terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Olhos

Por Denise Fernandes




Fecho meus olhos

Quero te esquecer

Mesmo sabendo

a dor de perder



Além das palavras

Não há solidão

Apenas o sol fazendo

a cor do saber



Se eu pudesse perdoar

Entender sua raiva

Faria um remendo

a flor do renascer



Mas só posso

ver o passado

dentro dos meus olhos

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

núpcias barrocas

Por Ana Paula Perissé




                                    quero-te
                                    em sussurros étnicos
                                    quase poéticos
                                    (já o são)
                                    como brisa de alhures


                                    Outro em mim
                                    vendaval de agonia
                                    pensamentos sensoriais
                                    teorização do sensível
                                    sussurrante
                                    estética do gesto
                                    do hálito
                                    verdejante olhar


                                    uma distância
                                    da quase incompreensão linguística
                                    que deixa rastros
                                    fragmentos
                                    do muito-não-dito
                                    perceptível em poros
                                    ou deslizes sutis
                                    de vagas
                                    em alucinação nocturna


                                    Babel adorável
                                    pois significantes em fôrmas
                                    desejantes
                                    ousam vontade
                                    de um encontro de passagens


                                    cheiro e aromas
                                    de paragens à beira da vertigem
                                    da diferença
                                    suave e tênue
                                    de ardor.


                                    (o embalo do distante
                                    acalenta minhas dúvidas
                                    em colo de núpcias barrocas)

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Paragem apenas

Por Oswaldo Antônio Begiato




Não faço parte
da paisagem,
faço parte
da passagem.


Sou penugem,
sou asas,
não tenho casa,
não tenho causa.


Ando por aí,
andarilhando pensamentos,
ladrilhando caminhos...


Não me permito falsidade.
Ser feliz não me é prioridade.


Quero a liberdade
que somente a verdade
e a tristeza
me concedem.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Canora

Por Meriam Lazaro




Sigo o caminho do vento...
Corro em nuvens de algodão.
Azuis, viagem e sentimentos,
Sobre a cabeça, a imensidão.


Vejo, da eternidade, o momento,
Desenho nas linhas das mãos.
Voraz, marca e sofrimento,
Traçado em velha constelação.


Toco o paraíso e o relento,
Ferida em véu de ilusão.
Veloz, em meus pensamentos,
Sob os pés, poeira e avião.


Canto, da graúna, o tempo...
Pintura em tela de devastação.
Atroz, persigo arrependimentos.
Da ave canora, voo a solidão.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Dois em um

Por Nana Yamada




Tantas vezes tentei te deixar na sombra das lembranças
E continuar a seguir essa estrada sem você
Mas nunca soube desconectar essa linha
Direta que sai da minha alma
Não sei lidar com esse sentimento tão indomável
Mais que um tufão, mais que um terremoto
Mais que qualquer coisa que não se explica
Será o destino a testar
Tendo nosso caso como exemplo
Para aqueles que nunca desistiram
Porque sempre acreditaram que
Quando há uma conexão inexplicável
Quando o tempo não leva
Quando o amor sobrevive a toda barreira
Estamos prontos, mais uma vez,
Para reviver aquilo que não vivemos
Viver tudo aquilo que sonhamos Ser dois em um…

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Jumento

Por Fabio Ramos




botou a carne para
bronzear
na


(churrasqueira)


no
fim
de semana


e
chamou


OS MAIS CHEGADOS


(...)


a fumaça da
grelha


que
não
conhece


(jurisdição ou fronteira)


perpassa o
muro
e


invade a casa


do
vizinho
(vegetariano)


(...)


o natureba


com
seu


aspecto


de
anemia


ENGULHA E VOMITA


e
no
auge


(daquela agonia)


sobe
no


muro


e
grita:


SEU ASSASSINO!


(...)


diante
da
cena


o carnívoro retrucou:


não
gostou?


(vai comer capim)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Deixem seus maridos serem homens

Por Maurício Perez



Namorados, noivos, maridos e pais estão com uma nova agenda: em uma sequência de sábados, precisam comparecer a um chá de panela, chá de fraldas, festinha de aniversário de criança de 2 anos, reunião no colégio, ir às compras no shopping center etc. Todos esses eventos são marcadamente femininos ou infantis. Está difícil para um homem poder exercer sua masculinidade.


Ser masculino não é ser grosseiro, sujo, fedorento, e nem precisa cair na baixaria. Mas, por outro lado, um homem não costuma se sentir bem numa festinha de criança  onde as mulheres conversam sobre o cabelinho da filha e um animador de buffet distrai a molecada com bobeiras insuportáveis. Olhe para a cara dos homens ali presentes. Veja o desconforto e como escapam para um canto, onde conversam sobre futebol, crise econômica e até literatura (aos goles de uma cerveja).


Eles passaram a ajudar em uma série de atividades domésticas: lavar louça, cozinhar, pegar os filhos na escola... Ótimo. Justo. Mas se juntamos a isso a tendência feminina de controlar tudo e todos, temos, agora, um homem que não consegue se desvencilhar. Dou alguns exemplos, que variam na medida do gosto e do perfil de cada um: jogar futebol sábado de manhã, surfar com os amigos, ir para a garagem e usar suas ferramentas, andar de moto com a turma, fumar um charuto e apreciar um uísque, pilotar um drone, curtir seus vinis etc. Como sabemos, a diferença entre um homem e um garoto é o preço de seus brinquedos. Sim, eles não são maduros como as mulheres. Faz parte da natureza deles. Essas ocasiões também constituem um verdadeiro aprendizado para a masculinidade.


São espaços sagrados e o homem volta com a energia renovada  pronto para lavar a louça e discutir a relação. Tire isso dele e, um dia, a coisa pode explodir: ele vai procurar uma válvula de escape (e pode ser de um jeito ruim). Ele pode se cansar, jogar tudo para o alto, se separar da família e querer fazer outra coisa da vida.


Os homens não pedem para a mulher deixar de ir ao cabeleireiro, ou de fazer as unhas na manicure. Também não pedem para ir junto com elas. Portanto, mulheres, controlem o ciúme e o impulso de mandar. Não proíbam o futebol semanal, não queiram se meter com a turma dele e não o convidem para um chá de panela. Deixem seus homens serem homens. Eles vão agradecer.

É autor do blog Correio Chegou.