quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Carne é Friboi

Por Fabio Ramos


 
 
se
a gente
fatiar
a
roberta

 
é
churrasco
pra
mais de
mês

 
se
a
gente
desossar a
bruna

 
o
cachorro
será
eternamente
grato 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

presença

Por Ana Paula Perissé




                                    há algo vago
                                    tão ausente,
                                    tão demasiado presente
                                    que preenche em nome
                                    de 1´ falta


                                    tormenta.


                                    inominável
                                    (alcunha maldita)


                                    sem pistas
                                    busco no mato, em terra
                                    ou no canteiro de figos verdes
                                    de minha infância


                                    o que me falta
                                    darias pra mim?


                                    o que não te assombras
                                    darias pra mim?


                                    ( apenas um rastro azul de veias
                                    em derme branca.)

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Idade

Por Oswaldo Antonio Begiato


 
 

Minha cadeira
quebrou de novo.
É a terceira vez
que se põe a quebrar
impiedosamente.
 
 
Penso que apesar de estar
definhando
ando pesado demais.
Ando pensando demais.
 
 
Será a idade?
 

sábado, 31 de janeiro de 2015

Crianças da Internet

Por Meriam Lazaro


Imagem: Meriam Lazaro


Dizem que o computador é máquina de fazer doido. O que me leva a pensar nas loucuras proibidas e permitidas do mundo virtual. Nas proibições, estão o furto de dados, a violação de direitos autorais, a exposição indevida de crianças e outros delitos, alguns reconhecidos por leis recentes. Fora da lei há os pecados, são tantos!... O vício de dar uma espiadinha na caixa de mensagens, curtições no Facebook, notícias no Twitter, imagens no Instagram, etc. É por aí o vão das horas. Quem escreve no ambiente virtual, não consegue imaginar o que era para os antigos escritores aguardar dias e dias pela opinião dos leitores. Alguns, mais reticentes, nem o queriam, preferindo o anonimato ao longo da vida ou dos séculos. Essa espera não cabe agora. A infância esticou, permitindo às crianças da internet postagem de textos e imagens, com instantâneos afagos ou alfinetadas do outro lado da tela. São crianças de todas as idades, dos pequerruchos aos nonagenários. Bastam dois dedinhos, visão razoável e gosto pela exposição de ideias ou imagens, sejam próprias ou por empréstimo de outros, com os quais normalmente concordamos. Quem carece de fama, se coloca sob os holofotes dos famosos. Eu posto, tu postas, ele posta, todos curtimos!! Curiosamente, surgem tacitamente regras de etiqueta. Eu comento, curto e cutuco você, mediante retribuição de comentário (elogioso, é claro!), curtição e cutucão de sua parte. Sem essa reciprocidade, magoo. Fico emburrada no meu canto, formulo hipóteses para justificar porque a raposinha não liga mais para a sua rosa. Sendo das mais carentes, abro o berreiro drummondiano para saber por que me abandonaste, se sabias da minha fraqueza? É um mundo novo, onde até nossa identidade sofre mudança. Triste daquele que postar comentário em desacordo com o desejo do dono da página. Salvamos ou perdemos amigos com único clique. Nessa brincadeira, Deus nos livre de ficar sem conexão!
 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Destino e incerteza

Por Amilcar Neves*

 
Difícil dizer o que faria alguém sair de carro de Capivari de Baixo para passar cinco ou seis dias em Curitiba, cidade que não conhece, em que jamais esteve e onde não tem amigos nem parentes. Pior ainda se considerarmos que o sujeito não sai do Sul de Santa Catarina e vai até a capital do Paraná para algum compromisso profissional, familiar ou religioso. Tampouco vai a turismo, cultura, esporte, lazer, educação ou descanso. Vai, simplesmente. Sem imaginar o que haverá de fazer ou enfrentar naqueles altiplanos a mil metros de altitude.
 
Mais intricado ainda se te disserem que esse senhor partiu para semelhante aventura no decorrer de uma semana complicadíssima para o seu escritório de advocacia, levando consigo sua filha amadíssima e a esposa adorada. Para amenizar a situação, convocou os serviços de companhia, guia e intérprete a um sobrinho de quem se diz já ter estado pelo menos por três vezes em cada capital estadual do Brasil.
 
Assim, Jhúlia Osorinha se viu subitamente extraída do seu pacato meio habitual, vendo igualmente os seus quatro anos de idade lançados no miolo ardente e frenético da cidade grande que é Curitiba, juntamente com o pai Júlio Osório, a mãe Thúllyah Osória (da fusão criativa dos nomes dos progenitores tendo nascido o inédito nome da pobre criança) e um sujeito estranho e carrancudo chamado Manoel Osório, apontado como um parente muito influente na capital dos catarinenses e, a partir de agora, também na dos paranaenses.
 
A motivação exclusiva, o fator determinante para a realização da viagem foi um sonho recorrente tido por Júlio Osório durante três noites seguidas, pelo qual sua vida corria extremo perigo no Sul do Estado, devendo procurar salvação em Curitiba, onde haveria de ter muita sorte com uma atitude – jamais explicitada em seu nebuloso mundo onírico – que lá tomaria ao sexto dia.
 
Em cinco dias o quarteto visitou demoradamente quanto "shopping center" houvesse na terra das araucárias, evitando cuidadosamente todo e qualquer museu, teatro, biblioteca e livraria. No sexto dia, por falta de melhor inspiração, iluminação ou sonho, Júlio Osório passou em uma lotérica, apostou em todos os jogos existentes e, aliviado, retornou para Capivari de Baixo.
 
Manoel Osório torce agora por uma bolada para o tio, que lhe prometeu 40% de qualquer prêmio pela ideia salvadora das loterias.

*Conto publicado no jornal "Diário Catarinense" de 22.09.10

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Etapas

Por Fabio Ramos




correu
a
vista
pelo salão


meia dúzia
velam
o
finado


(marcão)


e
essa
carpideira
?


um kikito
pra ela


por
quê
?
pra quê
?


gastando
vela
com
defunto ruim


(...)


criança de colo
nos braços
da mãe


um
sorriso
banguela
pra
ti
 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Crise Hídrica

Por Denise Fernandes




Só pretendia me manter informada – e a crise hídrica se instalou em minha vida interior. Tive vários sonhos com essa temática nos últimos tempos.

Sonhei que virava avaliadora de água para a SABESP e nadava em vários lugares para dizer como a água estava.

Sonhei que virava nômade, de praia em praia, para estar perto da água. Nesse sonho, eu tomava água dessalinizada.

Sonhei que estava numa clínica à beira mar com uma amiga. Estávamos ali para nos tratar e também porque estávamos à beira mar, com água.

Sonhei que eu mudava para o interior por causa da crise hídrica, mas não conseguia ficar na casa nova, vivia viajando. Nesse sonho eu via um mapa com eu mesma nômade, de novo viajando pelo interior sem rumo, ou melhor, em direção à água.