segunda-feira, 16 de junho de 2014

sonho de alice

Por Ana Paula Perissé


Imagem: Salvador Dali para Lewis Carroll
Alice's Adventures in Wonderland


                          sonho içado sonho irado sonho náufrago sonho k
                          despencam texturas
                          slices de Alices
                          e pedaços vermelhos de cais

                          floresce nua
                          sem mio
                          arranhada/depurada
                          cravejada de gozo e de
                          fúria oblíqua
                          .
                          .
                          .
                          posso entrar?

sábado, 14 de junho de 2014

Janela indiscreta

Por Meriam Lazaro
 
 
 
O filme Janela Indiscreta narra a história de um fotógrafo que, com a perna imobilizada, observa de janela a janela um assassinato bem ao estilo que nos envolve na trama, quase imperceptivelmente, imortalizado por HITCHCOCK. Daquele período de quase inocência das janelas é encantador observar a beleza das divas, despidas dos recursos da plástica moderna e das imagens digitalizadas. Assim é a beleza de GRACE KELLY no filme e de tantas verdadeiras divas do cinema.

Distante da fama, as primeiras imagens da televisão foram-me explicadas como sendo de bonecos em movimento lá dentro, o que dado o tamanho dos aparelhos da época e à farta imaginação infantil bem seria possível. A indiscrição ficava por conta do uso de binóculos que, por um lado, distanciavam e, por outro, aproximavam as imagens de quem passava na rua.

Hoje o acesso à informação é de todos. Quem quiser pesquisar pela internet o seu endereço residencial, não raro, se depara com sua janela da sala ou com seu filho no jogo de bola da esquina. Assim, neste inventário não sei se contabilizo como ganho a fácil exposição de ideias e particularidades na internet ou como perda crescente a do abençoado anonimato.

Os sítios de busca da internet permitem acesso à variada informação de valor e também a lixo. O consumismo se agiganta como a maior onda do planeta. Na busca de oferecer em primeira mão a mercadoria de que o público alvo necessita antes mesmo de o saber e assim cativá-lo, anunciantes captam o que se pesquisa e se escreve na internet e o que se compra com cartão de crédito. Quem observar os anúncios das lojas ao lado de seus textos terá uma ideia do que falo.

- Ah, mas nem todos os anúncios tem relação com o que escrevo, dirão alguns. Não é bem assim. Os sítios que frequentamos têm anunciantes limitados e já ressabiados com ações judiciais sobre privacidade. Convém, entre um anúncio sobre produtos para a adolescente grávida que pesquisou na internet sobre óleos para evitar estrias na pele, outro nada a ver, como um anúncio sobre caniço para pescaria.

Depois tem gente que se indigna com anúncios em sua caixa postal sobre utensílios mágicos para aumentar isto ou aquilo. Pior ainda são os que compram o ilusório utensílio e, não obtendo o resultado desejado, se veem tolhidos de reclamar para não se expor ainda mais ao ridículo. Não se engane! O deus da internet tem olho que a tudo vê.



quinta-feira, 12 de junho de 2014

A visita de Bud, que veio de Vermont

Por Amilcar Neves*
 
 
 
Bud, de nome William, saiu de Vermont para visitar o filho que mora no Brasil.
 
 
Assim que soube que Nathan, o filho em questão, namorava uma garota brasileira em Nova York, ele correu até uma livraria de Middlebury à procura de títulos sobre o Brasil. Middlebury é a cidade mais próxima da sua casa. À época, Bud e a mulher viviam literalmente no mato. Haviam abdicado inclusive da energia elétrica. Na livraria, descobriu a Amazônia e ficou fascinado pela imensa floresta tropical. Naquela livraria, naquele momento, todo o Brasil resumia-se à Amazônia.
 
 
Bud leu o livro que comprara e tudo o mais (pouca coisa) que conseguiu garimpar sobre a região. Sem luz, não é muito o que se pode encontrar sobre qualquer assunto. As publicações impressas acabam por se tornar a fonte exclusiva de informação e conhecimento. Em sentido figurado, Bud mergulhou naqueles rios caudalosos, comparou as árvores que via nas fotos com as que tinha na sua floresta, soube de alguns bichos da mata e inteirou-se dos índios brasileiros, tão diversos dos peles-vermelhas.
 
