domingo, 16 de agosto de 2020

Irascível

Por Oswaldo Antônio Begiato




Há em mim vácuos impreenchíveis
pedaços meus arrancados à força
e lançados no espaço vazio
entre corpos indesejados.


Essa sensação de estar isolado
entre tantas pessoas,
entre tantas gargalhadas,
entre tantas viagens
enerva meus sentidos
e minhas mãos tremem.


Já não posso tocar piano,
nem enfiar a linha na agulha,
nem manter o copo cheio,
nem escrever meu nome
na linha do tempo...


Já não posso com elas
dizer um adeus seguro
(eu não quero por ora dizer adeus).


E as flores?


Ai, as flores, as doces e meigas flores,
tão ternas e tão belas e tão coloridas
e tão cheias de poesias...
Eu nunca quis
me encantar com elas;
elas duram pouco
e eu estou cansado de sofrer
com perdas inesperadas
(eu não quero por ora dizer adeus).


Ando me aninhando com ilusões vagarentas
porque sei que morrerei primeiro;
o caminhar delas me ilude fazendo pensar
que o tempo é lento e que a vida é longa.


Assim sob a luz indo e vindo
entre a entrada e a saída do túnel
vou reiniciando sempre
e iludindo o fim
que me hipnotizou
pelo resto da vida
(por ora, e só por ora, não posso dizer adeus).

sábado, 15 de agosto de 2020

Sem tempo

Por Meriam Lazaro




Sem tempo para a poesia
Já não tenho nenhum laço,
Essa ausência me angustia
E em cinzas me desfaço.


No palco da alegria
Da ribalta há o palhaço,
Sem riso e sem magia,
No rosto, amargo traço.


Deságuo sem calmaria
Nesta maré de mormaço,
Troco o pão por fantasia
E adormeço de cansaço.


Imploro à Virgem Maria
Que me leve em Seus braços,
Antes que esta agonia
Tome a ternura por aço.


Não choro noite nem dia,
Indiferente eu me faço.
Estranho a travessia
Que sigo passo por passo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Recomeço

Por Nana Yamada




Recomeço todas as vezes
Quando quero renovar
Provar o que há de novo
Novas tentativas e conquistas
Novas metas e oportunidades
Novas chances de reconstruir
Novos sonhos a traçar
Dar espaço para tudo aquilo
Que seja leve como o vento


Recomeço todas as vezes
Quando acredito n'Ele
Que cada acontecimento
Faz parte dos Seus planos
Eu acredito que todo dia é dia
De tentar e reconstruir
Basta saber esperar
Basta saber viver
A cada segundo que perdemos
A cada segundo…

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Negociar contigo

Por Fabio Ramos




abaixo
de


zero


no
saldo:


CINQUENTA


por
cento
de nada


lhe parece uma boa?


(...)


acima
de


um beijo


na
boca:


VINTE POR CENTO


no
ato


parcelado


em
suaves
prestações

terça-feira, 11 de agosto de 2020

A Sacerdotisa

Por Denise Fernandes




A Sacerdotisa inspira minha vida. Ser mãe é meu norte. Mesmo não sendo a mãe maravilhosa que gostaria de ser. Mas não conheço realização maior. Seios cheios de leite, útero repleto com bebê. E a sensação de ser uma lua cheia, uma lua plena de lua, sendo mais em si mesma.

Todas as mães, com suas emoções, navegando na Via Láctea. E o leite sendo rio, alma, sonho. A Sacerdotisa nos traz os sonhos que alimentam a alma. E os sonhos dos meus filhos me fazem sonhar. Mais que sonhar, me trazem energia que alimenta, bálsamo sagrado, sorrisos, bem-querer. Só quando cuido, minha alma se conforta.

Mãe-lua que cuida de mim: mãe na minha mãe, leite essência, mãos dadas, sintonia de almas. Mãe de gestos, de linhas que tecem a nova manta do nenê. Dualidade feminina em mim, na minha mãe, no colo masculino. Lágrima que não é triste.

Lar, família, ninho, aconchego. Cheiro de bolo assando. Nebulosa planetária. Seio materno. Passarinho cantando ao amanhecer. Cheiro de dama-da-noite. Memória. Saudade. Estrela supernova. Tempo-espaço. Intuição de toda emoção. A Sacerdotisa me nutre, me fazendo receber e ceder.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

encanteria da lua da quarentena

Por Ana Paula Perissé




desafio encantamento
e nado
na extensão de teu
corpo,
só.


e de todos os rumos
deste vagar
há 1´espelho
onde 2 faces
se encontram
em tempo lunar:


há simetrias
há sorrisos
mas são desvios
.
.
encanterias.

domingo, 9 de agosto de 2020

Milagre

Por Oswaldo Antônio Begiato




Infarto fulminante
matou o relojoeiro.


A família descompensada
e descompassada
jogou no lixo
os relógios velhos.


Quanto tempo jogado fora!


Domingo pela manhã,
o padre reza missa
preparando o povo
para o final dos tempos.


Enquanto isso
o catador de entulhos
ajoelhou-se frente a tesouro
tão valioso,
juntou todas as horas mortas,
guardou-as dentro de seu saco
e murmurando uma prece
soprou-lhes vida.


Mais que depressa,
as horas voltaram a passar!