domingo, 14 de setembro de 2014

sábado, 13 de setembro de 2014

Minha doce flauta doce

Por Meriam Lazaro




Na praia, as ondas rebentavam cobrindo as rochas de fantasmas em gotas. A maré vazante mostrou ao longe o farol. Como oferenda, o mar deixou na areia uma flauta vermelha e branca. Cores do farol. Era daqueles sonhos de pura sensação. Não havia enredo ou sentimento de solidão na praia deserta, apenas os sentidos visual e tátil. Se ela conseguiu apanhar a flauta não há anotação. A narrativa para quando a menina despertou com a sensação dos pés afundando sob repuxo das ondas.


Tempos depois, acordou com saudade de tocar flauta. Infelizmente, como só restaram silêncios, anos atrás havia doado as três flautas doces, companheiras da época do caderno de sonhos. O dia passou tranquilamente. À tardinha selecionou para rever o filme: “Um Lugar Chamado Notting Hill”, que começa com a bela canção de Charles Aznavour: “She”. O bairro londrino, Notting Hill, que serviu de locação para filmagem do romance é seu personagem mais querido. A feira, a livraria, as ruas, os ônibus de dois andares, as casas geminadas, os gramados, árvores e bancos de jardim.


A noite veio e a encontrou sonhando acordada com os versos da canção “Por Brilho”, de Oswaldo Montenegro: “onde vá... toca a flauta da alegria como doce menestrel”. Tecnologia a serviço da nostalgia, buscou na internet a canção pelo verso, pois ainda não sabia o nome. E não é que, além da belíssima interpretação do músico-poeta, havia... flauta!! E também havia o som flutuante de flautas em “Estrela”, “Leo e Bia” e a extraordinária canção instrumental “Loucura Amarela”. Descobriu que a artista da flauta transversa é Madalena Salles, um sopro de anjo. Seria esse o significado celeste de soprano?


O farol sinalizava mar calmo. A Lua vermelha parecia sangrar de Paixão. Baixou a persiana, apagando as luzes em colar lá na ilha. A madrugada passou flauteada.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Murais do mundo

Por Mayanna Velame




Abraço palavras

Perco-me em metáforas.

Antíteses sentimentais

impregnadas em versos

retirados de jornais...




Poesias soltas.

Versos enlaçados

em rimas imperfeitas.




Beijo palavras,

encontro-me em metáforas.

Hipérboles sentimentais.

Flutuantes versos escritos,

em murais do mundo.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Anatole, o francês

Por Amilcar Neves*
 

A casa da minha infância e adolescência, em Tubarão, contava com um escritório em que meu pai recebia seus clientes. Apesar de atuar como promotor público, na época a atividade paralela como advogado, mais do que tolerada, era permitida. Pelo que eu entendia, isso se dava pelo fato de o Estado pagar muito pouco ao Ministério Público, a ponto de se fazer imprescindível uma complementação de renda. Não sei. Pode ser que nem fosse isso, mas havia o escritório, havia clientes e havia uma placa de advogado pregada na parede de frente da casa, a do escritório.
 
 
A peça era dotada de escrivaninha profissional, papeis e todos os diversos itens de papelaria que se usavam nos escritórios (lápis, borracha, o telefone fixo, vidro de tinta para caneta-tinteiro, mata-borrão, clipes, papel carbono, fitas de impressão, em geral com uma banda preta e outra vermelha, e as estrelas do pedaço: um grampeador e, sucesso absoluto que as crianças da casa usavam para fabricar confetes, mesmo em época distante do Carnaval, um furador de papel). Completava o enxoval do reduto a indispensável máquina de escrever - logicamente de acionamento manual. Eu não a usava: porque não me era permitido mexer no equipamento, e por consequência estragá-lo, e porque à época já costumava escrever à mão.
 
 
Havia ainda dois enormes armários de madeira que se encaravam de paredes opostas. Com portas envidraçadas de correr, continham... livros. Muitos livros. Por trás da poltrona de braço fabricada em madeira, senhora absoluta da escrivaninha que a abrigava, ficavam os compêndios de Direito. À frente, a literatura. Romances. Nada de contos, menos ainda de poesia. Crônicas, então, nem pensar.
 
