quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Olhos de Lince

Por Daniella Caruso Gandra




Em seu ponto mais profundo foi atingido.
Pensou ser sua vulnerabilidade impermanente.
No entanto, foi com olhos de lince que a encontrou.


De alma selvagem, ofuscou tudo à volta dele,
Tomou sua atenção irreversivelmente.
Sangrando, já era vítima da sede.


E no tempo que não calculou,
Caiu na armadilha que ele próprio armou.


É só febre agora...
Sozinho, deduz onde faltou juízo.
Busca com ardor equilibrar sua dor.


Na penúria que o carrega na penumbra,
Relembra os passos que com os dela esbarraram.
E o alcançaram imprevisivelmente, atando-o eternamente.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Onde encontrar uma dessas?

Por Fabio Ramos
 

 
 
covinha
na bochecha
quando
ela
gargalha


um
senso
de humor


uma conversa
que envolve


leitura
da
essência
pelos traços


ela ouve


se faz
presente


muito
equilíbrio


(foco)


sem abandonar
a intuição


é apenas
sua
conduta


seu
modo
de encarar o
amanhã
com



(...)


nenhum cigarro
entre
os
dedos


nenhuma
tatuagem


somente
um
copo
que transborda
amor


e
uma
comunhão

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Guarda-chuva

Por Denise Fernandes




Então, largamos os guarda-chuvas no teatro, bem perto da porta, em um local onde não nos esqueceríamos deles. Está chegando dezembro. Estou dentro da minha média: perco uns dez guarda-chuvas por ano. Tentei modelos e cores diferentes; lutando contra a inevitável perda. O vento rouba meus sentimentos de posse.

No começo da vida, quando era muito jovem, eu voltava para buscar. Noventa e nove por cento das vezes a busca acabava mal. Nem bem eu dava quinze passos longe do cinema, ou da loja, e o guarda-chuva já havia desaparecido. Outro dia tentei de novo, ao abandonar um guarda-chuva enorme e prateado num restaurante. Mesmo assim, ninguém o viu por lá.

Objeto oculto do desejo, raptado tantas vezes de mim (sem culpa alguma de quem o leva). Será minha bengala e meu escudo pela vida afora. Quando criança, eu sabia que caminharia na chuva. Achava admirável quem enfrentava o temporal. Agora sei que o aguaceiro é meu pensamento. As palavras são como a chuva: água que corre, lavando as lembranças dos guarda-chuvas que esqueço, e das pessoas que jamais esqueço.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

olhos vidrados na mudança de lua

Por Ana Paula Perissé


 
 
                              e a volta vem
                              sem face
                              nua e pálida
                              tal como ruas disformes¨
                              ¨todas iguais
                              pavimentos cruéis
                              sem pulso
                              ou resquício de origem



                              à semelhança de desvio
                              afasto-me
                              e emudeço



                              quero ser
                              todavia perdida
                              em meu caminho
                              na vida
                              nonsense
                              navalha afiada
                              garganta desfolhada
                              sem voz
                              sem vento
                              sem brisa



                              (meus olhos vidrados na mudança de lua)

domingo, 1 de novembro de 2015

sábado, 31 de outubro de 2015

A Árvore

Por Meriam Lazaro


Imagem: Meriam Lazaro


Dá fruto, paina e flor,
A sombra pelo caminho
Das folhas que vêm e vão,
Onde as aves fazem ninho,
Até os enamorados,
Num rito de amor pagão,
Deixam no caule riscado
Dois nomes e um coração!

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O QUE É QUE HÁ

Por Hélio Sena

 

E havia o frio
e o escuro.


E havia
o medo também.


Para o frio,
havia o cobertor;
para o escuro,
havia a luz;


Para o medo
– fazer o quê?


E havia a noite,
havia o mundo,
havia a vida,


Havia eu...


Pois é, né?
– vai entender.
 
 

Cearense, professor, autor confesso.
Lançou seu primeiro livro, "Falsidade da Noite" (contos), em 2012.
Escreve no blog Entre Palavras.