quinta-feira, 14 de maio de 2015

Lugares para se viver

Por Amilcar Neves*


Não é, este, o caso de Nova York. A começar porque se trata de uma ilha, com as limitações geográficas que se aprende já nos primeiros anos de escola: um pedaço de terra cercado de água por todos os lados. Depois, para complicar ainda mais as coisas para a grande metrópole, para a capital do mundo: uma ilha fluvial, cercada de água doce por todos os lados. Nada mais lamentável para contaminar o lugar ideal de se viver. As praias de verdade, de mar esverdeado e ondas fortes, ficam distantes; não há, logo ali, uma Avenida Atlântica lambuzada de maresia. Isto é fatal para as pretensões de uma cidade que se candidate a lugar ideal para se viver.

Morar, mora-se onde está o dinheiro, a família ou o trabalho. Mas, para viver, as exigências são de uma precisão que beira o perfeccionismo. Claro, senão jamais será o lugar ideal para se viver.

Nova York ostenta outro grave pecado: a falta de morros, de cima dos quais o tráfico e seus clientes da classe média podem ter uma visão do paraíso, podem desfrutar de uma amplidão de horizontes que só quem conhece os picos de pó e erva consegue avaliar. Quem lá nunca esteve, nesses morros, não faz ideia sequer aproximada do que seja essa vastidão que abarca a cidade lá embaixo, o mar lá adiante.

A melhor coisa que Nova York tinha veio dos anos 80 do século passado, aquela década de maldição da pólis: era a emoção de caminhar por suas ruas assustadoras e suas praças sombrias sob a constante ameaça de um assalto com arma branca; com sorte, sob o risco iminente de um estupro. Tinha, porque chegou depois um sujeito com a história da tolerância zero e acabou com isso tudo.

Poderia pensar-se em Florianópolis como um local aprazível para viver. Mas não. Começa que é uma ilha, embora oceânica. Dispõe de morros na sua área central, dispõe de periferias cada vez mais violentas, gradua-se nos assaltos e homicídios como cidade grande, habitua-se ao festival de balas perdidas e fogos amigos. No entanto, de que servem 42 praias em torno da Ilha de Santa Catarina (quando será que as pessoas vão decorar este como sendo o nome correto da ilha?) se não faz calor o ano todo, como no Rio de Janeiro? Uma cidade em que se morre de tanto frio no inverno que nem dá para sair do carro, para sair de casa.

De que serve para viver uma cidade, qualquer cidade, que não tem Vasco, Flamengo, Fluminense e Botafogo?

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 11.08.10

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Sem Nicotina

Por Fabio Ramos
 
 


sai fumaça
da boca
 

embora não
esteja fumando
 

(é o frio)
 

 

sai
fumaça
dos ouvidos
 

quando ele
se põe
a
pensar
 

(1 + 1)





sai
fumaça
do
bueiro
 

tome
cuidado
com a tampa
de
ferro
voadora
 

(cautela)

segunda-feira, 11 de maio de 2015

sem pouso

Por Ana Paula Perissé


Imagem: Fabian Perez



                                         à beira d´uma varanda
                                         de chão em ruínas
                                         a vida passa
                                         com pressa
                                         e o quê deixa
                                         em seu rastro
                                         vem-me em volúpia
                                         imóvel


                                         já sem as lágrimas
                                         ainda em flor.


                                         (ainda
                                         porvires)


                                         e as janelas
                                         já sem pouso
                                         sorriem para lado nenhum.


                                         ( entre-mundos
                                         vivo
                                         sem uma saber da outra)

 

domingo, 10 de maio de 2015

sábado, 9 de maio de 2015

Para ser telúrica

Por Meriam Lazaro




Em tempos de amor pela Terra, encontro pessoas desfraldando a bandeira do naturalismo, o que é maravilhoso. Também vejo muita contradição entre discurso e ação (o que é parte do ser humano).


Começo pela mais recente, que me chocou e inspirou este arremedo de crônica. Uma amiga vegetariana, que busca iluminação através dos mestres ascencionados – aquela turma do Saint Germain e da vela roxa –, mostrou-me, bem feliz, duas aquisições: estolas de pele de coelho, para usar no inverno.