 
Havia uma predileção, que suspeito não fosse apenas do meu pai, mas de toda a sua geração, pelos franceses em geral: de cabeça, lembro-me de encontrar por trás daqueles vidros gente como Stendhal, Voltaire, Zola, Flaubert (o que incluía Salambô, precisamente o exemplar de onde saiu o meu nome), um pouquinho de Balzac (mesmo porque muito Balzac ainda é pouco frente à sua produção), Hugo e Dumas.
 
 
O maior deles
 
 
Ao lado de Machado e de Eça, abundantes (mas apenas com seus romances), reinava Anatole France. Herdei a coleção completa de Eça de Queirós, doada em vida por meu pai. Os demais, após sua morte, ficaram com minha mãe. Com a morte dela, desconheço o paradeiro desse povo saudoso.
 
 
Intrigava-me, por ser em espanhol, um exemplar de La Isla de los Pingüinos, todo anotado a lápis com a tradução de diversas palavras do texto. Como não conseguia a novela em português, meu pai conformou-se em comprar uma edição em castelhano.
 
 
Mas Anatole pontificava, era um ícone, sem dúvida, todo publicado no Brasil. Contava com uma credencial indiscutível em termos de qualidade (pelo menos assim eu pensava): o Nobel de Literatura em 1921, três anos antes do seu falecimento aos 80 anos.
 
 
De súbito, vejo morrer o ídolo do meu pai.
 
 
Pequena amostra
 
 
Durante décadas ninguém falou em Anatole France. Como se ele não tivesse existido. Como se jamais houvesse escrito algo.
 
 
Agora, porém, ao menos no Brasil, ele vem ressuscitando aos poucos. Essa retomada da sua obra me acende a esperança de topar por aí, qualquer dia, com A Ilha dos Pinguins (que não cheguei a ler).
 
 
Já na segunda página de À Sombra do Olmo, após ponderar que "então não merece nossos louvores o senhor prefeito Worms-Clavelin, que encara com favor nossas escolas e nossas obras?" e lembrar que "receberemos amanhã à nossa mesa o general da divisão e o senhor presidente", o cardeal-arcebispo pede que lhe mostrem o cardápio.
 
 
"O cardeal-arcebispo o examinou, emendou, aumentou, e fez a recomendação expressa de que fossem encomendadas as carnes a Rivoire, o larápio da prefeitura."
 
 
Não é uma graça?

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 20.07.14

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

É o que tem pra hoje

Por Fabio Ramos
 
 


cadeado
com
a
chave que
abre
 

descontos
do
holerite
 

ladrão
planeja mais
um
assalto
 

suor
escorre
pelo corpo
 

dor de
garganta
 

horário político
na TV
 

bonde
da maconha
na
esquina
 

coceira
onde
o
sol
não bate
 

happy hour
com
cerveja
petiscos & piadas

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Papel

Por Denise Fernandes




Com lápis e papel
desenho o mundo
tua palavra, minhas pernas.


breve terminará o cigarro
e retornarei ao trabalho...
murcha.


mas, enquanto paro,
penso.
e nada existe.


fumo
sonho e o mundo é
fantástico.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

solitudo

Por Ana Paula Perissé
 
 
Imagem: Marius Markowski

 
                                             vazia en´lua só.
                                             quando finco pé, canto
                                             névoa


                                             minha sombra já é pó

                                             .

                                             .
 
 
                                             dots en collage



domingo, 7 de setembro de 2014

Adormentar

Por Oswaldo Antônio Begiato
 
 
 
 
Porque a pele é fina
e o osso fraco
qualquer batida dói
e incha e incha...
 


Porque a alma é leve
e a mente fraca
qualquer culpa dói
e pesa e pesa...


O corpo imenso
não cabe na cama
miúda de solteiro.
Volta e meia
ele escapa dela
durante a noite
levando junto a alma.


Não sei para onde vão.
Só sei que quando voltam
a alma vem
com um jeito diferente,
assim como quem acabou
de ser desvirginada.
Aí ficam juntos os dois,
alma e corpo,
num encontro só
me deixando abandonado.


Essa é minha tristeza sem fim
e só eu sei dela.


Viver não é tarefa fácil.


Quando eu morrer
quero pois que digam:
- Ele já foi tarde!