 
Então sucedeu que o filho e a namorada casaram e partiram para o Brasil. Bud exultou: agora conheceria a única coisa que sabia do país que recentemente descobrira: a Amazônia. Com os dois morando no Brasil, qualquer que fosse o local escolhido, ao visitá-los ele estaria praticamente ao lado da imponente floresta. Um dia ele descobriria que, em extensão territorial contígua, o Brasil é maior do que os Estados Unidos, que nos ultrapassa em área apenas pela ajuda substancial fornecida pelo Alasca.
 
 
O novel casal foi morar em Feira de Santana, na Bahia, e Bud não veio visitá-lo. Mudou para João Pessoa, na Paraíba, e Bud não foi até lá. Então, estabeleceu-se na Ilha de Santa Catarina e Bud enfim apareceu. A Amazônia ficou longe (e cara) demais e Bud, por seu turno, também se mudara para a cidade (no caso, a própria Middlebury) e para a luz elétrica. Os tempos, pois, eram outros. Os interesses, eventualmente, também.
 
Em Florianópolis, Bud encontrou uma população pouco menor do que o total de todos os habitantes do seu Vermont, que soma cerca de 625 mil almas (a maioria das quais cristã, sendo os católicos o grupo religioso mais numeroso). Também encontrou muitas montanhas verdes na Ilha, o que remete simultaneamente aos 77% de cobertura do território por florestas e ao nome do estado, Vermont, batizado pelos primeiros colonizadores, os franceses, com uma descrição: verts monts, ou seja, montes verdes.
 
 
Bud não haveria de passar pelo Estado sem descer a Serra do Rio do Rastro, aventura estonteante que efetivamente concretizou num dia de especiais clareza e transparência. Na Ilha, não cansou de conhecer praias e comer frutos do mar, o que incluiu camarão ao bafo e peixe com pirão. Como não poderia deixar de ser, saboreou um autêntico churrasco gaúcho, passando pela indefectível caipirinha - mas apenas para prová-la, pois seu domínio etílico não ultrapassa a cerveja e o vinho. Seu sonho agora é aprender a usar a tarrafa. Outro dia, invejava a perícia de um garoto de 12 anos tarrafeando na Lagoa e trazendo na rede, ali ao vivo, à sua frente, peixes de verdade.
 
 
Mas o que mais o encantou, sem dúvida, foi um local em que esteve por diversas vezes, inclusive alcançando-o a pé pela trilha que leva até o Ponto 16, um dos atracadouros dos barcos que ali fazem as vezes de ônibus: a Costa da Lagoa.
 
 
- Ainda vou comprar uma casa aqui! - proclama maravilhado um Bud de 72 anos.
 
 
* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 09.04.14

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Subentendido

Por Fabio Ramos 
 

 
 
socialistas
enchem a boca
pra falar
em
"democracia"
 
 
só que
DEMOCRACIA
na linguagem dos
companheiros
significa
TOTALITARISMO
 
 
socialistas
enchem a boca
pra falar
em
"liberdade"
 
 
só que
LIBERDADE
na linguagem dos
companheiros
significa
OPRESSÃO
 

terça-feira, 10 de junho de 2014

Eu

Por Denise Fernandes
 
 


e a certeza que serei eu mesma
por dias e noites absoluta
indissolúvel
até a morte – a partícula desfeita
mas mesmo assim
continua sendo.
e por que acreditar (?)
se serei sempre só eu-mesma
pela tarde inteira
me procurando
como se eu fosse feita de ar
e o mundo penetrasse,
refletisse,
o que nem sempre sou eu
as tentativas
nem sempre felizes
de ser feliz,
o ar rápido,
a multidão.
 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

cria flor de pele

Por Ana Paula Perissé
 
 
Imagem: Alesya von Meer


      enviesada pela visão de outrora/ amaciada pelas entrâncias de memórias
      ou manhãs tardias, quase não sou. Quase não há mais espelho retrô, pele
      crua

      (evoé vida póstuma!)

      o movimento de pesar balança-me em sonho adormecido.

      floresce-me

      nua,

      de agora.

      ( não tome de supetão

      a vontade de ser)