Outra amiga, também cuidadosa com a saúde, não admite se alimentar com nada aquecido em micro-ondas. Mesmo não tendo um aparelho desses, ela sonha em destruir tal parafernália cancerígena (e demoníaca) com um machado. Talvez ainda não a informaram que o cigarro é um dos maiores causadores de câncer; pois ela fuma vários “hollywoods” por dia.


Esta que vos escreve – atualmente na fase da soja – só usava leite desnatado em um de seus inúmeros regimes. Mas comprava nata para passar no pão.


O próprio Freud (que sistematizou a psicanálise através da fala), fumante inveterado, morreu com câncer na boca e, segundo dizem os biógrafos, devido a uma dose letal de substância química, ministrada por ele mesmo. O que em nada diminui seu mérito.


E, assim, vamos levando nossas contradições. Se não aprendemos a ser mais coerentes, quem sabe nos tornamos um pouco mais humildes. Ou, ainda, substituímos as manias. O que pretendo afirmar? Que tudo está certo, que integra a cadeia evolutiva, mas que nem sempre percebemos isso. Mais fácil, sem dúvida, é notar as contradições no semelhante – o espelho à nossa frente.


Eis a função do outro, como há muito já foi dito: refletir nosso próprio retoque e refinamento.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Enigma nas sociais

Por Amilcar Neves*


Circulou tanto, e de forma tão intensa, que chegou até Manoel Osório. Se chegou até ele, avesso às coisas das tecnologias de ponta e do mundo virtual, é porque efetivamente realizou uma bela carreira.

Tratava-se de uma frase. De duas frases, se formos rigorosos e precisos. Lendo-a, lendo-as, as pessoas passavam rapidamente adiante e nem se importavam com elas. Quer dizer, não se importavam com elas mais do que pelo fato de lhes surgirem tantas e tantas vezes, e tão amiúde, como uma campanha publicitária. Reconheciam-nas mas eximiam-se de mergulhar nelas, de tentar entendê-las, saboreá-las, decifrá-las. Estas coisas demoram muito e, ao cabo, muitas vezes não levam a nada que valha a pena. Melhor partir de pronto para a próxima frase, a próxima imagem, a próxima novidade: aquilo que mal terminamos de ler, ver ou usar já passou, instantaneamente, a ser coisa velha, lida, vista e usada. Superada, pois.

O novo, o novo – há que buscar o novo, o inédito, o surpreendente, feito os fogos de artifício que explodem em cores, formas e sons diferentes e logo se apagam para dar vez a novas explosões coloridas que extraiam sinceros e ruidosos pontos de exclamação dos peitos.

Imaginem: Manoel Osório é como as pessoas que não assistem a dois segundos de qualquer telenovela ou supostas exibições de realidade ("reality shows", no idioma da matriz), mas que, ainda assim, acabam bombardeadas por comentários e fotos relacionados a essas atrações que hipnotizam as massas. Assim foi com Manoel Osório, que foge das redes sociais eletrônicas, essas nas quais muitos seguem-se mutuamente e, indiscriminadamente, abrem a intimidade ao mundo em geral, enquanto outros, bem mais pragmáticos, contentam-se em explorar comercialmente esses filões cibernéticos vendendo, para os carentes e solitários, desde produtos do mundo físico e real até ideias, conceitos e crenças do universo das autoajudas.

A Manoel Osório chegaram as frases que só intrigam o público das redes sociais pela insistente repetição com que vêm de todos os lados, e em todos os formatos inimagináveis, assim isoladas de tudo e fora de qualquer contexto. A ele, lhe pareceu que elas trazem embutido um profundo desespero, uma ampla e cabal falta de perspectivas. Por isso, grudaram nele, apesar de vistas uma única vez. Dizem:

Cinco horas depois, o mundo continua redondo. Ou, melhor, esférico.

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 10.03.10

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Dolores

Por Fabio Ramos
 
 


a
barriga
dói
na hora de
sair
 

a
cabeça
dói
com o
peso do chifre
 

dor
de consciência
para quem
a tem
 

o
parto
que doeu
mas
passou
 

o
cotovelo
que
doeu
e continuou
 

as dores
e a
índole
vitimista
 

(junção)