resíduos de terra
                  engana o silêncio
                  com sua fôrma de carregar horizontes
                  pela BR mãe do poema
                  vagabundo
                  cheio de trilha


                  desembesta porque quero
                  estrelas sonhando musgo


                  .
                  .
                  a estrada ainda viça

domingo, 1 de julho de 2018

Água furtada

Por Oswaldo Antônio Begiato




Sempre pensei que água furtada
Fosse a crueldade que faziam com a sede.


Depois de velho é que fui descobrir
Que, por falta de castelos com torres,
Água furtada é onde sempre
Esteve escondido o meu amor.


Crueldade que fizeram com minha sede.